Underdog.

Aquele personagem que passa o filme inteiro atrás da garota. Que nem se dá ao trabalho de notar sua existência. O homem que corre na chuva com um violão quebrado gritando uma música provavelmente dos anos 70. A melodia que você espera que ganhe o coração da moça dentro da janela. Moça que já conheceu vários outros moços. Pode estar com algum outro moço nesse exato momento, enquanto o violão toca seu acorde menor com a chuva abafando seu som. Você conhece um desses meninos. Eles são os melhores amigos esperando por uma chance; eles são homens que vivem somente de uma esperança. De um suspiro. De um riso. Estamos falando desse tipo de homem.

No filme, ele fica com a garota. Num final surpreendente, com direito a quarteto de cordas, um amigo desastrado e uma festa perto do lago. Na vida real, a história não é a mesma. Não funciona como nos filmes. Um homem com seu violão tem poucas chances na chuva. Ele sempre teve. Eu estou aqui para dizer que eu pensei que tinha abandonado meu companheiro underdog. Eu não acreditava mais na luta incessante de Dom Quixote contra os dragões que na verdade eram moinhos. Era inocente demais. A vida não é como um filme, nem nunca poderia ser. A ficção é uma forma de imaginar um mundo em que as regras podem ser nossas, em que nossa cabeça vira uma realidade.

Infelizmente, maus hábitos morrem de forma difícil. Eu ainda acredito no homem que fica até a noite terminar. O homem que quer convencer a mesma mulher todos os dias que ela é o mundo inteiro dele. Entendo perfeitamente o quão clichê essas palavras são. Elas deveriam ser. De vez em quando, a despeito de qualquer lógica ou razão, devemos acreditar em algo. Borges me dizia que precisamos acreditar num personagem. Acreditar que ele existe e é uma realidade sincera em si mesma. Então Dom Quixote, peço desculpas a você. É claro que eu acredito em você, desde o dia que você me prometeu salvar Dulcinéia dos cavaleiros do mal e acabou apanhando numa ruela qualquer com mulheres da vida. Você, meu senhor, é um herói. Maluco, mas um herói. Não me importa mais se o underdog não ganhe na vida real, eu continuarei torcendo para ele. Sim, indústria cultural, você venceu. Ou melhor, o underdog venceu e sempre vencerá enquanto alguém ainda tiver a coragem de imaginar um homem que se dedique a ter algo sincero. Num mundo em que milhões de dólares são usados para homens aprenderem como pegarem mulheres em bares, isso é muita coisa. Isso é trabalho que nenhum super-herói dispensaria.

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