O mundo é mágico ou absolutamente nada.


Ele estava acordado na madrugada mais uma vez, o álcool havia tirado toda a energia do seu corpo. Não adiantava, qualquer coisa que ele pudesse dizer ou fazer não acabariam com aquilo: o mundo inteiro havia desaparecido, ele estava morto por dentro, era como se todo o mar e a natureza ao seu redor tivessem se tornado cinzas, e o mundo tivesse pela primeira vez parado de girar. Não havia astronomia que convencesse a pequena criança que o mundo mais uma vez giraria, e o adulto finalmente estava acabado; o céu cheio de estrelas se perdeu por um momento; uma brilhou mais do que as outras; ele viu parado e a admirou; até que o destino ou acaso resolveu apagar as luzes; o escuro dominou sua mente.

- Eu quero um julgamento!

A sala estava cheia de várias pessoas com o mesmo rosto, e o juiz tinha o rosto de um filosofo grego:

- Silêncio no juri, a acusação tem direito a falas iniciais. - O juiz falou, enquanto o homem se transformava em criança e começava a falar.

- O problema é que não posso acreditar que perdi todas as rodadas. A mulher que eu amava está namorando outro, e feliz. Ela foi e será a única mulher da minha vida. O que posso fazer?- Ele falou, e a defesa se levantou, era uma linda mulher.

- A acusação quer surpreender vocês com emoções baratas, mas vou provar que esse é um homem de 20 anos com todo o seu potencial na vida, e que essas mulheres não podem ser culpadas por não terem o amado. - A advogada de defesa sentou, e o júri com o mesmo rosto abriu a boca de surpresa.

- A defesa claramente ignorou as flores, as noites sem sono, e todo o amor nesse peito. Esse homem acabou; ele finalmente perdeu o que havia dentro dele.

- Peço uma testemunha de defesa.

A bela mulher levantou e foi até o estande e jurou solenemente dizer somente a verdade:

- Eu fui o objeto do amor dele por dois anos, e agora estou namorando feliz.

- É verdade que você não amava ele?-Disse a advogada de defesa.

- Com certeza.

-E você ama seu atual namorado?-Disse a advogada de defesa com força.

-Definitivamente.

A acusação levantou indignada, a criança estava imensamente nervosa:

- Não é verdade que você beijou esse novo amor, enquanto o pobre homem estava no banheiro, e afastou o beijo quando ele voltou. Obrigando-o a ir para casa chorando?

-Bem, as coisas não aconteceram assim.

-É verdade ou não? Você jurou solenemente a verdade.

-É.

-Não seria sincero que ele te ama mais do que todo o mundo, e saiu daquele bar
independentemente dos seus sentimentos? Não seria esse homem uma pessoa boa?

-Sim, mas vocês têm que entender, eu nunca quis o magoar.

-Suas desculpas não valem nada nesse tribunal, nada.

A criança estava no parquinho, e começou a falar com sua babá: o problema do mundo hoje em dia, é que estamos num grande aquário; neste aquário existe uma guerra de todos contra todos; somos malvados, pérfidos e malucos; desejamos matar uns aos outros lentamente; somos um tanque cheio de tubarões. Caso um peixe inofensivo fique no meio desse aquário gritando paz e amor, ele vai ser morto no mesmo momento; ele vai ser acabado por um tanque cheio de tubarões; o máximo que ele pode fazer é se esconder; correr desse lugar, ou morrer.

-Eu quero que os trabalhos no tribunal continuem!- Gritou a criança.

-Agora temos uma testemunha da acusação.

A menina era extremamente magra, e foi até a banca e de novo fizeram o juramente solene da verdade, que palavra complicada:

- A senhora teve relações com o homem magoado, certo?

-Sim. - Ela disse.

- Não seria o caso que ele viajou por 1 semana, e você ficou com outras cincos pessoas?

- Sim, e qual o problema?

- O problema é que você não teve consideração nenhuma com meu cliente.

- Como você terminou esse relacionamento? Por curiosidade.

-Eu estava bêbada e contei todas as pessoas que fiquei, depois de falar que não deveríamos mais ficar.

- E como ele reagiu?

- Ele falou que passou a sentir nada, absolutamente nada.

O problema de todo e qualquer padrão ético e moral, é que as pessoas seguem sua própria direção ou independência. Não podemos julgar os outros pelos nossos padrões, e isso nos tem jogado num desespero incrível. Ao mesmo tempo, começamos a vender nossos relacionamentos e amores a um preço bem barato: a conveniência. O problema é que isso não pode ser julgado, porque ganhamos nossa liberdade. A palavra liberdade perdeu completamente seu sentido para começar a querer dizer pode fazer o que se quer seguindo seu interesse. O problema é que seu interesse é formada pelas coisas que o cercam, e isso nem sempre vai ser algo benéfico.

-Não acabamos com o julgamento- A criança esperneou.

A bela mulher chamou uma testemunha da defesa:

-Então você era amigo da testemunha.

-Certo.

-O que você diria sobre seus sentimentos?

-Ele exagera, ele quase se matou ano passado.

- Sobre esse episódio, você lembra o motivo?

- Ele havia perdido o que ele disse ser a mulher da vida dele.

-Ótimo, vemos um claro caso de insanidade.

A criança levantou, com seu belo terno preto e gravata azul, insanamente brava:

-Como você diria ser o desempenho de trabalho do meu cliente?

- Ele é excelente em todos os quesitos.

- Ele se matou? Meu cliente.

- Não.

- E você senhor já teve um dia ruim, em que você quis muito morrer?

- Já, mas nem por isso fui até o topo de prédios.

- É verdade ou não, você já pensou em se matar?

- Já.

-E isso faz do senhor uma pessoa louca?

- Não.

Quando ele era jovem, todos notavam sua diferença. As professoras não sabiam como lidar com o garoto que tinha comparado Hitler e Napoleão antes de ter somado. Ele era assustador. Ele não gostava de falar com outros, era uma criança extremamente violenta. Não sabiam como fazer aquele pequeno garoto funcionar. Uma bela menina cheia de cortes nos braços disse oi. Oi, bela menina. Você quer ser meu amigo?. Quero. Eles viraram ótimos amigos, e o garoto passou a tirar os melhores resultados da classe e a ser o garoto mais quieto. Um dia os cortes foram fundos demais, e ela morreu. Ele nunca mais foi o mesmo.

-Quero acabar com esse caso, eu chamo meu próprio cliente. - A criança disse, se transformando num homem e indo até a banca das testemunhas.

-Eu perdi rodadas de mais, não agüento mais. Eu sou culpado de toda minha imaturidade, das coisas não terem dado certo. A culpa não é mais de ninguém, estão inocentadas as mulheres que magoaram meu coração. O problema de eu passar a vida sozinho, é minha única culpa. Sou eu que desvio da reta, que desvia do mundo inteiro. Eu sou o garoto olhando para a parede, que vê um globo inteiro de monstros. Sou eu, e mais ninguém. Por isso peço desculpas a todos, e me jogo na prisão perpetua.

Existe um sentimento que todo grande homem já passou: ele está na beira do abismo, que o domina, que o chama para a morte, ele senta nada, absolutamente nada, suas possibilidades morreram em amores não feitos, seus amigos já não existem mais, suas forças acabaram, ele sente um lugar cruel onde ninguém se entende; ele acha que toda e qualquer esperança morreu. Ele resolve tomar uma ação, que pode muito bem ser tomar veneno ou um continente inteiro numa guerra, nessa hora, o que jaz no seu peito é um vazio; o mais completo vácuo; não existe nada ali; somente um homem cansado do destino. Essa palavra cruel que homens preguiçosos usam para justificar sua vida, o destino é a prisão daqueles que não gritam mais por liberdade. Eu não grito mais por liberdade.

A criança se levanta indignada, e começa a falar mal do seu próprio cliente por ter inocentado todas as acusadas, ele tinha uma ótima chance com o júri. A criança para por um instante e diz:

-Tudo familiar desapareceu, o mundo parece novo em folha. Um novo ano, um começo em branco. É como se ter uma grande folha de papel branco onde escrever;um dia cheio de possibilidade. O mundo é mágico, então vamos explorar.

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