O suicídio do amor romântico.

Desde jovem, lhe ensinaram o que significava ser gente. Colocaram dois olhos, uma boca, duas orelhas e duas mãos como se fosse um boneco. Um modelo a ser seguido, imitado e reproduzido. Havia uma negação na forma com que ela aceitava as roupas que lhe eram dadas: use saias, cores alegres e nunca chore. Foi como se tivessem todo um programa de opções sobre o que ela deveria ser: um jeito de se vestir, uma forma de pensar e um estilo de vida. Ela se sentia uma posse alheia, desde do dia que acordou na maternidade.

Se pudesse ter escolhido uma frase, diria que o inferno são os outros, mas ela nunca pensou isso de verdade. Não dessa forma. O inferno era ela mesma, ela pensaria com calma, e dedicação. O inferno era o fato dela não gostar dos programas ou as opções colocadas à sua frente, como se toda resposta certa de um programa de TV não estivesse nem ao menos na tela. Eu quero a opção z, doutor. Não, isso não significa a morte. A morte é a opção zero.

Há muito tempo parecia que queriam uma explicação sobre quem ela era, mas ela sabia que se ela nunca respondesse, se ela mantivesse a calma de um silêncio obstinado, nada poderia ser roubado, porque no silêncio, os monstros mais curiosos nascem. Se reproduzem. Criam rebeliões metafísicas inimagináveis e inconcebíveis. Era isso que ela queria dizer, se existisse alguma palavra saindo das suas cordas vocais.
        
Em algum momento da história, o narrador sempre tenta corrigir este erro do sistema. Apagar, resumir, sintetizar e aniquilar o erro. Pode ser por meio do príncipe encantado, uma pessoa que ganha a tarefa de salvar seu mundo inteiro. Uma pessoa que represente tudo que uma pessoa quer na sua vida é uma noção fadada ao fracasso. Amor é guerra e luta, como qualquer outra coisa em que nós colocamos nosso coração. Dizer que existe uma outra metade nossa, nos atraindo, puxando nossa vida é atraente. Faz pensar que nossas opções podem voltar a ser desejadas, que alguém entende nossa posição. A reclamação usufruiu de uma união de pensamento, vida, tesão e alegria. Uma enumeração incompleta dos nossos amores. Ela, no entanto, nunca acreditou nessa possibilidade. 
        
Descobriu, desde cedo, que os amores que ela sentia, eram momentâneos. Poderia, radicalmente, se apaixonar pela forma com que o sol toca uma face ao meio-dia, mas nunca pela pessoa no qual aquele sol fez sua cena. Poderia amar o som de uma música ressoando de um violão antigo, mas não aquele que o tocava. A história do amor, para ela, era uma forma de narrar sua imaginação. Uma natureza que existiu antes de inventarmos o homem, e que existiria depois da sua morte. Se eu, um dia, quis seu amor foi por saber que nunca teria sido direcionado a mim. Uma força cósmica. Um sol. Um brilho inapagável da forma com que ela olhava o mundo. Esperava gravitar ao redor de um significado tão simples, que nem teria que ser explicado. Mas, como eu disse antes, a vida é guerra.
           
A primeira vez que ouvi do seu suicídio fiquei assustado, como se estivessem me narrando a morte do meu próprio irmão. Escutei, com cuidado, o que me diziam. Seu rosto apareceu na minha frente, com os mínimos detalhes da cor dos seus dois olhos, dois narizes, e suas mãos. Olhava para o contorno do seu corpo, e desejava, mais uma vez, que ela estivesse deitada na cama de novo, me olhando como se eu não estivesse ali. Sentia falta da sua ausência, mesmo quando ela se fez presente.

O teatro de um suicídio nunca deveria ter espectadores. Nego a máxima sobre tudo que envolve a criação tem que ser social. Somos animais, incrivelmente, anti-sociais. Construímos ritos de afastamento, fugimos daqueles próximos, e queremos entender cada vez menos o que passa ao nosso redor. Entendo que ela queria me dizer algo, quando expressou que o limite com a realidade era tênue. A névoa espessa que me separava da destruição, nunca foi tão forte nos seus olhos. Foi por isso que pelo resto da minha vida, eu me obriguei a lembrar. A passar cada dia, imaginando os contornos do seu corpo, esperando que do outro lado da cama, eu soubesse que ela esperava. Se o erro do príncipe encantado era certo, foi porque ela não quis escutar minha versão. Não quis saber que eu era outro monstro, uma diferente configuração imaginária. Queria fazer a guerra de viver seu cotidiano, até invadir cada parte do seu corpo. Queria o ridículo de aguentar as crises nunca abandonadas, fazendo rir o mais terrível dos absurdos platônicos. Queria fazer, a torto e a direita, seus olhos brilharem. Eu esperava isso, mas quando a encontrei com a arma sobre a mão, e cabeça explodida em pedaços, só consegui imaginar que a existência deveria ser guerra. Uma luta que estávamos fadados a perder. Esperava a todo momento que ela levantasse, me dizendo que minha imaginação estava em frangalhos de novo. Que o que eu pensava era idiota, e que eu nunca chegava a conclusão alguma. Esperava, sinceramente, que ela nunca tivesse morrido. Porque se os infernos são os outros, ela sempre foi minha única ideia de paraíso.

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