Lobo na porta.

Você tem que parar. Agora. Ele continua o mesmo movimento repetitivo. Isso está indo longe demais. Seguram meu braço. De novo. Pare. Não se preocupe, eu entendo meus limites. Homens tatuados e fortes, com instrumentos musicais no colo, viam com conivência, o menino que começou a pegar as drogas. Uma por uma. Sem distinção. Ele começou a se entorpecer. Seus sentidos se desvaneciam, enquanto seus olhos perdiam a visão. Ele não conseguia mais escutar. Segurem esse garoto. A sensação era de tomada de poder. Estou entorpecido o suficiente para não lembrar. Isso é um tipo de penitência. Os padres do cristianismo primitivo colocavam uma imposição sobre si mesmo; uma marca do seu pecado. Passavam dias sem comer, sem dormir e sem conversar. Sinais de um ascetismo antigo que tinha sido deturpado pelo cristianismo. Os gregos já faziam isso. Monges orientais tinham costume sobre tal prática.
            Infelizmente, a religião nunca deu ao menino mais do que uma forma de organizar seus pensamentos. Meditação era limpar sua mente. Retirar aquilo que o consumia. Sua penitencia ia para além de tudo isso. Primeira etapa, entorpecentes. Não basta usar um. Não basta misturar uma coisa. Você tem que atingir o limiar do perigo. O lugar onde não há mais esperança. Acalme-se. Uma penitência. O lugar de esquecimento total do seu ego promovido pela indústria farmacêutica. Obrigado, mundo moderno. Pelos seus presentes de grego, revestido de cavalos de Tróia ambulantes. O garoto começou a passar mal. Sua cabeça começou a se desmanchar na sua mão; seus sentidos o enganavam. Sorria por má-criação. Começou a lembrar de uma história. Uma lembrança.
A menina chorava no banheiro. Escandalosamente, o barulho ensurdecia a sala inteira. Ninguém movia um músculo, enquanto aquele som estridente sucumbia frente à pressão social. Seus olhos eram negros, e sua pele extremamente branca. O tom de vermelho das marcas dos cortes funcionava como incineração num braço sensível.
Recreio, todos para fora da sala. Menos uma pessoa. Ele andava de forma desengonçada até o banheiro. Seus olhos eram banhados de decepção e sangue. Sua sina era um andar esquisito. As mulheres costumavam dizer que era seu andar que incomodava. A forma como seus pés desencadeavam tamanho pesar. Desculpa. Somente alguns passos.
Ele olhou para a menina, pegou o estilete:
-Cuidado com essas veias, podem te fazer morrer.
-E se eu quiser morrer?
-Não quer. Você evita essas veias. Vejo pelos padrões de corte. Você já sabia disso.
-E daí?
-Você quer atenção. No entanto, é mais que isso.
-Depressão, bipolaridade.
-Entendo. Todos os nomes legais. Provavelmente tenho uns dois ou três a mais que você. Disritmia. Tendências anti-sociais.
- Você é adequado.
-Ou finjo ser adequado, não é a mesma coisa?
-Não.
-Me empresta o estilete.
            Ele começou a se cortar de uma forma assustadora, metódica e retilínea. Chegando até o limite das veias que ele mesmo havia pré-estabelecido como proibições:
-Você é maluco.
-Vamos fazer um acordo, você procura ajuda. Eu não faço isso nunca mais.
-Mas...
-Nós temos um acordo? Eu posso fazer isso o dia inteiro.
-Você é insano.
-Tudo bem.
            Ele continuou. Ela chorou. Logo, parou. Logo, se mostrou outra pessoa. Com os certos medicamentos, ela tinha uma vida normal. Começou a namorar numa idade que a adolescência mal tinha começado. Quando perguntaram como ela conhecia aquele menino, ela respondeu que ele era muito gentil. O menino acenava com seu braço lentamente, enquanto percebia que tipo de sina estava inscrita no seu coração. Devo ser a pessoa que ajuda as pessoas até outra fase. Chegado àquela fase, elas vão embora. Não é um problema. As pessoas ficam felizes. Eu só não preciso me apegar demais. Era isso. Preciso ajudar alguém até ela ficar bem, e ir embora. Existe certa poesia sobre o homem que fica somente o tempo necessário para a ajuda do outro. O errado é pensar que essa posição é agradável. Nunca se deixar vulnerável. Não chegar perto o suficiente para seu coração bater. Saber que você é sempre um intermediário de vidas alheias. Seu coração se enche de culpas e pesares. Preciso limpar minha mente. Meu corpo.
            Grau de penitência dois. O esforço físico feito pelo seu filho começa a estragar seu próprio corpo. Ele corre toda noite? Sim. Ele não consegue dormir. No entanto, ele tem somente quatorze anos. Eu sei. Ele fala que não é perigoso. As pessoas não costumam parar ele na sua corrida. Ele está estragando seu próprio corpo de propósito. O nível de dor e exposição em que ele chegou é impensável. Não é possível. Ele continua a se desgastar independentemente das conseqüências. Não são suas regras. Você primeiro tem que esquecer seu corpo, seu ego e sua existência. Eu não sou um monge. Tudo bem. Regras contemporâneas. Encha seu corpo de entorpecentes. Destrua ele de exercícios físicos. Esqueça sua existência. Toda penitencia tem uma razão. Um motivo. Um pensamento infiel. Um comportamento desviante. Foi à vulnerabilidade. O que? Eu me deixei vulnerável. Eu quis mudar as regras do jogo. Eu quis muito.
-Porque você não faz como todo mundo?
-O que? O que eu já fiz como todo mundo?
-Chora, vê um filme triste. Fica carente. Emocional. Pede ajuda.
-Eco.
-O que foi?
-Que tipo de pessoa faz isso magoada?
-Porque isso é bem pior do que você faz?
-Eu respeito o que eu faço.
-As drogas, o niilismo, a violência, os dedos sangrando de tanto tocar a mesma nota, seu corpo inteiro sangrando, se consumindo.
-Você sabe me descrever muito bem.
-Estou de parabéns?
-Um pouco.
-Obrigada. Faz tempo que penso nisso.
-No que?
-Você não precisava disso tudo.
-Preciso.
-Por quê?
-É uma penitência.
-Por ter acreditado?
-Por tudo.
-Tudo o que?
-Não foi ela que veio até mim. Não foi ela que se apaixonou. Não foi ela que quis dar um mundo inteiro cheio de impossibilidades e aleatoriedades. Eu quis quebrar meu papel na história. Eu quis ir além do papel de construtor de sonhos e esperanças. Eu quis que ela fizesse o mesmo por mim. Eu quis viver com ela de segunda a segunda. Eu fui um idiota. Deixe-me vulnerável. Enfiei a porra de um alvo na minha cabeça, e disse para ela atirar. Pegar a porcaria dos seus olhos, e enfiar uma bala na minha testa.
-Você é insano.
-Estou errado?
-Provavelmente não.
            O terceiro grau de penitência. O silêncio. Terei que me esforçar para fazer entender o último grau, pois ele é o mais importante. Sem a distante do eu ausente que desembocou na crise, não há possibilidade de retratação. O objeto de paixão afastado; consumindo cada pedaço de si mesmo em danças esporádicas de emoções pungentes. Deixar as lembranças te destruírem; uma por uma. Cada segundo de um tempo imaginário cortando suas veias. O terceiro grau. Silêncio:
 Se tudo lhe pede para falar repetidamente; conhecer-te no intimo. O silêncio some em esferas de representações fictícias. O que é pedido de si mesmo na vida em sociedade é um pedaço da sua subjetividade; fala o que você é, o que você pode, o que você deve. Reconstrua-se a partir de dados padrões. Foucault talvez tenha sido o teórico do silêncio por ter exposto uma simples idéia: num tempo em que a libertação está em voga, não seria o questionamento desse barulho ensurdecedor a questão que nos assombra? Fazer falar é mais importante do que fazer calar; o silêncio assim se torna um problema secundário; diria até mesmo esquecido. O mostrar-se em sociedade é, necessariamente, um apartar-se de si mesmo. No entanto, tal visão não tem em si a pretensão de uma subjetividade imaculada presente no intimo de uma introspecção insana. O único pedido é pela libertação do silêncio. A liberdade de não se encher de barulho; de subjetividades alheias invadindo sua mente.
           Outro filosofo alemão talvez tenha entendido melhor esse conceito. Uma teoria em que sua obra era o único ponto minúsculo de incoerência de controle; tal pensamento transforma um homem em um desistente. Todo o constrangimento impele a uma lógica que foge do medo; foge do não cumprimento da expectativa. Ser humano é ser controlado pelos pensamentos que assolam o fundo da sua mente. Ser uma aporia é ser um resíduo da esperança de um mundo que há de vir; minhas palavras, não dele. Ser uma aporia é ser a expectativa frustrada.

As criações mais mirabolantes foram feitas com um objetivo em mente: reter todas as expectativas não previsíveis. A prisão é um lugar, eminentemente, da solidão. Outro homem desejava isolar a todos; escutar a tudo; controlar cada centímetro de respiração. Se os humanos virassem máquinas, pelo menos seriam máquinas felizes. De novo, um homem e sua aporia. Ele queria controlar sua própria prisão. Sua mente poderia ser o labirinto interminável do seu próprio jugo. A única coisa que tal homem não teria seria o silêncio. A força incontrolável de uma humanidade restrita, fugaz e aniquilada.
            
           O silêncio. Ecoa em cavernas escabrosas de metafísicas já mortas. Você me pergunta o porquê do silêncio.  Tentei me explicar repetidas vezes. Tentei te fazer compreender diversas vezes. O silêncio é o respeito ao significado. Impus-me um sinal ascético que não tinha em vista sua punição. Ao contrário, as expectativas da sua vida, em longo prazo, são de mais alegria e menos dor. Não importa se concordo com tal termo ou não. Consumindo-me em mim mesmo resta apenas o silêncio. O sinal que carrego por pensar em você, por deixar ecoar um resto de liberdade na minha mente. Se esse sinal me importa é porque ele foi feito como punição. Punição ao deixar você entrar, ao deixar você tentar me compreender. Punição cabida a mim, e ninguém mais. As pessoas não enxergam que em poucos dias, meses e coleções de anos as dores se anulam; os silêncios se frustram. O que resta é uma doce mistura de melancolia e apatia. Entretanto, o mesmo não é dito do homem que adota o silêncio como penitência, pois essa concepção o leva ao ascetismo contemporâneo: três passos; entorpecer, destruir o corpo e silenciar-se. São etapas da reconstrução de um eu mesmo quebrado; arrependido.
            
            O que as pessoas têm medo de admitir é que a vulnerabilidade é um estado aceito. É uma afirmação de vida. Deixar-se disposto a sofrer é uma escolha consciente. Não se se podem culpar os outros. Não importa se é o ciclo dos mesmos acontecimentos: a ajuda, a alegria e, o conseqüente, abandono. A total e completa incompreensão. O menino que adentrou o banheiro sabia desde o começo as marcas que ali seria feitas. Fugir da sua responsabilidade é fugir do medo. A penitência é a métrica de se reencontrar com aquilo que não se quer admitir. As pessoas           deveriam entender que meu silêncio é um presente; uma marca; um distintivo. Longe de trazer prazer sadista, ou orgulho preconcebido, é um brasão. Um pedido de desculpas a mim mesmo por ter me permitido acreditar em alguém que não iria embora. Na simbiose de um ser humano amoroso o suficiente pra agüentar as marcas que só cabiam a mim mesmo. Peço desculpas por ter deixado você entrar, sem saber que o lobo sempre espera na porta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Charles Bukowski.

Astronauta

Devolvida ao remetente