Ninguém.


Ele acorda mais um dia, e o uísque continua na sua mesa. Fica na mesa, como ficou há dias, semanas, meses e já está completando aniversário. Ele levantou com o alarme: a polícia precisa dos seus serviços, a polícia precisa dos seus serviços, a maldita polícia precisa dos seus serviços. Ele pega um casaco preto, e cobre o corpo inteiro. Guarda a espada entalhada de sangue negro. Corre a cidade com a velocidade de carros. Só para descobrir outro ninguém.

A televisão ligada contava uma história: Anos atrás, numa noite de lua cheia, à noite em que tudo acontece segundo os incas, os homens começaram a ver sombras. Essas rodeavam homens que causavam o mal, a morte, a destruição. Igrejas e lugares de centro políticos formavam enormes massas de material negro que formavam monstros que matavam todos os arredores. Os monstros foram chamados de sem coração pela forma como matavam sem perdão. Os pequenos monstros estavam seguindo todas as pessoas, mas somente umas com muito pesar construíam grandes monstros. Experiências mostram que humanos com grande pesar são absorvidos por essa massa escura atraída por dor e desespero e viram monstros destruidores. O incrível é que dentre desses absorvidos, alguns com grande personalidade, coração, ou histórias de vida de respeito sobrevivem a esse fenômeno e perdem seus sentimentos. O governo passou a usá-los, já que eles são a única coisa que pode combater os monstros que destroem a cidade. Eles não foram convencidos, porque não tem nenhum sentimento de apatia ou necessidade de salvar seus conterrâneos. O governo os coagiu por meio de pensões alimentícias e estadias garantindo sua força na luta contra esse mal. Religiosos estimam que esse é o apocalipse, finalmente as pessoas más estão sendo julgadas pelo o que fizeram, o que eles não contavam é que muitos religiosos acabaram sendo absorvidos. Políticos tentaram usar o mal do século como justificativa de concentração de poder, mas eles foram simplesmente mais massa de absorção para monstros imensos.

O homem levantava novamente, o que era surpreendente porque no mesmo momento há alguns dias ele havia se jogado da janela do quinto andar. Infelizmente, ele havia sido absorvido pela massa, mas o que surgiu foi duplo: um monstro do tamanho de arranha-céus e ele sem qualquer sentimento. Ele era ninguém, ele era nada. O que ele tinha eram somente solidão e prática na vida: ele acordava porque o governo o alimentava, lutava porque o governo o dava um teto. Sua família achava que ele estava morto, porque o governo o transformou num número a ser contabilizado na força policial nacional: o número seis. Ele ficou feliz de pensar que haveria mais seis como ele, mas percebeu que isso não fazia diferença; nada fazia mais diferença. Ele pulou do quinto andar, e observou como sua força e velocidade tinham mudando, agora ele podia fazer o que quisesse. O monstro tinha 10 metros, feito de sombra e estava prestes a matar uma criança:

- Antigamente você teria pulado na frente daquela criança- A menina de olhos negros disse, enquanto olhava para o homem.

-Antigamente?

-É, quando você tinha um coração. - Ela pulou e tirou a criança do caminho.

Ele foi e sacou a espada das costas: uma espada em forma de uma faca de açougueiro imensa, com diversas marcas de sangue negro e formas de dragão. Ele dividiu o monstro em dois pedaços com um pulo. Ela sorria na sua frente, com a mesma roupa preta que ele tinha:

- Número cinco, eu diria que você é: número seis?

-Sim.

-Você fala?

-Não. – Ele foi embora, enquanto o eco da sua palavra ainda ressoava pelo silêncio da noite.

De novo, ele acordava com o uísque na mão. A casa não tinha nada além de uma cama e uma escrivaninha com um livro: as meditações de descartes. Ele gostava da simplicidade do troço de se considerar só a dúvida como algo verdadeiro. A menina batia na porta desesperadamente, e ele ignorava:

- Vá embora.

- Número seis, hora de acordar flor do dia.

-Você sabe que se eu levantar eu te mato certo?

- Você não faria isso.

Ele abriu a porta, ela entrou e fez o café da manhã.

Ele foi embora, antes que ela pudesse dizer adeus: não agradeceu, não olhou nos olhos dela, não viveu aquele momento. Ela já sabia, ou melhor, ela tinha que saber que aquilo não mudaria. Aquele homem estava no mesmo status que um morto andando. Ele desceu pelas ruelas da cidade escura a busca de um monstro imenso; este parecia com um tartaruga. Uma mulher rechonchuda bela com grandes óculos, cabelos e olhos pretos, buscava fugir e repetia a si mesma:

- Vinte e um dias até eu ser feliz.

-Vinte um dias até eu ser feliz.

-Vinte e um dias até eu ser feliz.

-Perdi a conta, vou morrer, vou morrer!

O monstro absorvia a energia, enquanto o homem olhava parado rindo da cena:

-Viu, senhora organização, as coisas não são perfeitas, cadê toda aquela maturidade mentida?

O homem sentiu uma dor no peito, o que era novo desde o dia que ele se jogou. Ele sentia apreço, desespero, como se a cena não pudesse ser daquela forma: a mulher não morreria, ele não poderia deixar isso acontecer. Ele pulou do topo do prédio, e afastou a mulher:

- Olha, não morra porque isso me dá agonia.

- Morpheus, é você? Disseram-me que você tinha morrido.

- Não, meu nome é seis.

- Sim, seis era seu número favorito de esporte, a camiseta do dia que você ganhou o campeonato.

-Seis?

O monstro atacou, Morpheus ergueu e segurou uma das patas enquanto prédios eram demolidos pelo monstro. Morpheus com dois golpes cortou no meio o temido monstro, deixando sangue negro espalhado por todo o corredor. A mulher olhava tonta, parada e surpreendida:

- Eu não tinha como saber que você ia se matar, eu tinha meus próprios problemas.

- Qual o problema de vocês que tem sentimentos? Vocês só têm seus próprios problemas, não dá para ver que o mundo está na merda?

- Eu não tenho culpa, você que se jogou, eu não tinha como saber.

- Eu ter te avisado que faria isso, não foi bom o suficiente? Você ainda disse que ia ficar caro para seus créditos de celular, em que mundo você vive?

- Mas, mas, mas, eu não tinha como saber.

- Eu não ligo mais, você não leu nos jornais? O nome do grupo é sem sentimentos porque, bem, não temos sentimentos.

- Isso é mentira! Você me salvou.

-Porque o governo me paga para isso.

- Você teria me salvado de qualquer jeito.

-Não, não teria. Se consigo lembrar-me de algo, tive prazer em te ver na dúvida.

- Você mudou. Não tem mais nada ai dentro.

-É. Posso ir embora?

- Pode. Você aceitaria um sinto muito?

- Eu não aceito nada, eu não sou nada, nem ninguém. Vocês deixaram isso bem claro.

- Vocês?

-É, vocês.

Ele foi embora. A número cinco viu toda a cena e começou a chorar. Ele não percebeu, estava cego há muito tempo e não era agora que ele começaria a enxergar. Algo daquela cena o irritava: o cenário, a mulher, a dor no peito; nada fazia sentido. Porque ele queria ter salvado ela? Porque ele falava daquela maneira ácida? Porque ele tinha se matado? Essa era a única coisa que ele não conseguia se lembrar. Ele se lembra de se jogar, sem nenhum arrependimento porque tinha uma ótima razão, mas agora ela sumia da sua cabeça. Ela não existia.

Um monstro imenso foi visto: o monstro de Morpheus. Ele tinha a forma de um imenso pássaro, ele cobria pelo menos vinte metros de extensão. Não tinha como ser morto, nem derrotado. Pelo menos, dois sem nomes já tinham sido mortos no processo. O seis era o melhor, o seis salvaria a vida de toda a cidade. Mal eles sabiam que o seis era o destruidor de toda a cidade. Pessoas morriam a revelia, era a parte mais rica da cidade. Os monstros pareciam ter ganhado na loteria, só existia escuridão naquele lugar e ódio. A riqueza em excesso como diriam alguns é tão indigna quanto à pobreza extrema. O monstro de Morpheus parecia alimentado por um quarto em especial: um quarto no final do corredor, que parecia o corredor até as câmeras de gases nazistas. Ele foi até a porta, e lembrou-se de tudo:

- Você por aqui? Destruindo tudo?Você é ninguém, nós não temos nada.

- Eu vim te salvar.

- E essa sua mania de me salvar, eu não quero ser salva, eu não tenho do que ser salva.

-Olha tem um monstro de 20 metros e crescendo matando as pessoas se alimentando de você, acho que isso é legal de ser salva.

- Muito engraçadinho, eu não vejo monstro nenhum! Você só tenta me reconquistar e me irrita você não percebe que já tenho outros? Que você não foi nada? Você é ninguém.

- Mas nós podemos parar as mortes.

- Você não entende, é lerdo? Eu tentei ser delicada, mas não temos nenhuma conexão, nunca tivemos, nem nunca vamos ter, coloca na sua cabeça maldita.

- Agora eu lembrei.

- Do que?

- O porquê eu quis ir embora.

- Você só me culpa, a culpa é sua, o sentimento é seu. O que eu tenho a ver com isso? Nada.

- Você está certa, eu vou embora, não existe o monstro, eu só quero te reconquistar mesmo.

- Finalmente! De qualquer forma, você é um mentiroso.

- Por quê?

- Porque você disse que nunca iria embora e você foi.

- Você é babaca? Não percebeu que pensava em você todo dia antes de dormir e ao acordar? Você é maluca, quem foi embora foi você, eu continuo aqui. Onde sempre vou continuar.

- Mas você se matou.

- Você esqueceu? Eu sou ninguém.

Ele foi embora. Ele encarou o monstro de frente, e pela primeira vez percebeu que ele iria perder a briga. A número cinco surgiu e começou a sistematicamente atacar cada asa, enquanto o animal corria em direção para matar o número seis. Morpheus não se movia do lugar, não fazia nada. A número cinco entrou na frente do monstro para impedi-lo de matar Morpheus. Ele não aceitaria isso, claro que não, quem aquela pequenina menina pensava que era? O troço todo de salvador era muito antigo, tinha que ser respeitado! Ele correu na velocidade que só ele conseguia atingir e uma explosão aconteceu do encontro do pássaro e nosso pobre herói: se via somente sangue negro voando pelos ares. O quarto do hotel continuava intocado, como se o mal se alimentasse dali sem nenhum esforço ou absorção. A número cinco sorria:

- Então nós temos sentimentos número seis?

- Pode me chamar de Morpheus, e se você não conseguiu perceber eu tenho uma estaca enfiada no coração.

- O que você acabou de falar?

- Coração?

- Eu pensei que ninguéns não tivessem corações.

- Talvez, e só talvez, ainda exista um coração

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