Greg.

Todo monstro tem sua construção em algum lugar, e é uma ilusão pensar que ele nasce sozinho; o monstro é um caso do descaso do mundo. Era noite, e o detetive não conseguia parar de pensar nisso, ao ver os corpos estirados no chão. Duas mulheres mortas num restaurante, e ninguém tinha visto nada. O pior desse assassino era que ele limpava bem seus rastros, e sempre deixa algo escrito nas paredes: his non cede males, his non cede males, his non cede males. O simples ele não cede ao mal em latim, mas o que isso queria dizer? Havia algo por trás dessa mensagem que o arrepiava. Primeiro, as mortes não eram sexuais; era uma afirmação de poder. As mulheres tiveram sua garganta cortada com somente um corte: era um corte de iniciante, mas existia uma prática naquele tirar sangue, como se tivesse sido feito antes consigo mesmo, mas sem trabalho médico. O detetive começou a conversar com sua companheira:

- O que você acha?

- Não sei. Essa não é sua primeira morte. O lugar é de alto risco; as duas mulheres sabiam se defender segundo os maridos. Nenhuma tinha filhos, assim como nos casos anteriores. Ele fecha os olhos deles após matar, existe um remorso. Ele não tem prazer na morte; é algo mecânico e planejado. Ao mesmo tempo, não existe evidência material nenhuma.

O telefone do detetive começa a tocar, e ele atende rapidamente:

- Alô. Noite solitária, certo?

-Quem é você?

-Depois de ver pelo menos dez assassinatos com a minha assinatura, eu não recebo nem um oi, como você vai?

- Vou bem, e você como vai?- Ele estava espumando de raiva, mas tinha que manter o assassino na linha.

-O tempo para você rastrear essa ligação é trinta segundos e você sabe disso.

-Quem é você?

-A pergunta que vale um milhão de dólares. Eu sou a solidão, a pergunta que você faz a si mesmo antes de dormir.

-Sério?

-Não, sou somente uma criação sua.

O telefone desligou, os dois estavam assustados. Assassinos não costumavam ligar, e principalmente não tinha confiança para saber detalhes técnicos de policia. Ele se divertiu horrores do seu porão; ele morava naquele lugar desde que havia saído da prisão. Tinha passado a infância sendo torturado pelas outras pessoas e na adolescência tinha encontrado somente indiferença. Ninguém o amava, ninguém era seu amigo. Ele caiu num abismo sem voltar. Ele passou a planejar sua vingança, como o conde de monte cristo ao voltar da morte; ele parou de pensar em tudo e somente queria vingança. Aquele que não cede ao mal, aquele que não cede ao mal, aquele que não cede ao mal.

O detetive voltou para a sua casa. “Oi, Gregório, eu te amo”, Será que não tinham sido aquelas palavras que o tinham salvado tantas vezes? Voltando de um caso de estupro com assassinato, de crianças morrendo, não havia sido a voz da sua mulher que tinha o salvado? As crianças assobiando Beatles, enquanto ele pegava o violão: não tinha sido somente isso que o diferenciava do assassino? Ele não conseguia parar de pensar na frase “Noite solitária, certo?”, o assassino estava contando uma história. Um homem não amado, alguém destruído pelo o sistema que prometeu cuidar dele. Pelos pais que não o cuidaram. Pelas pessoas que não o amaram. Ele tinha certeza que tinha uma resposta.

O novo dia raiou, e ele se vestiu. Colocou uma roupa ridícula, obrigatória para a venda de hambúrgueres. Era engraçado pensar que hoje a noite haveria outra morte, parecia algo normal do seu dia como tomar banho ou mesmo se alimentar. Era como ele sobrevivia pelo dia. Os cortes que ele fazia no pulso nos intervalos eram profundos e provavelmente uma hora acabaria o matando, mas sinceramente era o mais próximo de se sentir vivo que ele chegava. Havia uma bela loira trabalhando com ele. Meses antes, ele havia o recusado num encontro. Ele pensava sobre o que ela acharia dele agora que ele era um assassino; de alguma forma aquilo lhe dava respeito próprio; ele se lembrava de ser torturado tarde da noite, das surras coletivas no colégio; da tortura na prisão; ele finalmente estava torturando o mundo.

O detetive não aguentava mais as ligações sábado à noite. Ele saia com a sua mulher e duas filhas para uma pizzaria, onde tinha grandes bonecos cantores. Ele odiava aquele lugar, mas as crianças gostavam e sinceramente o que havia de se fazer; ele faria qualquer coisa no mundo por elas. Ele se lembrava do dia que ele conheceu sua mulher. Ele tinha passado dois meses implorando para uma conhecida apresentar os dois, ele tinha visto o recital de poesia dela e desde antes não tinha pensando em outra coisa. O detetive era considerado o melhor da cidade pela sua determinação. No momento em que ele a conheceu, ele sabia que estava tudo terminado; as festas, as namoradas, as bebidas e tudo aquilo que havia sido tão caro na sua vida. Ele queria passar o resto da vida com ela, com seus filhos assobiando Beatles toda manhã. O impacto da ligação no meio da saída o irritava por isso, marcava o ódio num momento onde somente tinha amor. O assassino parece saber disso, se alimentar da morte do amor naquele tempo. No hospital dois pacientes estavam mortos, com dois cortes fulminantes na garganta, o mesmo modo operandis:

- Tem algo diferente aqui- A companheira detetive chamada Bianca começou a pegar os prontuários.

-Eles eram pacientes terminais. O que isso quer dizer?

- Fácil, minha amiga. Ele acha que todos seus assassinatos são um ato de pena. Ele parece se matar por meio de outras pessoas, pensa bem. Ninguém que ele matou parecia uma pessoa totalmente feliz, ele queria mata-las para não aguentar a vida. Ele não cede ao mal, quer dizer que mesmo matando, ele se considera do bem.

-Cuidado, Gregório. Você está chegando muito perto da mente do criminoso.

- Sem isso, nós nunca o pegaremos. Você sabe disso. Nenhuma evidência de novo, aposto com todo meu dinheiro.

-Nada, Greg.

O telefone tocou sem parar, e o detetive finalmente atendeu:

-Boa noite de sábado à noite, Greg. Se divertindo com as crianças?

- Como você sabe disso? Eu vou acabar com você se você encostar um dedo nas minhas filhas.

-Calma, você sabe que eu deixo as crianças com vida. Sempre.

-Isso é verdade. Você é bom, não é?

-Esses dois pediram pela morte, por e-mail enquanto seus parentes não olhavam. Considere um presente nessa bela noite de sábado.

-E você? Porque está matando num sábado?

-Eu nunca saio aos sábados, detetives. Sem amigos, sem amor. É isso que faz um serial killer, não? Pura solidão?

-Eu sinto que alguém te criou.

-Alguém? Tantas pessoas enfiaram facas em mim, me torturaram. Trataram-me mal. Que apontar somente uma pessoa parece até uma injustiça. O senhor sabe que eu tenho que ir embora, você iam me pegar em três, dois.

O telefone foi desligado. O assassino estava brincando de novo. Ele estava planejando seu último grande golpe antes de ir embora, pobre detetive. Ele começou a pensar o que fez começar tudo aquilo: não foi numa noite anos antes? Quando ele finalmente achou que alguém o compreendia? A pessoa foi embora. Todo assassino tem uma razão, não é? As torturas pelos pais, no reformatório, na prisão podem ter sido algo, mas aquilo era a última gota.

O detetive começou a pensar respirando fundo em casa com suas filhas e mulher, como alguém poderia conhecer doentes terminais. A internet era um bom sinal, mas isso ainda não era bom o suficiente; sem rastros. O serial killer era esperto demais, mas algo estava errado. Homens que estão no hospital e não são os médicos, mas que tem conhecimento das fichas dos pacientes. O perfil dele era um homem solitário, com uma grande perda e que matava para se matar pelos outros: o que encaixaria perfeitamente? O detetive lembrou-se do grande anúncio “Palhaços da alegria”. Pesquisaram todos os membros e um chamou atenção: Orfeu, trinta e três anos, médico de formação que perdeu sua licença ao matar o pai da sua mulher por meio da eutanásia. Sua mulher nunca o perdoou, e o deixou, mas ele tinha feito o que achava correto. A sociedade não o tinha aceitado, nem ninguém, mas ele havia feito o que era certo. Dante, não havia sido Dante que tinha tais palavras no seu tumulo? Um médico superdotado seria mais do que capaz de tudo aquilo. Gregório correu até a delegacia na madrugada, conseguiu o endereço e ligou para os policias para fazerem a prisão:

-Então você conseguiu me descobrir, hein detetive?

-Como você conseguiu bloquear a ligação?

-Eu tenho meus truques, viver afundado nas suas solidões te ensina muito.

-E agora?

-Agora eu deveria te matar, não? Não é o que serial killers malvados fazem?

-Você não sabe do que eu sou capaz.

-Claro que sei, agora vire um pouco para direita, por favor, você quase derrubou seu café.

Gregório percebeu que todas as câmaras da delegacia o seguiam. O serial killer tinha manipulado tudo isso até o último momento:

-E agora, Orfeu? O que você vai fazer?

-O grande final, não é obvio? O gatilho, aposto que te ensinaram isso na academia.

-Você vai átras dela? Você vai culpar ela pelas mortes? Vai, você é melhor que isso.

-Bonito, não? Parece até o final de uma boa novela, a mulher amada morre. O louco foge para o exterior.

-O exterior?

-Quero morrer, parece bom morrer viajando. Mais poético e todas essas coisas, afinal você nunca vai conseguir me pegar. Mas eu queria te agradecer, Greg, Você foi meu único amigo.

-Eu nunca vou te entender, achei que éramos parecidos. Mas você vai mata-la. Seu babaca.

-Não odeie o que não se conhece. Eu sou o inferno da vida que vocês não enxergam; o que anda sozinho numa noite; o que é aquele barulho na escada? O amor se acabando; o homem que fechou a porta e se enforcou na cortina.

- Poema patético, como você.

-No final, você vai entender minha mente detetive. Deixo meu adeus, amigo. A única pessoa que eu consegui chamar disso.

- Trinta segundo e nós temos sua localização!

-Eu sei, detetive.

Gregório chegou a um lugar inóspito onde a mulher perdida do seu serial killer tinha acabado de pular metros e metros, para salvar seu novo marido. Ela tinha fobia de altura desde jovem, e nunca conseguiu confiar em ninguém depois da morte do seu pai. Aquele homem era sua única esperança, e o pai dos seus filhos. Ela havia pulado com toda sua coragem aqueles metros entre os prédios. Ela havia acreditado nele. Orfeu brincava de longe, rindo. Ele tinha planejado aquilo, ela voltou a confiar nas pessoas: filha da puta, ele havia enganado todos até o último momento. O detetive quase não queria pegar aquele homem, todas as mortes tinham sido pessoas que haviam pedido para morrer: Em que mundo vivemos que alguém não pode escolher nem ao menos retirar sua própria vida frente a dor e desespero? Queremos um estado que controle nosso próprio sangue? Eu não tinha escrito no meu contrato que obedeceria com a minha própria vida. A bela mulher chorava de alegria, abraçada com o novo marido. Gregório recebeu um cartão postal da Itália pelas mãos da bela mulher dias depois:

- Somos iguais, Gregório. Você percebeu? Todos meus assassinatos foram atos de piedades; eu tive a coragem de retirar com a hipocrisia. As mulheres no restaurante eram amantes, e quando uma morreu, a outra implorou pela sua morte: seria cruel a deixar vivendo, você já tentou viver sem aquela que você ama? Não é viver. Espero que você entenda isso. Amigo, deixo você aqui meu abraço. Sei que algum ódio de não ter me pego deve ter te destroçado, você é o homem determinado. Por isso lhe deixo uma foto da primeira vez que a vi, e espero que você entenda tudo. Ela era tudo para mim. Agora eu tenho um mundo inteiro a viver, e sinto que minha morte é minha vida numa mesma moeda: algum psicólogo que usava simplesmente drogas demais disse que somos nosso duplo, e você é a vida que eu nunca vivi; meu duplo feliz, aproveite, Greg.

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