Infeliz dia dos namorados.

Eu vim aqui gritar, quero que alguém escute. Eu nunca grito ao vivo, detesto pessoas que querem atenção e gritam. A verdadeira atenção vem do silêncio entre duas pessoas, mas sai do assunto. Vamos pensar por um momento o que temos aprendido nesse mundo moderno: a não confiar um nos outros, a fugir de qualquer proximidade, a incerteza, a fraqueza, a falta de virtude, a termos medo de humanos, a termos medos de nós mesmos, da felicidade, de ser vulnerável, do outro parar de ser um outro e virar um irmão ou uma irmã: temos medo do espanto. Espanto é a surpresa que veio com a filosofia de tentar entender outro, porque era isso que Sócrates quis aceitando a morte pelo povo: ele queria entender o outro, e melhorar o outro a si mesmo. Fizemos isso várias vezes, de matar o homem que queria entender, e o matamos por meio da ciência não pensada, da racionalização tola, da invasão da técnica e da perda do cárater humano nas discussões. Eu quero gritar que nós precisamos nos auto-questionar e não só intelectualmente, mas emocionalmente: olhar para as pessoas que nos cercam, para os mendigos, para as crianças, para os nossos amigos, o que temos feitos para entender o outro, para sair de nós mesmos, para sermos vulneráveis e buscarmos a vida nos outros. Eu tenho uma esperança, que é a mesma que reside no choro da filosofia pós-moderna, depois que destruirmos tudo algo vai restar, e algo sempre vai restar: Se tudo são construções, então podemos construir algo que valha a pena, e a estrada vai ser dolorosa, os olhos vão demorar para se acostumar com a claridade, vai ter incomôdo, vai ter tristeza e dor, mas quem nos disse que o espanto não é dor? Ele é dor, mas o interessante dele é que ele vai além da dor, ele é felicidade também. E é isso que eu grito, vamos caçar um pouco de felicidade e tentar esquecer um pouco o que nos é imposto, e pensar o que podemos impor.

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