Silêncio.


Dois momentos se juntam na minha memória, mas eles na verdade não são simétricos: eu acordo na cama do hospital e estou no banco daquela praça. Os dois parecem igualmente irreais; um sonho ruim do qual você ainda não acordou. Na cama do hospital, tudo pode ser explicado: delírio de febre, comum depois de contorções violentas do corpo. Bem fácil de ser explicado. No entanto, as alucinações tomam formas que eu não esperava.
            
Ela tem longos cabelos pretos, pele extremamente branca e se encontra num belo vestido. Eu a beijei uma vez na vida, mas ela me aparece como se eu a tivesse visto minha vida toda:

-Oi. Então é isso. Você nessa cama. - Ela disse.

-Basicamente.

-Se recuperando?

-Um pouco. Não sei se do trauma emocional ou da doença. Possivelmente, os dois.

-Você não vai nem perguntar por que to aqui?

-Por favor, você é o fantasma do futuro?

-Não. Sou eu mesma. Porque diabos você me imaginou de todas as pessoas que você conhece, se eu só te beijei uma vez?

-Você é calma. E sempre achei engraçado o jeito como uma pessoa tão alta e desajeitada pode ser delicada.

-Engraçado?

-É. Você é uma piada muito legal.

-Bem, bobão. O que você me diz como você chegou aqui?

-Um pé depois do outro. Andar. Processo complicado. Necessário na evolução e tudo mais. Você sabe.

-Você nunca vai levar as coisas a sério?

-Não exatamente.
            
Não sei se foi à irritação da minha piada, mas você ainda continuava ali. Eu ainda teria preferido que você fosse o fantasma do futuro, pelo menos eu estaria nas mãos de um bom escritor.
            
O próximo fantasma era uma menina coberta de tatuagens. Ela sorria um pouco sem jeito. Quase com vergonha de ser um fantasma e estar ali:

-Bem, fantasma do passado?

-Não. Para com isso. Ridicularizar sua própria cabeça é vacilo. Você é o cara que me salvar no futuro. - Ela 
disse.

Eu começo a rir. Você só pode estar de brincadeira.

-Prédio em chamas? - Sugeri com esperança de ter feito algo bom.

-Não. Você me explicou que existe mais que uma pessoa.

-Oi. Você não foi informada? Cama do hospital, uma pessoa, eu triste. Pensei que tinham te contado a história.

-Bem, seu eu do futuro me explicou que é uma besteira imensa colocar toda suas expectativas sobre uma pessoa. Independentemente de quem ela seja é suicídio emocional. Ele também mandou eu te dar dicas de ações e falou para você procurar pessoas que gostam de você.

-Falando assim, eu até pareço um cara esperto.

-Você é.

-Oi?- Mostro os fios que me mantém vivo. Ela ri. Aquela risada sarcástica que eu sinceramente decorei os compassos ao redor dos dias.
            
Ela sumiu. Acho que o riso terminou nosso tempo. Afinal, fantasmas parecem muito ocupados nesses dias.
            
A próxima mulher tinha longos olhos verdes e longo cabelo preto. Sorria sem graça como se não pertencesse a essa cama de hospital; existia uma inocência mal posicionada no seu rosto:

-Oi.

-Até você?

-Sim.

-Porque veio? Mal te conheço.

-Você sabe por quê. Aquela discussão.

-Eu ainda acho que estou certo.

-Eu só te disse que esperava que você ficasse bem, qual o problema disso?

-O problema é que você não tinha qualquer intenção por trás daquelas palavras. Por exemplo, quando mandamos um cartão para alguém que não conhecemos não existe qualquer intenção a não ser o hábito. A repetição faz nossos gestos. Por trás daquela máscara não existe nenhum significado, ou seja, não tem essência nenhum por debaixo daquilo. Se você arranca a máscara de um palhaço que sorri por hábito, você vai ter a oportunidade de ver outro sorriso e outro, infinitamente. Pois, o palhaço é só o sorriso da máscara. Por isso eu ri tanto.

-Mas como você explica que eu ligo para outras pessoas?

-Eu não explico. Não tenho mínima intenção de explicar porcaria nenhuma.
            
Ela desapareceu no porcaria nenhuma, com seu sorriso inocente mal posicionado; num século em que tudo é permitido, a inocência existe como um sorriso mal posicionado. Dentro do sexo mais aberto, ainda existe qualquer resquício de um sorriso sem jeito. Sem julgamentos sobre o que a mudança nos valores tem causado, ainda existem sentimentos como puder e inocência na era do sexo escancarado. Você só precisa enxergar com os olhos certos o sexo além de dois corpos se encontrando.
            
Outra menina surgiu, ela parecia um animal nervoso. Ela não conseguia parar de se mover como se tivesse usado algum tipo de droga extremamente poderoso. Eu via ela se locomover ao meu redor, mas não conseguia lembrar-se do seu rosto:

-Oi.-Ela disse.

-Oi.

-Tudo certo por aí?

-Tudo.

-Você sabe porque to aqui: Deixa acontecer naturalmente?

-Ah, lembrei. Você é a menina do deixa acontecer naturalmente.

-Sim.

-O que você quer que eu diga que eu já não disse?

-Tudo.

-Bem, você disse que as coisas aconteciam naturalmente. Eu te disse que a sociedade determina o que acontece; os padrões surgidos. Se você quer ter qualquer controle sobre sua vida, você tem que negar a natureza. Seguir a corrente é fraqueza porque você vira um número de estatística. Você vai procurar quem te dizem para procurar; vai viver o que te dizem para viver.

-E o acaso?

-Supondo que o acaso tenha sua parte, deixar tudo ao acaso é praticamente preguiça. O acaso nos leva a destruição; a recriação violenta e absurda. Não temos qualquer controle sobre ele. Saindo desse pressuposto, acho que o mínimo que podemos fazer é lutarmos como um anão frente a um gigante: desesperados, sabendo da morte eminente e com melancolia nos olhos.  

-Que triste.
            
Ela disse sorrindo enquanto ia embora. Eu tentei abraça - lá, mas ela se movia rápido demais para que eu conseguisse colocar meus braços ao redor dela.
            
O que eu pensava quando quis me matar: Eu não pertenço a esse lugar. Quando mais penso, pior a conclusão que se chega: não faço idéia do que estou fazendo aqui. Existe uma guerra de todos contra todos da qual eu simplesmente não quero pertencer. O meu silêncio não pode ser roubado; poderia arrombar a vida com som, mas eu exijo o silêncio. A voz abatida, o refrão sem letra e a melodia quebrada: eu quero meu silêncio. Não peçam com que eu fique, eu já não estou aqui. Locomover-se não faz com que você esteja aqui. Respirar não faz com que você esteja aqui. Não é como se eu fosse de outra raça ou mesmo de outro planeta; eu simplesmente não entendo outras pessoas. Não exijam muito de um pobre fraseado, pois já não sei definir direito onde eu estou. Se você quer saber a verdade, passar dos 20 anos foi mais do que uma surpresa; quase um arrependimento. Eu tinha direito de ir embora, mas eu decidi ficar. Qualquer homem entende o estado de guerra:

1.Reconhecimento vem com a luta até a morte.
2.Morte acaba com o reconhecimento 
3.A moral só pode ser do escravo, porque o senhor matando o escravo perde seu reconhecimento.

Posso ignorar totalmente a discussão, e simplesmente ficar em silêncio. Não aceito a guerra. O que não faz dela menos real, mas simplesmente me permite não existir com ela; não estou aqui. Não tem ninguém para atender a porta. Para escutar a campainha. Eu quero escutar as batidas na madeiras de um mundo cuja resposta nunca haverá de chegar.

Eu estou sentado numa praça, e eu sei que estou no hospital ao mesmo tempo:

-Você por aqui. - Surgiu uma bela mulher de olhos claros falando essas palavras.

-Lógico. Nunca fui embora.

-Mas assim, vem de repente sem nem pedir perdão?

-Nunca.

-Parece que você tem uma eternidade para me convencer.

-Eu sei.

-E agora?

-Agora eu desisto.

Os fios dos monitores mostravam que as pulsações do coração diminuíam; por favor, respire. O ar começa a sumir: é como se ele estivesse sendo invadido por água ao seu redor. Ele não conseguiu respirar ou sentir o mundo ao seu redor. A febre o tomava com uma força irreal.

-Você sabe que a escolha é sua- Ela disse sorrindo.

-Qual?

-Nós podemos ir embora de mãos dadas. Ninguém saberá a diferença.

-Eu saberei.

-Como assim?

-Eu sei.

Fantasma do presente, eu te agradeço. Eu sei que você não era possível. Você era um mito para eu aceitar a morte, mas eu já não tinha esse direito. Sobre mim cabiam as maiores responsabilidades do mundo; tenho que viver em oposição daquilo que não sou. A cada grito, me defino em um contrário. Peço um minuto da sua atenção, eu vou ficar. Ainda não, dê-me dez minutos. Um pouco mais. Eu quero ficar. A escolha é minha. Não tire minha chance de existir. Eu quero fazer o silêncio mais absoluto que qualquer pessoa já escutou. Um refrão sem letra, nem melodia, nem campo harmônico. Um acorde sem notas; sem ilusão. Um coração que não bate e uma vida que não se vive. Digo adeus sinceros ao meu adeus, para acordar todo dia. 

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