Autodestruição.


A perfeição de um corpo malhado. De uma mente calma. De uma vida segura. Tudo pode ser destruído dentro de poucos minutos. Um copo de uísque até o final da garrafa. O sangue começa a ficar confuso; você não consegue mais enxergar direito. Tudo bem. Você está trancado no banheiro. Batem na porta. Começam a gritar. Só um momento, por favor. Estou quase fora da porta. Um segundo. A garrafa vazia jaz nos seus pés, enquanto seus sentimentos explodem numa ultima reminiscência. O que eu queria esquecer mesmo. Não consigo lembrar. O plano funcionou.
                
Quando ele era jovem, e acumulava suas raivas; seu pensamento explodia. Isolava-se no lugar mais silencioso. Pegava os cigarros. Queimava lentamente seu braço; aproveitando a calma que aquele sentimento lhe dava. Calma. Um pouco mais. Estamos perto da vida. Pegava uma faca. Cortava um pouco o pulso. O sangue e as queimaduras o acalmavam. Esqueça isso. Tudo bem. Não me lembro do que eu estava tentando lembrar. Batem na porta. Gritam muito alto. Estou prestes a sair. Prometo.
                
Seu amigo começou a olhar fundo na sua alma. Pare de chorar. Ninguém estava no banheiro, mas seu amigo apareceu. A porta estava trancada. Não fazia sentido. Você está vivendo isso como um morto; reviva. Não deixe o álcool sair do seu corpo, trate de manter essa porcaria de um litro de uísque na sua barriga. Viva esse momento como um vivo. Você estava brincando de chegar até a beira do poço; chegue até ele. Para Orfeu não bastou querer se matar após a morte da sua amada, ele teve que descer até o inferno. Não. Você não pode desmaiar. Não permito. Esse é o momento mais importante da sua vida, e você está o evitando. O cigarro consome seus braços, os riscos de sangue destroem suas veias e o álcool acaba com você. Respira cada segundo. Ignore seu medo. Continue. Agora me lembrei de você, amigo. Você foi o amigo que se jogou da janela do oitavo andar. Ele sorria. Foi assim que você entrou aqui com a porta trancada. Você não existe. Só porque não é real, não quer dizer que eu não existo. Tyler. Tyler Durden.
                
O médico pega a ficha. Ninguém com essa idade deveriam ter ulcera. Eu sei. Você bebe mais que um velho alemão de oitenta anos. Ele começa a rir. Cara séria. Não, você não entende a gravidade. Lógico que entendo a gravidade. Eu vivo aquele banheiro intensamente até eu ter que levantar. Ir para casa. Tomar um banho. Tirar o cheiro mal de álcool. Eu sei o que eu tenho. Você não precisa me explicar. Eu tenho amor pela destruição.
                
O renascimento acreditava no homem perfeito, o homem se trabalhava para conquistar seu destino. Doutor, não é nisso que eu acredito. O destino é um furacão metafisico que ira te levar para o pior dos infernos, resta à pergunta se você conseguira sair dali. Acredito que consigo, pois hoje eu olhei para o meu amigo morto e ele me disse: você está vivo. Naquele momento, eu acreditei nele. Eu estava vivo. No duro.
                
O plano era perfeito. Com um litro de uísque, eu teria o esquecimento de cada coisa que já me aconteceu na vida. Uma folha zerada com toda a capacidade de aprendizado. Descartes levado ao rei do existencialismo. Destruir todas as suas memórias, porque você não precisaria se preocupar com tudo que havia lhe acontecido. Mergulhado no lago eterno nas memórias incompletas, você estaria totalmente calmo. Tranquilo. Os antigos gregos acreditavam num estado em que todo o mundo deixa de existir; a calma cética que retira qualquer importância ao mundo real. Doutor, não, e não. Que besteira. Meu plano era falho. Eu acordei e conseguia me lembrar. Do meu amigo. Do meu braço. Dos cigarros lascados no chão e da garrafa de uísque no meu pé. Tenho que parar com isso, doutor. Preciso ir viver. Meu amigo falou que eu estava vivo. Tenho que acreditar nele. Meu ultimo desejo. Enquanto jogo fora minha faca e meus cigarros. A maldita garrafa de uísque. Não quero porcaria nenhuma de calma fora da realidade empírica do mundo. Não me dê soluções fáceis. Eu estou vivo. Abro a porta do banheiro. Saio andando. Até o ponto em que o esquecimento e eu viramos a mesma pessoa. O plano, afinal, funcionou.

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