Hostilidade.

Contra a hostilidade não se pode manter a paz, a tranquilidade e o espirito calmo. Algo muito bonito que aprendi com o budismo é a capacidade de se refletir e se abster das nuances do mundo como realidade. O problema principal é que não se pode calar frente ao hostil, a resposta precisa ser dada. Silêncio não cura nada. Silêncio como Simon and Garfunkel já diziam cresce como um câncer e se espelha silenciosamente sobre o som da opressão. Hostilidade pode ser enfrentada com um sorriso ou com uma quebra de rotina e de padrão. Qual a capacidade real que temos de quebrar padrões de hostilidade? Somente se colocarmos nossa tão besta e simples cara a tapa. Parece simples. Infelizmente não é.

A última coisa é que precisamos colocar nosso sangue nas coisas: Marcuse estava de certa forma correto quando afirmou que não existem revoluções ou movimentos reais sem sangue. Mesmo as marchas de não violência de Gandhi dependiam de greves de fome que invadiam seu amago. Mudança real é possível no esforço, e não na abstenção de lutar. Se calar não resolver nada. Não muda nada ao seu redor. Se calar só mantém tudo no mais longo breu de opressão. Se reclamarmos da opressão, temos que estar disposto a darmos mais que frases bonitas na sua direção. Temos que bater de frente, sabendo da impossibilidade de vitória. O herói trágico nasce a partir de um destino já traçado, mas eternamente combatido.

A Dinamarca foi o único País que dentro da Europa foi declaradamente contra o nazismo: Sabe o que aconteceu? Os oficiais nazistas no país mudaram de lado, milhões de judeus foram salvos e a população em si se mobilizou para fazer da vida dos perseguidores de vida um inferno na terra. No final das contas, o nazismo foi construído numa base de indiferença imensa ajudada por uma percepção cultural bizarra de perseguição ao outro; mais comum do que nossa mente iluminista gostaria de pensar. A Dinamarca fez o que outros países morreram de medo de tentar: se declararam contra a morte de cidadãos do seu governo, e os nazistas naquele país mudaram de posição, porque sinceramente quando a indiferença acaba o cenário é várias vezes mais otimistas. Tem um episódio interessante de quando foram buscar os judeus, mas o país conseguiu que somente judeus que abrissem as portas poderiam ser presos e um aviso geral foi mandado para evitar a abertura de portas. A polícia dinamarquesa acompanhava os oficiais nazistas para ter certeza que portas não seriam quebradas e vidas não seriam invadidas. Sinceramente, a única chance contra um mundo hostil é uma declaração aberta de intenções de acabar com a intolerância e a perseguição do outro; qualquer coisa menos que isso parece nota de rodapé.

Mesmo esse pensamento radical parece problemático, porque no silêncio se formam revoluções memoráveis do cotidiano; para além de uma única solução; talvez o possível seja opor como se pode, da melhor maneira possível, mas nunca ceder à esmagadora presença do cotidiano; da hostilidade do dia-a-dia. Quando cedemos à indiferença, viramos mais um número de esquemas behavioristas que explicam máquinas racionais incapazes de estabelecer crenças ou afeições; maquinas que capazes de dar seu apoio a qualquer coisa massificada perdem seu significado num tão aglomerado de indivíduos. Ainda bem, que isso acontece mais na cabeça de poucos frankfurtianos do que na realidade prática. Afinal, ainda não vivemos num mundo totalmente perdido pelo credo: Guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força.

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