Run Forrest! Run!

Eu tenho tido o mesmo sonho toda noite. Eu estou numa rua escura. É o final de uma festa, muito barulho sai de uma casa noturna na esquina. Eu vou acompanhado de um casal até um ponto onde não se vê mais ninguém. Quatro pessoas surgem, homens grandes e fortes. Eles estão querendo dinheiro. Por favor, dinheiro. Eu começo a gritar, corram, por favor, corram. A menina tem olhos cinzentos, entra em posição de defesa. Só pode ter visto isso num filme de Kung-fu. Eu grito com voz autoritária “vá embora, você não tem chance, vá embora sua maldita idiota”, ela entende o tom da minha voz. Seu acompanhante já vai embora à esquina, ela olha uma última vez nos meus olhos e vai embora. Se eu pudesse dizer o que vi naquele olhar, talvez tivesse gritado para o mundo inteiro ouvir. Sejam felizes, vocês podem. Eu não. Imploro que vocês sejam felizes, eu posso morrer me deixem aqui. Os olhos dela sorriram antes de ir embora, e eu me senti um pouco feliz. Ela não era minha, mas também não era dele. O cabelo preto dela batia na sua cintura, enquanto o som de acorde de um violão começou a tocar. Então é isso, idiotas. Quatro contra um. Eles me cercam rapidamente, o que não te contam nos filmes de ação é que os malvados sempre atacam ao mesmo tempo. Eu dou um soco certeiro na cara de um deles, todos parecem iguais. Ele cai no chão e não levanta, enquanto isso os outros percebem que não é brincadeira. Eu acerto duas cotoveladas bem dadas e um deles desloca a mandíbula. Um deles acerta meu joelho ruim, e outro um soco nas minhas costelas. Eu sinto algo quebrar, começo a sangrar por dentro. Acerto um chute no joelho de vingança, o dele me machucou, mas o meu o derrubou no chão. Não conseguia mais andar, engolia o sangue que vinha de dentro e tinha um gosto amargo. Eu ia morrer. Eu sabia disso. Os dois também sabiam.

O último levantou uma faca, nós sabíamos o que ia acontecer. Ele sabia que eu tinha escolhido morrer no momento em que comecei o ataque e mandei o casal feliz correr. Eles eram felizes, eu não. Eles tinham direito a vida, e eu não já sabia mais se tinha um lugar no mundo ou se algum dia eu já tive algum lugar ao qual pertencer. Solidão é saber que não existe um lugar onde essa palavra perda o sentido. Ele sorriu e num golpe de sorte acertou a faca no meio da minha barriga. O sangue jorrava na minha boca, eu iria morrer. Antes de cair no chão, dei um último chute no meio das pernas. Na hora que ele desceu, apliquei uma cotovelada atrás do pescoço. Se ele não morresse, pelo menos nunca mais iria andar. Eu caio no chão, peço desculpas por estar morrendo. Peço perdão a santos e demônios que nunca conheci. Os dois voltam, eles me enxergam no chão. Não tem ajuda para mim, nenhum médico. Os dois podiam muito bem ter sido quem me matou. Eu escolhi, mas acho que nunca tive uma escolha. Desde o primeiro dia que a vi, eu não tinha qualquer escolha.

Eu acordo suado na cama, de novo. Toda noite o mesmo sonho. Toda vez eu os mando correrem. Eu sei que vou morrer, mas mesmo assim tento fazer um golpe mais rápido, uma tentativa mais forte. Talvez eu não morra. Nunca pensei em deixá-los sozinhos ou mesmo correr. Eu sempre fico. Vocês sabem, eles são felizes. Algo que vale a pena de ser salvo. Não precisa ser Doutor Freud para entender esse sonho.

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