Cego.

            
Não entendo o que você queria, esperava que eu ficasse parado. Contando os dias até você abrir a porta, e descobrir que a tranca da minha casa sempre dá problema, e você teria que esperar minutos até que eu, finalmente, acordasse. Um pouco de mau humor, vestindo o pijama, esperando que eu sorrisse. Não me espere, como se eu fosse um personagem de desenho animado, confirmando suas suspeitas, erradas, de que a vida era boa. Não foi assim que eu te esperava.
            
Te esperava como alguns sonhos ruins. Um pesadelo que te acorda no meio da noite. Transpirando, sem ar, desmaiado, em explosão de uma paixão incompleta. Era isso que eu sentia. Borges sentou na cadeira da maior biblioteca de Buenos Aires. Ele estava, completamente, cego. Dizendo que sua cegueira foi gradual, não foi dolorosa. Foi silenciosa, parece ser um entardecer num dia muito cansativo. Aos poucos, ele percebeu que a prosa era demais, queria dizer muito. Ele começou com a poesia, nos deu de presente as melhores metáforas. Disse que comparar o amor e a lua era clichê, mas que era tão comum, que, ainda assim, era belo. Disse, cego, que ainda via o infinito nos seus sonhos. O labirinto de uma sala cheia de espelhos. Estou um pouco cansado, apaguem as luzes, por favor, peço a todos vocês. Escutem. Somente dessa vez. Eu ainda penso naquela porta abrindo.
            
Escuto a frase mais bela que já me disseram: perdoa-me sou um irrecuperável malabarista da melancolia, nem a sonhar construo finais felizes. Essa frase define minha vida, um andar, incerto, em uma direção não explorada. Atravesso o portão desse grande jardim e digo ao criador, por favor, me escute. Eu quero dizer algo importante. Não acredito que exista um grande relojoeiro, somente um relógio, quebrado, caminhando contra os ponteiros. Não me venha com o papo fácil que tudo tem uma razão, pois não têm. Uma borboleta, do outro lado do mundo, não move um furacão. Você, no entanto, pode ser um homem que sonha ser borboleta ou ser uma borboleta que sonha ser homem. Dou-te essa liberdade simples de querer ser aquilo que já não é. Não sei se você ainda me acompanha, eu te espero na biblioteca do Borges, sorrindo, esperando, contando os segundos, dizendo alguns mal dizeres de amor.

            
Deito na cama, e escuto o ranger do chão de madeira. Um relógio de parede marcando o movimento do ponteiro. Um corpo surge no escurecer. Sei que não é você, mas ainda, assim, sorrio. Sei que já não importa muito, quem avança contra a luz da noite, dizendo que me ama. Já sei que o corpo que se movimenta, não diz muita coisa, afirma, somente, a dor daqueles que partiram. Continuo sorrindo, fazendo todos perguntarem porque ainda continuo aqui, porque ainda não me insurgi contra todos os meus inimigos. Meus fantasmas vivem, aqui, comigo. Em paz, temos um longo relacionamento amoroso. Meus fantasmas e eu somos felizes, ainda recitamos Borges ao dormir, dizendo que a cegueira é gradual. Passamos a enxergar menos, e a querer mais. Presos em espelhos cada vez mais complexos, ainda esperando você descobrir que a porta dá problema, que amanhã não acordarei de bom humor. A janela do quarto está quebrada e a luz atravessa a janela e nos acorda cedo. Eu imploro por sexo matinal, enquanto você pede o silêncio. Não consigo voltar a dormir, estou esperando a porta abrir. Mesmo se eu já sei que ela não abre. Não deveria abrir, é só o ranger do chão, me fazendo perguntar se estou ficando cego, ou se estou prestes a acordar.

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