Tic-tac.

Tic, TAC, tic, TAC, tic, TAC, tic, TAC, tic, TAC. O quarto estava cheio de relógios antigos por toda a parte. Era desesperador estar naquele lugar, era um quarto escuro, sujo, rodeado de anotações por toda a parede de várias fontes: prédios, bancos, pessoas e planos inteiros. Segure sua respiração. Algo está prestes a explodir. O relógio apitou, e o eu acordei naquele lugar nojento de novo. Quando sua vida é triste e desesperadora, qualquer lugar parece nojento, você não liga para a arrumação, para você mesmo, para absolutamente nada. Os relógios são pura figuração, você nunca dorme, e nem nunca fica acordado, quando você tem insônia às cenas parecem se enquadrar umas após a outra sem qualquer coerência. Você quer morrer. Você só quer uma porra de sono de novo, e estaria disposto a qualquer coisa que deixasse sua mente dormir. Uma televisão inútil, programas alegres com porra de finais felizes, você estaria disposto a vender qualquer parte do seu corpo por um pouco de paz.

Acho melhor eu dizer quando isso começou, eu tinha surtos quando era jovem porque achava que o mundo inteiro eventualmente ia explodir, e por que eu mesmo não agüentava a hipocrisia das pessoas. Eu, quando criança, avisava maridos que mulheres os traiam, eu tentava dizer a verdade. Fui punido severamente por isso. Eu comecei a desistir de tentar contar a verdade, e a contar uma piada. Eu parei de ter medo de explosões, e passei a querer explodir. Bombas caseiras são fáceis de fazer, um pouco de conhecimento de química, alguém com uma solda para te ajudar a fazer a parte elétrica, um relógio velho e você tem uma boa e velha explosão. Tic-tac, tic-tac, algo está prestes a explodir.

O delegado olhava para o meu pai desesperado, como uma criança de doze anos se envolvia com drogas?:

-Pai, eles que me deixaram desse jeito-. Eu estava sangrando, dando uma de vítima.

-Eles cercaram meu filho, três homens fortes de 17 anos, e ele sobreviveu. Ele está sangrando.

-Eu vou fazer algo sobre o assunto- Disse o delegado.

Todos os três meninos altos e fortes foram chamados para a sala, eles estavam sangrando também, o que não fazia sentido já que era eu contra os três brutamontes:

-Eu vou mostrar para vocês a prisão, e vocês vão ficar aqui por uma noite. O menino que vocês espancaram contou todo o esquema de drogas que vocês chefiam, é melhor vocês me contarem amanhã de manhã, ou as coisas vão ficar pior.

Os três começaram a protestar gritando que o menino de doze anos tinha planejado tudo, ele tinha sumido com o amigo deles, ele sabia como vender a droga, ele tinha os fornecedores, ele começou a briga, aquele filho da puta de apenas doze anos tinha armado tudo contra a gente. O delegado começou a rir, eles realmente achavam que aquele tipo de conversa teria pegado? Babacas, um delegado com anos de experiência nunca conseguiria cair nesse tipo de história, o menino tinha apenas doze anos e chorava muito. Ele estava sangrando, e foi severamente espancado.

O delegado prendeu os três criminosos, enquanto o garoto dizia adeus. O garoto sorriu, um sorriso imenso, daqueles que dá para se perceber. O delegado parou e começou a falar com um dos policiais:

- Aquele sorriso.

- O que foi?

- O garoto sabia todos os lugares de vendas, os pontos, os chefes. Somente quem está organizando tudo isso saberia desses detalhes. Nós fomos enganados.

- Mas um garoto que tenha feito isso é um verdadeiro psicopata, ele manipulou os amigos de 17 anos, o pai e a você.

-Eu sei.

Fui eu. Eu comecei a briga. Eu quebrei o nariz de um deles. Eu aceitei o sangue. Eu planejei a porcaria de esquema, eu queria acabar. Eles não queriam me deixar ir. Eu planejei tudo. Eles estão presos. Eu estou livre. Ainda não consigo dormir. Tinha apenas malditos 12 anos e já queria morrer. Já queria parar de ver TV, queria parar com a excessiva masturbação e inutilidade. Eu queria viver. Respirar. Tic-tic, algo está prestes a explodir.

Eu comecei a me queimar com cigarros nos dois braços, assim que comecei a ficar com ela. Ela parecia querer ir até o fundo do poço. Toda vez que dormia na casa dela, eu ficava acordado olhando ela dormir. Ela era linda no seu jeito decrépito, com os dentes amarelados de cigarro, aquela magreza raquítica e seus grandes olhos negros. Eu queria amar ela. Eu queria sentir alguma coisa. Eu não sentia. Comecei a fumar seus cigarros quando ela dormia, e queimar meu braço. Aos poucos, meu braço ficou extremamente danificado, queimaduras de segundo grau, me diziam, seu filho tem problemas psicológicos, eu sei, pessoas com esse tipo de inteligência tem 60 por cento a mais de chance de se matarem, eu sei seu médico, você não precisa me contar. Eu sei. Ela não me amava, seu médico. Ela não sabia que eu estava ali. Podia ser outro, podia ser qualquer outro. Ela não me queria. Eu via o cigarro queimando minha pele lentamente, enquanto aquela dor invadia meu corpo, eu estou vivo, eu estou vivo, por favor, não me matem agora. Eu falei eu te amo para ela, porque eu sabia que isso faria ela ir embora. Ela correu. Ela não me amava, seu doutor. Ela só não me amava. Bem simples.

Uma bomba exige muito menos equipamento do que você pensa, a maioria de matérias pode ser tirada de coisas simples como um suco. O mecanismo do relógio antigo conectado a bomba é mais complicado, exige conhecer um pouco de elétrica e principalmente como fazer o relógio funcionar a bateria com um sistema de ativação competente. O relógio é um luxo, uma diversão a mais. O barulho me acalma.

Eu tinha trabalhado há 2 semanas, 8 horas por dia, num lugar onde ninguém sabia minha língua. Eu estava doente, quarenta graus de febre e piorando. Eu continuava trabalhando cavando a base da casa, um metro de terra, dois metros de terra, eu estou morrendo, vomito de novo. Eu comecei a ter alucinações, a ver pessoas, a ver meu avô. Eu estava numa casa suja, cheia de europeus drogados, que me davam cocaína como forma de aliviar a dor. A febre melhorava, as alucinações pioravam. Comecei a achar que me perseguiam, me queimei com cigarros, passei a cortar meu pulso, estava à beira de morte. Lembro de uma mulher me segurando, lembro do carro. Eu acordo num hospital, o médico sorri e me fala num espanhol corrido:

- Você estava prestes a morrer senhor. Parabéns, poucos homens agüentam esse tipo de dor. Quem é você?

-Eu não sou ninguém, caralho. Você tem ordens de não me ressuscitar. De não me salvar. Está escutando?

- Filho, você vai ficar internado por cinco dias, já vieram deixar sua passagem de voltar. Você tem que voltar.

-Eu tenho que morrer. Eu não vim aqui para voltar, seu babaca, está me escutando?

- Sinto muito, não há nada que possa fazer. Outra coisa, eu descobri que você tem uma doença crônica incurável no seu sangue. Chama-se síndrome de Raiter, seu estágio está no começo. Sugiro você procurar ajudar. Ela normalmente é genética, acionada por um mecanismo. Seu sistema de defesa está se auto-destruindo por excesso de esforço, ele está atacando suas próprias células de defesa. Algo deve ter acionado seu sistema de defesa, um gatilho.

O garoto mostrou as queimaduras e cortes, o médico sorriu. Ele já sabia o gatilho. O maldito gatilho. Ela não me amava, deve ter sido esse o gatilho. Síndrome de Raiter. História engraçada. Um nazista desgraçado matava, torturava e usava judeus como instrumentos de pesquisa. Ele os fazia sangrar, esperando descobrir a melhor maneira de matar alguém. Ele descobriu que algumas pessoas não dormiam, que elas sentiam mais dor, que o próprio sistema se auto-atacava aumentando a dor. Uma célula sente dor, ela pede amortecedores para essa dor, o sistema de defesa aparece, eles melhoram a situação e o surgimento daquela dor, o meu sistema acaba com a célula também. Afinal, porque se poupar desse trabalho? Sim, meu esforço demais de defesa me mata, não é irônico?

Quando você não dorme, você faria qualquer coisa para ter uma gota de sono. Qualquer coisa. Eu comecei a freqüentar um hospital com doenças terminais. Todo final de semana eu ia vestido de palhaço. Eu abraçava as crianças, eu conseguia as fazer rir. Os pais gostavam, os pais realmente amavam aqueles filhos. Os filhos só precisavam estar morrendo, para que possamos dar a mínima atenção aos outros: os pais escutavam de verdade o que os filhos estavam dizendo. Não era como se a pessoa só estivesse esperando sua vez, eles de verdade estavam naquele momento. Naquele momento. Eles choravam de saber que iriam enterrar seus filhos. Doença de Raiter. Nos piores estágios invade o corpo inteiro, deixando uma dor em quase todos os músculos, inchaço nas extremidades, em alguns casos raros infartos fulminantes. Eu dormia. Cuidando daquelas crianças, chorando pela primeira vez em anos. Eu dormia. Eu era um viciado em visitar crianças doentes, em ver pais sofrendo, eu era um psicopata. Eu só conseguia dormir assim. Até que uma criança com a sua doença morre, de repente você não consegue dormir mais. De repente, as coisas não têm o mesmo efeito. Você quer morrer de novo. Tic-tac, algo vai explodir. Rápido, muito rápido.

Voltei a ter insônia. Um plano. Você chama várias pessoas. Faça contatos, saia de casa. Você organiza uma festa em um telhado. Fale para todos levarem o computador. Consiga pessoas populares que convençam os outros a ir nesse tipo de festa. Esconda seu nome. Alugue o telhado. Faça as bombas. O tempo está chegando: trim, trim, trim, trim e trim. O relógio velho começou a tocar. Ele estava sozinho com ela num topo de um telhado de outro prédio:

-Porque estamos aqui? Eu quero ir para a festa no outro telhado. Tem pessoas bonitas, todas tão especiais, hoje eu vou beijar alguém novo. Toda pessoa é um floquinho de neve especial. Tem algo apaixonante e único dentro de si mesmo. Toda pessoa é especial e bonita no fundo. Todo mundo pode ser feliz.

-Você não entende, você nunca entendeu- Ele disse, enquanto virava o uísque.

-O quê?

- Nós não somos porras de floquinhos especiais. Nem todos nós temos sucesso. Nós somos fruto de uma depressão, presos em empregos de merda. Infelizes com as nossas vidas. O excesso de masturbação e computadores. Estamos completamente mortos por dentro. Não somos porcarias de flocos de neve. Somos merda, simplesmente grandes sacos de merda. Eu quero dar um tiro no meio da sua testa, eu quero matar toda porra de panda que não faz sexo para salvar sua espécie, eu quero respirar fumaça.

-Eu vou embora, você é tão idiota. Todos somos especiais.

-E eu devo ignorar que você pega várias pessoas para não sentir nada? Que você transforma tudo em absolutamente porcaria nenhuma. Que você é o mais puro reflexo de superficialidade. É isso que você espera que eu faça? Eu não agüento mais.

Ela começou a chorar, a ter raiva. Ele gritava: finalmente, um pouco de raiva, eu sou uma porcaria de floquinho especial de neve? Estamos numa corrida sem vencedores. O relógio dourado começou a tocar, algo está prestes a explodir, algo vai explodir, trim. Ela gritou:

-O que você fez? Todos meus amigos estão naquele prédio.

-Calma. Lembra onde todos eles deixaram suas coisas, celulares, computador?

-Sim- Ela disse.

A explosão começou a destruir o quarto onde todos os pertences se encontravam. Os convidados da festa, mais de trezentas pessoas começaram a gritar, se assustar, eles iriam morrer. Ela gritou enquanto batia com os punhos no peito do homem:

-Você vai matar todos eles? O que você está fazendo?

-As coisas que eles tinham era o que eles eram.

-E agora? Sem mais explosões?

O mesmo relógio começou a tocar:

-E então mais explosões?

-Espere um momento.

-Seu babaca, o que você vai fazer?

-Eu vou mudar tudo isso, eu odeio tudo isso.

-Largue dos seus dramas, eu não me envolvo mais.

-Foda-se você e sua falsa gentileza. E sua falsa forma de tratar os outros. Seu egoísmo que corrói tudo que você toca. Foda-se o fato que eu to apaixonado por você. Foda-se tudo. Eu quero acabar com toda essa geração de falsidade e corrupção, quero dar um tiro em cada pessoa que se acha a porra mais importante do mundo. Quero danificar cada consumista que se define a partir do seu computador, que troca de pessoas como troca de relações. Quero explodir com toda uma geração de homens traindo mulheres, e mulheres traindo homens. Quero explodir comigo mesmo e você. Quero que tudo acabe rápido, quero que a morte me leve de forma inesperada. Quero-me sentir vivo. Quero nunca mais te ver ou ninguém. Quero construir algo que acabe com a superficialidade que você representa. Eu quero que cada floquinho de neve se encontre na porra de uma situação de merda. Eu quero ver o desespero, a destruição. Eu quero que você e o que você significa nunca mais voltem a existir.

A cobertura inteira começou a explodir, parte por parte, tijolo por tijolo, as pessoas pareciam ter sobrevivido, acuadas, corriam por a sua vida. Ele sorria bastante, o mesmo sorriso psicopata da delegacia:

-Você é um idiota, você é simplesmente...

-O quê? Incontrolável?

-É, Tyler Durden, você é incontrolável.

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