João.

Começa os dias contando às flexões que faz até o chão. Um, dois, três, quatro e cinco. Vinte séries de cinco. Uma, duas, três, quatro e cinco. No cérebro dele, se ele começa o dia dessa forma, nada pode derrotá-lo. Ele ajeita o cabelo enquanto joga a camiseta e a calça jeans mais apertada que tem para fora do armário. Seus amigos costumavam brincar que para um psicopata, ele se vestia como um adolescente normal.

Ele passava antes da escola na casa de uma prostituta conhecida da cidade. Uma hora de sexo antes da escola. Ela terminava a noite e ele começava o dia. Ele se lembra de sorrir ao começar aquele ritual de manhã cedo. Ele tinha poucos dezessete anos e já era viciado em sexo. Depois, ambos fumavam um cigarro na rua enquanto o sol nascia. A prostituta tinha longos cabelos loiros e lembrava uma mulher dos antigos filmes de Hollywood. Eles nunca trocavam mais que dez palavras. Haviam se conhecido na noite que ele perdeu sua virgindade com ele. Desde então, eles se encontravam uma vez por semana.

A namorada de João esperava silenciosamente sua chegada ao colégio. Respirava profundamente todos os segundos até ele chegar. Teresa olhava pacientemente os carros na rua, enquanto João, do outro lado da cidade, contava os momentos de respiração da bela prostituta.

No caminho para a escola, João percebeu que Joaquim também o esperava. Joaquim não tinha dormido por mais uma noite. Ele tinha um problema sério em dormir e pegava trabalhos noturnos como vigia daquela casa de prostitutas. Ele sabia do caso de João com a prostituta Lili. Assim como sabia do seu amor profundo por Teresa. Ele contava os segundos até Teresa descobrir o segredo, mas sabendo que nunca poderia contar. João sorria enquanto apertava a mão do seu amigo. João sabia de tudo e, ainda assim, sorria.

Ele contou os passos até a escola. Se ao menos andasse numa linha reta por vinte segundos, talvez todos não percebessem o jogo que ele estava fazendo. Ele precisava ganhar. Ganhar de Teresa, de Lili e até de Joaquim. Se qualquer um deles soubesse, ele estaria perdido. Ele estaria perdido se soubessem que ele não sentia nada. Que ele nunca conseguiu sentir nada.

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