Parêntesis.

Normalmente trago as histórias em forma de conto, rápido, como um raio que parte de uma ligação entre neurônios, já bem enfraquecidos pelo efeito da sociedade e, sinceramente, de um pouco de bebida. Hoje venho no melhor dos casos trazer um relato, um parêntesis, de algo que enxerguei: um velho cuidando de uma velha, sim, é comum com a idade isso acontecer, uma das partes do casamento cuidar do outro que passou por alguma doença no cérebro, mas o que me impressionou foi a forma. Existem formas de cuidar e outras formas de cuidar, agora carinho a gente vê com olhos treinados, porque virou um bem escasso hoje em dia, vendido em formas fúteis de garrafas de coca-cola, que segundo alguns anúncios trazem nossa felicidade instantânea, e o problema maior é acreditarmos nisso. Voltando ao velho, entender como alguém consegue cuidar de alguém que não lembra que é casada ou tem filhos, de alimentar dia após dia, a paciência e força que tem ali deixam marcas nas faces, ou melhor, observamos ali um parêntesis da vida, um sopro da alma por assim dizer. Uma refeição como contexto de exemplo, ela sempre quer ir embora, ele fala que só um pouco mais por pelo menos 11 vezes, estamos na casa da sua filha não lembra? Vamos esperar o doce que nossa neta está no servindo!, já! Já!, espere um pouco. Súplicas e súplicas, momentos de tensão enquanto se enerva de não estar em casa, agonia, até que uma voz da velha diz algo engraçado, que por segundo acalma todos da mesa, inclusive a enfermeira que agora se encontra almoçando seu frango frito e seu bolo de chocolate doce. O marido sempre a alimenta nos almoços, já que suas mãos tremem demais para segurar uma colher. O mais engraçado da situação, e eu diria que tem até um quê de irônico, é que ele está bem feliz numa posição que boa parte da humanidade foge, cuidar do outro e esquecer de si mesmo, que tipo de relação cria laços tão fortes que estraga qualquer fraqueza frente a doença? Que tipo de cuidado é esse entre duas pessoas? Como alguém depois de mais de décadas consegue na pior das condições dizer você é a mulher mais bonita do mundo todos os dias?

Agora a pergunta que vale um milhão de dólares a pessoa que você colocou como a mulher da sua vida, aquela que você sonhou, escreveu um livro, passou toda uma vida em um ano tentando alegrar e esquecer-se de si mesmo faria o mesmo? É uma questão simples na verdade, o fato que você vai fazer isso já é um dado, ou eu espero meu caro leitor que seja uma afirmação dada, talvez no fundo ainda um que de otimismo aqui. A resposta por mais dura que seja é um não, um daqueles bem redondos e sonoros que ecoam pelas salas quando ditos, e isso incomoda, isso distorce: em que medida alguém pode agüentar se doar tanto, sem receber em troca o carinho, a forma que um velho cuida de uma esposa, não seria hora de se repartir no mundo de uma maneira em que você veja esse carinho? Não seria hora de ser o penitente que não quer nada em troca, a não ser a forma. Não quero nenhuma resposta, não mais, acho que podemos pedir é um pouco de força, força de que um dia possamos dar essa capacidade como uma afirmação dada, mesmo que não seja agora, mesmo que não seja fácil, mesmo que não existam mais princesas incas e contos de fada na vida real sem um esforço, sem uma luz que se reste na cabeça de um louco, sem algo que, por mais que as provas contrárias estejam aí, ainda resiste: fé na forma, na forma do cuidado, ainda oculto a como vivemos ou pensamos, mas vocês sabem que a um tolo só resta lembrar a máxima socrática de que sempre existe uma dúvida, e com uma dúvida, uma esperança.

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