Anúbis.

Ele subia na escada do prédio. Passo por passo, contava o tempo que demoraria até chegar à porta. Parecia um absurdo para ele que o maior prédio da sua cidade precisasse de um vão de escadas para chegar até a porta. O desespero estava em sua mente: ele via aquele prédio sombrio como um lugar cercado por nuvens negras e monstros. Talvez todos pudessem ver isso, mas só haviam escolhido ignorar a muito tempo atrás. A evolução esperta como ela sempre foi, ou desprovida de qualquer sentido como lhe falavam, sumiu com a capacidade de percepção. Ele ser o último elo na evolução da humana, parecia algo engraçado na sua mente. Um ultrapassado, provavelmente.
Entrando no prédio, tudo parecia absolutamente normal. Um prédio cheio de escritórios famosos de empresas e advogados; amores antigos na civilização ocidental. Ele se vestia de terno, como era de costume quando o trabalho chamava. Havia dois elevadores imensos, com portas de arquitetura grega. Era impressionante. Ele abriu o elevador do meio, e percebeu que o demônio de sempre esperava para apertar os botões:

- Bom dia, senhor. - O mestre obrigava todos eles a chama-lo de senhor, mas todos adorariam mata-lo.

- Bom dia. - Ele começou a pensar quais as chances reais que ele teria contra aquela criatura de quase dois metros naquele elevador coberto de chamas.

-Para o lugar de sempre?

- Ele ligou.

-Suponho que você seja seu cachorrinho. - Quando ele falou isso, sua língua pareceu ser arrancada do seu corpo. Ele não deveria ter dito isso nesse prédio.

- O gato comeu sua língua?
Ele não conseguiu responder. O botão que tinha sido apertado era do centésimo oitavo andar. Era o topo do prédio. Naquele lugar, ele o esperava.
A primeira coisa de dizer sobre esse lugar, era o cheiro. Era como se toda a morte e ódio do mundo estivessem contida numa essência, que tivesse sido cuidadosamente espalhada pelo quarto. O nojo reinava. Ele começou a se sentir tonto quando o maior gordo daquela cidade virou a cadeira e começou a falar:

-Homem, 21 anos, pronto para ser morto.

- O que ele fez? Você sabe os termos do nosso acordo.

-Eu sei, eu sei, eu sei. Você que vá para o inferno, estou cansado desse maldito acordo.
O homem magro tirou do seu braço palavras gravadas no sangue e disse vagarosamente:

-Por sangue te pago com sangue, até a lua do céu cair e o mar virar de uma cor inimaginável; só ai, estarei livre.

- Tão poético para dizer tão pouco. Admita que você vendeu sua vida por nada.

- Cala sua boca. - Ele espumava de raiva e avançava com sangue nos seus olhos.

-Bem, eu te avisei. Uma troca é uma troca. Como ela está? O outro homem anda bem? Ou deveria dizer os outros?

-Eu já lhe disse que não me importa mais.

- O preço do seu inferno não importa mais?

-Já lhe disse que o preço que eu paguei foi por uma vida. Não importa qual. Não importa por que.

- Eu tenho fotos, se você quiser. Vídeos. Nada difícil de achar. Youtube, sabe? Eu te avisei quando você veio a essa porta dizendo acreditar no amor, que era uma babaquice.

-Pena de si mesmo é para babacas. O caso. Agora.
O gordo com a cartola levantou da sua bela cadeira, e entregou uma ficha. Ele mataria 20 pessoas inocentes até ser pego, era um assassino; um homem solitário. O assassino pegou a ficha com cuidado e perguntou o porquê dele ser assim. O homem gordo longamente explicou sobre sua mãe prostituta que o fazia assistir cenas de sexo com estranhos, sobre seu pai violento que quase o matava sempre que voltava de suas viagens. O assassino falou que o trabalho podia estar considerado como feito. Existem vidas que não podem ser vividas; a mentira que nascemos com possibilidades enormes num mundo maravilhoso parecia uma piada. Antes de sair, o assassino quebrou a mesa e disse: “Eu ainda vou estar livre”. O gordo cresceu e tomou conta de quase metade da sala numa massa escura com dois olhos imensos. O assassino o tinha irritado, e talvez seja só por isso ele o mantinha por ali. Ele o animava; ele não era mal, mas também nunca ganharia uma medalha por ser um bom samaritano.
Ela ligava de novo no seu celular, que inferno. Como explicar para ela o que ele estava passando? Esperar compreensão de alguém sem nada na cabeça é algo desesperador. Ela queria saber o segredo dele, compartilhar da sua vida. Ele começou a rir, a outra tinha lhe dito a mesma coisa. Tinha feito tudo para que ele aceitasse o acordo: sua vida valeria a pena, ela disse. Por favor, não me deixa morrer. Ele fez um acordo com o maior dono de empresas da cidade; o monstro que tomava conta das almas naquela parte do país. Eu acredito no amor, meu bom senhor. Deixa-a livre. O homem gordo começou a rir sem parar, e disse que aceitaria no mesmo momento do pedido. Ele sabia, era seu negócio saber. O assassino sai do prédio e entrava na ruela sombra a busca do seu alvo. O celular tocava sem chance. Ela não saberia, e ele provavelmente não ligaria de volta. O trabalho parecia maior do que as recompensas. Uma mortal não tocada pelo ensurdecer da morte era uma criança; intocada.
A arma era sua escolha; ele sentiu que o momento merecia uma arma. Pegou sua bela pistola antiga, e checou as horas no seu relógio do bolso. Meia-noite, e mais um morre. Ele começava a imaginar as estatísticas das mortes por horas, e percebeu que naquela contagem de números maluca seu ato não faria diferença. Olhando para um rosto, o sentimento se transformava. Ele observou a rotina do alvo. Todo dia passava na mesma rua vazia. No terceiro dia dessa rotina, alguém o esperava. Alguém deu um tiro na cabeça: sem conversa, sem por que. Estava acabado. O assassino segurava uma ficha com o nome das pessoas que já tinham sido mortas por aquele homem e as que seriam mortas. Mais de 20 pessoas salvas. Pessoas que voltariam para casa. O nojo da morte tinha se misturado com uma mínima felicidade segurando aqueles nomes. Era naquilo que ele tinha que se ater. Somente naquilo.
Voltou para casa, jogou a arma no rio. Uma nova arma sairia do cartão do chefe com certeza, os dados de identificação falsos como sempre. Ele viu uma sombra se movimentando com uma rapidez monstruosa; um ataque. Ele teve a força de dar um soco diretamente nas costelas flutuantes antes de cair; pelo menos aquela pessoa passaria por uma dor terrível. Quando ele acordou, estava amarrado numa cadeira:

-Você de novo. – Olhou para o rosto daquele homem com duas asas imensas brancas cobertas de plumas estranhas.

- Eu quero oferecer um acordo.

- É o que a maioria das pessoas quer.

-Você já pensou em ter uma vida normal?

-Normal é superestimado. - Falou com ironia, mas no fundo pensou sobre como seria bom não ter que ser chamado aquele prédio. Ter que matar alguém toda semana. Parecia uma vida agradável.

-Eu posso te livrar do seu acordo. - O homem era idêntico ao gordo do escritório, mas invés de toda opulência ele tinha uma magreza e pobreza respeitáveis.

-Finalmente você ficou calado. Tudo que você precisa é aceitar meu trabalho.

-Que seria?

-Recuperar almas perdidas.

-O gordo me falou a mesma coisa sobre a descrição do trabalho e isso não diminuiu os tiros que tive que dar na cabeça daquele pobre homem.

-Pobre homem que mataria 20 pessoas.

-Mataria, e não matou. Ele tinha matado sua primeira vítima, da própria família.

-Como você sabe que a lista é verdadeira?

-Eu não sei.

-Então, temos um acordo?

-Eu não tenho que matar ninguém?

- Não. Não tem.

- Quando eu posso começar? E a vida que foi salva com meu acordo?

-Ela morre.

-Acordo desfeito. - Ele disse com arrependimento.
Ele acordou na sua cama, com vontade de gritar. De novo, um acordo mentiroso. Ele foi chamado no prédio. Mais uma vítima. Ela faria com que um menino se matasse na próxima semana. O menino teria criado invenções miraculosas, teria salvado milhões de vida. Morto, porque aquela bela menina de 18 anos o tinha tratado mal. Ele não mataria alguém por um motivo tão idiota, falou ao seu chefe. O chefe disse que precisava do problema resolvido, e cantou melodicamente seu acordo. O problema estaria acabado.
Alguns poderes viam com o trabalho, ele podia fazer com que as pessoas acreditassem no que ele quisesse; era uma forma de falar. Ele viu a menina, mas ela não sairia tão fácil do problema. Era uma praça lotada de árvores no meio da semana, estava lotada de adolescentes. Ela lia com seu cabelo com mexas numa cadeira central e pelo jeito que o menino a distância olhava-a, era perceptivo o que estava prestes a acontecer. Talvez aquele não fosse o evento que causaria seu suicídio, mas com certeza algo do tipo só que com mais rejeição. Ele pensou em falar com o menino sobre o problema de se ligar tão forte emocionalmente a coisas supérfluas, mas a menina era a peça no tabuleiro que o irritava. Ele sentou do lado dela no banco, antes que o garoto fizesse qualquer movimento:

- Forma de se vestir querendo ser diferente, livro de literatura do Kafka. Estranho.
Ela se movimentou para se levantar, quando ele disse:

-Se sente, e responda as minhas perguntas- Ela obedeceu no mesmo instante que a voz se fez ressoar.

- Você acha que é diferente, certo?

-Claro, todos nós somos diferentes. Que pergunta idiota.

-O que você diria se eu te dissesse que você faria alguém se matar?

-Que a culpa não é minha.

-Claro que isso é discutível, mas eu ainda apostaria meu dinheiro contra você.

-Porque?

-É um ar de querendo se fingir diferente, de na verdade ser perfeitamente normal e ainda assim querer se comportar como uma rejeitada, como alguém que não pertence. Você não finge esse tipo de coisa garota.

- Como você diz coisas tão ruins sem me conhecer?

-Eu faço minha pesquisa. Se não me engano suas palavras exatas foram: aquele garoto deveria tirar sua vida de tão imprestável e estranho.

-Como você conseguiu essas palavras do meu celular?

-Truques. Se eu consigo fazer sem nenhum treinamento, suponho que o garoto ali na esquina com aquele olhar babaca consiga também. Apague a mensagem.

-Mas... como?

-Não importa como. Eu estou aqui para te dizer que eu deveria te matar. Dar-te um tiro no meio da testa. Mas não é o que eu vou fazer. A partir de hoje, você nunca conheceu aquele menino. Você nunca falou com ele. Você nunca mais falara de alguém dessa forma. E não importa o que aconteça, você nunca fingirá de novo ser parte de algo do qual você persegue. Porque é isso no fundo que você faz: persegue a diferença da qual você jura pertencer.

-Seu velho, idiota.

-Estou quase me arrependendo de não te matar. Não faça com que eu me arrependa.
Seu olhar esfriou e ela percebeu que ele estava falando sério. As palavras grudaram naquele seu penteado de mulheres dos anos 60. O homem de terno levantou, foi até o garoto na esquina:

-Ela nunca existiu, você nunca a conheceu. Suas cartas de amor guardadas no porão misteriosamente se transformaram em lixo, que você próprio ira jogar. Você tem um futuro brilhante, e aquela bela navalha no seu quarto vai ter que esperar uns anos até cortar sangue. Quando cortar, será do seu filho fazendo a barba quando você o ensinar. Se lembre disso, e nunca esqueça.
O garoto saiu atordoado. Parecia que algo tinha mudado na sua vida. Ele tinha decidido parar de se importar sobre o que outros pensavam dele ou não. Ele tinha tirado alguns modelos de aviões e mecanismos que tinha pensado. Ele tirou todos os programas de hackers e começou a investigar mecanismos eletrônicos de comunicação a curta distância. Ele sorria. Ele tinha um misterioso relógio de bolso na sua roupa, do qual ele não tinha nenhuma explicação plausível. Ele nunca se perguntou sobre o relógio.
O homem com a sua figura assustadora começou a andar. O movimento do sapato social na rua ia aumentando; a direção era até o prédio imenso. Ele iria para guerra. Ele sabia o segredo. Ver o garoto refletindo sua própria vida transformou seu pensamento. O sangue subiu no seu corpo enquanto ele chegava ao elevador. O demônio de fogo sorriu e fez outra piada de mau gosto. Hoje não. Até chegar ao último andar, ele e o monstro se debateram com sangue escorrendo para todos os lados sobre o belo elevador de mármore. O fogo envolvendo o corpo dos dois numa luta com socos e pontapés num espaço minúsculo. Você conseguia escutar os ossos se quebrando. Quando chegou o último andar, o homem gordo olhava amargamente para os dois:

-Parem seus babacas. Vocês estão sujando o elevador.

- Eu sei.- Disse o homem.

-Do que?

-Eu sei. Eu sei. Eu sei.

- Isso é só uma teoria. Que deus não é dividido em dois. Numa oposição bem e mal.

-Você e o magrelo são a mesma coisa. O gordo e o magro. O magro e o gordo.

- Bem, também não é assim. Eu prefiro pensar que sou mais bonito. E rico. Isso é bem importante.

-Cala a boca. Agora que sei. Troque meu trabalho, me liberte da maldita promessa.

-Primeiro, precisamos pegar seu coração do peito. Pesar com uma pena. Se for mais leve, você está livre. Se não, temos um jacaré gigante pronto para comer seu coração! Atrás da porta número um.

Apareceu uma imensa porta. Uma balança de peso.

-Você sabe que você não é Anúbis. Se deus é tudo, a natureza que nos envolve. Bem ou mal não interessam. Ele não é um velho barbudo que controla sua vida. Ele é tudo que respiramos; ele é cada pedaço de cada coisa. Logo cala a boca, e muda meu trabalho.

-Tudo bem.

-Tudo bem?

-Se você quer isso, você vai começar a recuperar almas como você. Ser o que liga o inferno e o céu que não existem. Que tal?

-Ela mantém sua vida?

-Você de novo com a porcaria da vida dela. Sou doido para pegar a tesoura das velhas malucas e cortar o fio da vida dela. Mas sim. Ela pode viver.

-Tudo bem.
O prédio começou a cair no chão. O céu começou a cair no chão. O fim do mundo. Com o cantar de uma música, tudo voltou ao normal. O homem de terno agora estava muito bem com uma velha calça jeans e uma camiseta largada de rock. Então era isso, salvar almas sem ter que dar tiros nas pessoas. Parecia ótimo. Talvez não tanto sem tiros. Talvez não tanto sem mortes. Mas se um deus larga a mão de sentar no seu trono com a barba até seu colo, então temos liberdade. Liberdade de saber que nosso coração não vai ser comido por um jacaré gigante porque nosso coração não é mais leve que uma pena. Liberdade de ser a ponte que liga o céu e o inferno que nunca existiram.

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