Dissonante.

Helena,

Peço desculpas pelo tom dessa carta. Digo, de passagem, que tocava uma sinfonia de piano, enquanto reinavam maus pensamentos na minha mente. Desde que eu voltei da guerra, sinto-me invadindo cada lugar da sua vida. É como se eu tivesse que ter morrido naquele descampado. Você não consegue me perdoar por estar aqui. Cada parte da minha vida parece que estou atrapalhando um equilíbrio divino do qual ninguém me avisou. Sinto o retumbar do piano aumentando o tempo, desculpe, consigo escutar o acorde; alguma coisa está errada. O dissonante invadindo o movimento descontrolado, enquanto lembro-me da sensação de ser um empecilho.
           
Desde jovem parece que meu papel na vida de todos é ser uma voz descontrolada do tempo. Quando voltei, você me deu um abraço seco. Todos disseram que o tempo longe na guerra havia feito você perder seus sentimentos. Falaram-me dos seus novos amores. Em cada sala que você frequentava, parecia um crime eu me manter vivo. Era como se eu estivesse fora da sua sinfonia perfeita harmônica. Nunca gostei de tons certos, gostava do torto. O que você nunca entendeu é que eu queria te ver em todos esses lugares, queria ter sua presença incomodada em todo recinto. Não importa mais. Eu sei. Prometo parar de escrever. O piano aumenta de tom. Síncopes de ressoares perdido.
            
A música vem como uma benção numa época da sua vida. Eu sempre fui o pior cantor e músico que esse mundo já viu. No entanto, agora eu consigo escutar. Maldição, eu consigo finalmente entender. Eu tinha vergonha de tocar as músicas difíceis. Medo de errar. Medo de soar fora de tempo; de parecer deslocado. Você fez com que eu me sentisse tão deslocado, que já nenhuma música conseguia me tirar de posição. Eu conseguia finalmente, depois de anos de ouvidos sangrando, escutar o que estava sendo feito. Meu coração se enchia de melancolia. O grupo me acompanhava com calma. Aumentem o tempo, por favor. Sigam o andamento. As notas se misturavam com uma melodia estranha. Por favor, ignorem o dissonante. Ignorem a pele maculada de seus planos perfeitos. Está tudo certo. Voltem a tocar. Não, eu não estou chorando. Continuem. Por favor. Respira fundo.
            
Agradecer a cada pessoa que aguentou a situação, as poses incomodadas; os olhares trocados. Os horários marcados com avanço; onde eu poderia estar, onde você não estaria. O compasso do tempo desestruturado. Calem-se, eu entendo. Já vou embora. Não precisam se preocupar. Isso acaba já. Para vocês todos, isso acaba em um momento. Volto à guerra. Aos descampados de mortos sem rostos. Volto ao meu maior medo; à bala atravessando meu coração, em um tempo atrasado. Desde que ela entrasse no ritmo, perdoaria o efeito de tal bala invadindo meu peito. Cortando o respirar do meu fluxo emocional. Ela está mais do que no seu direito de fazer o que o tempo estava destinado a fazer.
            
O médico avança com a ficha do paciente. Diz que tudo parece bem. A doença não avançou. O estresse da guerra acabou dificultando sua vida, só isso. Sorri. Quis pedir desculpas ao médico pelo empecilho de me manter por aqui. No entanto, ele sorria também. Estávamos juntos nesse plano de discórdia. Perguntou-me sobre minha adaptação. Disse que voltaria. Todas às vezes. Para o mesmo piano. Tocar a mesma canção. Perguntou-me se poderia me escutar. Não. Não chora de novo. Tudo bem. Você recebeu boas noticias. É normal.
            
O dissonante começa a se associar com a música. Não se preocupe. As coisas vão acabar logo. O tempo move-se em velocidade irreal para remendar os erros do passado. As areias da praia invadem a ampulheta que mede os compassos da separação. As salas não se enchem mais de constrangimento, mas de apatia. O retumbar de tais versos ignora a melodia que se mantém. A despeito de tudo, mantém-se. A total ignorância das lembranças passadas. O eco movediço de tudo que se passou. Não existe mais desespero. Finalmente, começo a cantar. Não tenho mais medo de errar. Sim, ela não pode entrar. Não, segurança. Já disse. Somente esses dois nomes. Não passam pela porta. Vocês têm direito de recusar serviços. Por favor, não conseguiria fazer o show de outro jeito. Prefiro o show para uma pessoa, sem ela presente. Prefiro esse palco irremediável de noções tolas. Obrigado.

Desculpa pela confusão,

Atenciosamente,

Henrique.

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