O matemático.

Ele era matemático. Vivia de calcular o que os outros ganhavam ou perdiam na bolsa de valores. Ele usava um terno. Ninguém duvidava da sua respeitabilidade. Vivia sozinho numa casa extremamente organizada; tudo ficava no seu lugar próprio. Ele contava as voltas do relógio obsessivamente até seu trabalho chegar. Ele chegava ao escritório e dizia sempre as mesmas palavras:

- Bom dia, João.

-Bom dia, senhor.

Senhor. Era essa palavra que ele inspirava nas outras pessoas. Parou de falar aos 10 anos, quando descobriu que a comunicação de si mesmo era impossível. Afinal se somente podemos ter projeções das outras pessoas, ele queria fazer uma piada; ele não teria nada já que tudo são somente projeções e imagens. Quando ele chegou a essa conclusão, estava andando pelas ruas escuras. Era meia-noite. Ele olhou o reflexo da lua andando pelos prédios, e como essa imagem mudava a partir do azulejo que era refletido. Ele achou aquilo à coisa mais bonita que ele tinha visto, desde o dia que ele tinha descoberto como fazer cálculo de logaritmos. Os números se arrumavam segundo a sua disposição, que pena que as pessoas nunca seriam assim. As pessoas esperavam que todos se arrumassem a sua disposição como móveis de uma sala, em volta de uma grande imagem ou quadro. O respeito lhe dava nojo, ele criara o personagem e agora tinha que viver com ele a cada dia. Um personagem chato e medíocre, nada se ouvia de amigos. Saia à noite, e escutava as vozes e risos de várias janelas e se sentia deprimido.

Ele saiu da mais importante reunião do ano, em que todos o agradeciam por ter conseguido ganhar um milhão de reais. Olha que número enorme, e totalmente desprovido de sentido. Se ele tivesse feito todos falir, a diferença teria sido nula. Ele agradeceu, sorriu, e pensou que se ele tivesse um coração, agora ele deveria estar alegre. Voltando para a casa, ele pegou uma faca da cozinha, a mesma que seu pai usava há anos anterior para preparar imensos jantares. O primeiro corte foi por curiosidade, mas os próximos tinham algum prazer escondido. As marcas o lembrariam de alguma coisa importante, nem que seja aquele prazer efêmero do sangue esvaindo do seu corpo. Ele começou a contar os cortes, e pensar na beleza dos números. As pessoas podiam ser simples números, se mexendo numa ordem bela como uma música clássica que segue o campo harmônico. As pessoas eram caóticas, falavam tanto com tão pouco a dizer. Usavam a si mesmos como desculpa. Ele foi até a pia, e enterrou seus braços sobre uma água gelada. O sangue passou a se espalhar na água, de forma difusa e depois tomando conta de tudo. Ele começou a ficar tonto, a perder o ar. Ele resolveu pegar o carro.

Antes que ele percebesse o carro tinha batido num poste, ele não sabia o que teria acontecido. Ele fechou os olhos num momento, e deixou o carro bater direto num poste. Com uma força imensa. Ele lembra do para-médico dizendo que ele ia viver. Um segundo antes de morrer, ele disse numa voz quase perdida, agarrando o braço do pobre rapaz:

-Diga a todos que eu tive uma vida medíocre.

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