Casa pré-fabricada.

Eu pego com essa mão e construo as bases; tiro do chão sua terra e coloco o cimento; penso em como civilizações antigas faziam esse processos; os incas tinham lugares abertos para reverenciar deus. Penso em como o cristianismo parece ter jogado tudo dentro dele mesmo, corroendo seu interior de culpa e de altruísmo, num processo quase de absoluta loucura. Pego tijolo por tijolo num sol de deserto e começo a pensar sobre o que estou fabricando. Nós devemos muito a quem veio anteriormente, nos esquecemos falando que somos o futuro da nação; uma bela geração coca-cola.

Penso no seu sorriso; afinal toda construção vem de uma imagem e nossa pobre casa pré-fabricada não podia ficar sem uma. O telhado, eu fecho com força pensando que a chuva não atinja seus cabelos numa noite de frio em que estivéssemos abraçados. A porta, eu coloco com um fecho difícil, para que ninguém invada nosso lar. Penso nos seus traços, e talvez até um belo par de olhos claros. No som de crianças invadindo o quarto, cantarolando uma música do violão. A sua cara de manhã desfeita de toda maquiagem, e como você parece mais nua dessa forma que despida de roupas. Construo o silêncio dali como se houvessem dois mundos separados, aquele e o todo o resto. Nisso passo a pensar como um careca budista: eu quero conseguir me desprender de tudo para finalmente ter uma chance na liberdade do amor. Lembro dos velhos, seja cristo ou Buda nos dizendo no passado que não poderíamos gritar, nem pedir, que somente um amor absoluto poderia nos deixar reinar. Buda diz sobre o desprendimento e só ali naquele momento que você pode esperar criar algo. Uma casa.

Há quanto tempo moro sozinho nesse lugar; isolado dum mundo aí fora. Esperando que você me visite. Parecem anos desde que eu desisti que alguém esteja aqui, como se cada parte do lugar tivesse uma história nunca ouvida. Imagino quanta loucura seja imaginar a casa pré-fabricada de algo que nunca existiu. Não quero confundir inventar com forjar, queria somente que alguém invadisse o ar desse quarto úmido. Ensinaram-me que não se deve pedir, que se deve esperar o nada ter. Um pobre filósofo alemão ficando louco me disse que era isso que as pessoas preferiam: querer o nada a nada querer. Eu ainda prefiro querer o nada, pobre Nietzsche, e nessa noite em que a casa dos meus sonhos está pronta; pergunto-me se sozinho ela não estará sempre pré-fabricada.

Comentários

  1. meu caro, você seguia meu antigo "vênus retrógrada". tive que mudar, agora escrevo no http://devir-silencio.blogspot.com/, caso lhe interesse.
    obrigada. (:

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