Peixe Grande.

A criança senta sobre a cama. A garça branca, com asas pretas, senta do seu lado: você deve ouvir meu cantar. O garoto acorda, não consegue entender o sonho. Algo de incrível jazia naquela criança, ao nascer tinha saltado direto da mãe e começado a se mover; se debater contra os que tentavam impedi-lo de chegar até a porta. O sonho era mais uma parada no que seria uma grande história.

Aos dezoito anos tinha se tornado um alto homem, com muita coragem e pouco bom senso. Seu local favorito era a praça da cidade, passava horas enxergando as garças voarem de um lado para o outro. Não havia garça, que não tinha sido perseguido por aquele atlético homem. O relógio batia às 2 horas da tarde pontualmente todos os dias, enquanto ele começava a terminar outro livro. A rotina nunca mudava, independentemente do mês ou ano: ele se mantinha ali. Havia se tornado uma lenda, o garoto capaz de aceitar qualquer desafio: desde derrubar árvores, caçar peixes imensos, gritar em prédios vazios, lutar contra qualquer um, ganhar qualquer coração; o desafio era ele mesmo.

A praça estava cheia, era dia de festival de música. Mulheres da cidade inteira vieram assistir o quarteto de cordas. Ele se mantinha parado no banco, o circo parece girar ao seu redor. Animais dos cinco continentes, e um velho dono de circo barbudo que usava uma toga romana: Venham! Venham! O espetáculo começa hoje! Preparem suas mentes para o desafio! Ele correu até o centro da praça: Que desafio? Você vai ver garoto, dizia o homem de toga romana com a barba grisalha. Nesse momento, ele a viu: usava um vestido preto, com um gato no canto sorrindo, seus belos olhos se fechavam sobre um sol de tarde. O momento parou, as gotas de chuva misturadas com os raios de sol pararam no ar, ele tirou cada uma delas para chegar até seu rosto. Parou na frente da bela menina, e pensou consigo mesmo: o amor da minha vida. O tempo voltou a funcionar agora num ritmo acelerado e ele se movia lentamente não conseguindo chegar até a mulher da sua vida, que foi embora.

O velho de toga esperava no breu da noite, do lado do relógio que parecia uma torre de mármore:

- Você demorou a sair do transe.

- O que aconteceu?

- Não sei você pareceu perdido no tempo.

- Eu achei a minha esposa.

- A maioria dos homens casa, antes de perderem sua esposa.

- Eu preciso conhecê-la, ou morrer tentando!

- Me deixa adivinhar: ela é linda?

- É.

- Longo cabelo, olhos claros, vestido preto?

- É.

- Ei, você a conhece?

- Amiga próxima. Ela está fora da sua liga, corra garoto.

- Você nem me conhece.

- Eu sei quem você é, o garoto que não deixa um desafio, que sempre conseguiu tudo que queria. Com ela, nada disso vai adiantar: você vai perder.

- Olha, eu posso não ter muito, mas sou mais determinado do que qualquer homem que você possivelmente vá conhecer.

- Eu te faço um acordo. Você precisa atingir um objetivo antes de conhecê-la. Fazer simples mil origamis de papel na forma de garça pensando nela, fácil garoto?

- Considere feito.

Ele fez mil origamis de garça, que ficaram guardadas em caixas de papel num grande depósito: belos origamis de todas as cores e formas, iluminando um espaço vazio. Depois disso, ele conseguiu o endereço pelo velho barbudo da bela menina, mas não sem receber um aviso: não vai ser fácil, escute a garça. Depois de ouvir isso, várias aves voaram ao seu redor, e ele nunca conseguiu descobrir onde o velho tinha ido, ou de onde ele tinha surgido.

Ele chegou até a porta numerada: seis. Uma pequena nevoa encobria a casa inteira, pequenos animais pareciam brotar da terra e raízes estavam fincadas naquele lugar que parecia milenar. Ela atende, ele diz:

- Oi, meu nome é Edward e eu vou casar com você.

- Você nem me conhece.

- Eu tenho uma vida inteira para te conhecer.

- A garça falou que meu coração era de outro- Ela disse outra coisa, mas foi isso que ele escutou.

Existe um momento que um homem deve perceber que tudo está perdido, o navio partiu e ele ficou para trás, e qualquer um que não escute é um tolo. Bem, esse homem era um tolo.

- Eu te amo, e eu vou me casar com você.

No dia seguinte, mil garças estavam penduras por fio de maneira simétrica ao redor da casa. Ela sorria, com uma pontada de orgulho no olhar. Na grama se lia com letras imensas: Eu te amo, Mônica. Ela correu até ele, e disse:

- A certeza do meu amor é de outro.

Era isso, história terminada, ninguém discute com uma mulher com certeza no coração. Ele havia dito casar com ela ou morte, teria que ser a morte, esse é o tipo de determinação que ele tinha. Ele subiu em uma imensa ponte, prestes a se jogar no mar onde grandes peixes vivam. Uma garça imensa, com asas pretas, posou do seu lado e sussurrou no seu ouvido: ainda não é hora de desistir, garoto, construa mil casas em cinco continentes, volte e ela será sua.

Ele quebrou os dedos da mão, os dedos do pé, o pé, a mão, a coluna, o espírito, a alma, o coração, os rins; o corpo inteiro. Ele lutou contra gigantes, conheceu lhamas, aprendeu quatro línguas, fez mestrado, doutorado. Pediu as estrelas para vê-la todos os dias da sua viagem, pediu a lua, pediu ao sol, sempre o mesmo desejo, da mesma maneira: olhando e gritando para o céu, enquanto as casas construídas chegavam ao seu último tijolo. No último dia, do último tijolo, ele teve um sonho.

Uma garça sentou do lado da sua cama, ela tinha asas pretas. Havia chegado sua hora: ela está no topo da torre mais alta, do ponto mais alto onde as estrelas são mais bonitas. Ele correu para a sua cidade natal, e a encontrou no mesmo ponto que anos atrás ele havia pensado em se jogar. Correu para abraça - lá, enquanto ela dizia:

- Eu não estava certa.

A única vez pelo resto das suas vidas juntas que ela disse essa frase, que ficou estancada no coração dele. Ele nada dizia, se mantinha parado. Uma garça deixou um anel na sua mão, ele sorriu, enquanto colocava o anel dourado sobre os dedos da bela garota. Daquele dia em diante, assim como desde o dia que ele a conheceu, existiram dois tipos de mulheres: ela e todas as outras. E é assim que ele vai contar a história de como conheceu a mãe dos seus filhos. Afinal um homem não é nada mais do que as histórias que ele consegue contar, e vivem depois dele.

Comentários

  1. De uma ironia legal o nome dela ser Mônica, que significa solitária em grego. E esse deve ter sido um dos meus posts preferidos, quem sabe se pelo otimismo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Charles Bukowski.

Astronauta

Devolvida ao remetente