A beleza da literatura.

Tinha um psicólogo meu que falava uma coisa engraçada. Ele falava que eu tinha uma personalidade insana misturada com uma incapacidade de viver no mundo real. Melhor, dizendo ele tinha medo do que um dia eu fosse capaz. Ele disse que o problema é que eu consegui esconder por panos de normalidade, algo assustador. Isso misturado com uma capacidade única de pesquisa é explosivo. Capaz de destruir muros com uma simples bolas de tênis. De construir uma bomba de fumaça com simples palitos de fosforo. Capacidade de destruir. Capacidade de se auto-destruir.

Lacan tem uma ideia bonita que o único verdadeiro reconhecimento do outro vem a partir da mais pura e lenta violência. Não existe uma bela ordem simbólica em que o outro sinta o que nós sentimos. Não existe. Possibilidade de compreensão é uma utopia que nem Thomas Morus teria coragem de sonhar. É necessário que o judeu de Shakaspeare exija um pedaço de carne ao seu fiador: ele queria que o contrato fosse seguido à risca independentemente do navio naufragado. Ele exigia justiça por todo o preconceito e maltrato de uma vida. Somente por aquela carne, ele seria real de novo.

De alguma forma, o discurso parece o mesmo quando organizações mundiais em prol de uma “paz” e o horror a indiferença dos nazistas mandou enforcar vários deles. Em minha opinião, se você quer argumentar a validade da vida universal você tem que deixar vivo. Mesmo que presos vidas inteiras, tirar a vida de alguém é negar o que você mesmo defende sobre o valor universal da vida. Você tem que exigir dos outros somente o que você está disposto a dar aos outros. Uma ideia que o ocidente tem enganado boa parte da sua existência. Os cruzados que exigiam o dinheiro antes da religião, ou os colonizadores que exigiam sangue e ouro antes de civilização. A razão bizarra que acreditamos tanto tem paradoxos estranhos. O real exigiu o reconhecimento pelo sangue. Eu entendo o sentimento que levou aos enforcamentos: qualquer plateia em Nuremberg havia esquecido há muito tempo os ideais universais no momento em que as imagens dos campos de concentração haviam sido mostradas. Sinceramente, os ideais abstratos raramente resistem ao teste das imagens e sentimentos humanos. A relação entre eles é dúbia, para não dizer monstruosamente dual.

Tudo isso para dizer que não estamos aqui para sermos felizes. Quem contou isso para vocês provavelmente também enfiou alguns anti-depressivos goela abaixo e fez um sorriso por meio de uma cirurgia plástica fajuta. Não. Desculpa ser o primeiro a te contar, mas todos os seus sonhos não vão se realizar. A mulher dos seus sonhos não vai ser sua. Nem o emprego que você sempre sonhou. Mesmo que por acaso do destino você consiga tudo, aquilo que você conseguiu nunca será aquilo pelo o que você ansiou. Quis quebrar essa noticia a vocês, porque eu preciso quebrá-la a mim mesmo. Reconhecer que vivemos de opções. Acordamos, e respiramos a partir de uma opção. A pior prisão é um lugar em que suas opções foram tiradas. Não importa o que tiraram de você toda sua vida, você ainda tem uma maldita opção. Por isso é tão cruel quando um estado proíbe você de tirar sua própria vida. Um homem feliz, sem nenhuma aparente depressão é mais do que capaz de tirar sua própria vida. Quem lhe contou que só loucos com problemas mentais são capazes disso, não te contou a história inteira. Existem até vidas que vividas são mortes. Nada é tão simples quanto te disseram. É melhor reconhecer isso logo de cara do que ficar confiando numa justiça fora do mundo que nunca vai te salvar.

É um pobre conselho de um infeliz homem. No final das contas, a beleza da literatura está no intervalo entre o conselho de homens que quiseram se eternizar por meio de palavras. Negando que as palavras quando escritas já perdem seu valor de embate; cristalizadas num livro as memórias perdem seu sentido interno. Desculpa, mas tenho que discordar Sócrates, a forma mais bela de recordamos nossas cinzas no mundo é escrever sobre o que somos. Platão, dessa forma, e tão somente dessa forma estava mais que correto ao inventar um mundo que ele não conseguia tocar.

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