Micro

           
Ele se aproxima do microfone, seus olhos estão tremendo. Seu corpo é magro e sua face parece refletir anos de abuso. Sua camiseta parece rasgada e suja por pelo menos por algumas semanas. O bar está vazio, o lugar é pobre, e ele tocava pelas cervejas que lhe davam. Seus pais haviam lhe ensinado a amar os músicos fracassados, aqueles que nunca viram muitos palcos. Ele sabia infrutiferamente que os melhores sonhos são aqueles não realizados, os projetos que ficaram para o ano que vem, e a sombra do tempo que ameaça nosso horizonte. Quando ele começava a tocar, o silêncio era absoluto, ninguém conseguia se mover, era como se, por um momento, nós tivéssemos nosso interior invadido. Sua música parecia à colonização de um mundo que nós escondíamos para o exterior, o teatro se revertia e a plateia virava o palco dos seus versos.
            
Um adolescente corre, o suor escorre pela sua camiseta, ele se sente estranho, bêbado e inadequado, em algum lugar de tudo aquilo, uma música começa a tocar, ela ecoa como uma continuação dos seus próprios pensamentos. Parece que vai chover hoje, um homem sábio disse. Ele se sente cansado, mas ainda faltam algumas ruas até sua casa, e a paz de uma cama desarrumada, a louça para fazer, e uma pilha de livros jogados no chão.
            
Depois da segunda guerra mundial, dois homens resolveram nunca mais sair de casa. Dois irmãos, remoídos pelos traumas das suas vidas, fincaram seus pés e disseram: nunca mais. Nenhuma mais uma vez. Nem para comprar comida. Nem para ir ao tribunal. Vocês podem tentar nos tirar daqui, mas não vão conseguir. Somente sairemos dessa casa em caixões. As pilhas de jornal se acumulando, enquanto ratos andavam pela casa, remoendo a compilação da história universal, escrita por mais de vinte anos de notícias infelizes.

A única companhia que lhes restaram foi o amor fraternal. Um deles ficou cego, e a casa ficava cada vez menor por causa do excesso de lixo. O desespero de um labirinto que cada vez menor que se expande na mente daquele homem cego, e seu irmão que, provavelmente, já parou de respirar, os cigarros jogados pelo chão, os gatos soltando gritos de displicência. Criamos nosso castelo, nossa música e nossa corrida, sabemos que aqui já não faz sentido o barulho da multidão, ou o medo de um possível isolamento, nós nunca saímos de casa, o sol vai diminuindo sua intensidade, enquanto sabemos que a guerra está perdida, eles invadem a casa, tiram os móveis, removem os corpos, e ninguém nunca vai lembrar-se dessa guerra, os anais da história confirmaram a versão de que dois homens malucos morreram sozinhos, sem nunca terem entendido o significado da vida. 

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