Amor.

Ela senta na livraria contando o número de homens que passam pela porta. Se ela contar direito, vai perceber que evidentemente nenhum deles era o homem que ela estava esperando. Ele tinha uma rosa vermelha pendurada no bolso do paletó. Um sinal patético de um sentimento tido como quase abominável. De alguma forma, aquela rosa representava no imaginário mais do que uma pobre planta deveria ser. Mas ela estava no seu bolso, como se a visão inteira do homem que adentrou aquela porta estivesse na ponta do seu bolso.

Eles haviam trocado cartas por mais de um ano, e ele finalmente conseguir marcar um encontro. Ela era apaixonada pela idéia do amor, mas tão somente pela idéia. Ela não gostava de qualquer personalização daquele sentimento. Ela queria o devir de um sentimento que nunca existiu fora do papel. Ela queria esperar por um homem com uma rosa, que ela nunca iria encontrar. Antes mesmo de vê-lo atravessar a porta, ela já sabia que iria embora. Assistiria até o último momento em que ele esperaria naquela imensa cadeira do café. A comida chegaria para dois, ele esperaria. Contaria os segundos até sua vontade quebrar. As horas que passariam para concluir a queda da rosa que fugia do seu bolso. Impressionante, o tempo em que ele esperou sentando na cadeira. Um homem que pressentia que ela estava logo acima. De algum lugar, ela o enxergava.

Ela levantou da cadeira e correu. Correu muito rápido, o suor escorreu da sua testa. A lua levantava como uma espada nua, que bóia no céu, imensa e amarela. Entrou em pânico e fugiu para o único endereço que sabia de cabeça. Um homem a esperava, com um riso bobo no rosto. O sexo era rápido e frenético. Ela ainda estava pânico, mas agora ela controlava sua pane. Controlava sua idéia de amor. Porque ali, de forma extremamente confusa, ela mantinha-se apaixonado pela idéia do amor. A idéia que ele nunca lhe daria nada mais ou menos do que aquele momento. Ele seria sempre o corpo que a recebeu aquela noite. Ela era apaixonada pela idéia do amor, mas justamente por isso incapaz de sentir qualquer sentimento.

Um homem, ao mesmo tempo, esperava num café com uma rosa no bolso. Em um mundo ideal, os dois estariam conversando. Conversando sobre as cartas. Os sentimentos que nunca foram ditos. A menina surpreendentemente tinha separado os dois amores da sua vida, porque sabia que assim ela controlaria seu pânico. Seu medo e até seu desespero. Assim, o amor real dela que era somente uma idéia sempre continuaria sendo o mesmo.

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