Janeiro de 1981.

O velho vestia a camiseta social azul, com calças sociais e sapatos de couro marrom. A mulher usava um vestido branco, com sapatos vermelhos. Eles se encontravam num meio do galpão abandonado, os olhares haviam sido trocados a noite inteira. Entre eles havia algo, nem que fosse a mera tensão de um besta olhar. Ele havia a puxado para esse galpão, ela havia aceitado. Belo começou a conversa, nem um pouco embaraçado:

- Você não tem tirado os olhos de mim à noite inteira.

- Você é um cafajeste, só fico surpreso com quantas mulheres dança.

- Mas e se meu coração for só seu?

- Como posso acreditar em você? Dizem que você beija todas as garotas.

- Pode acreditar assim simples e direto.

- Mas você é um cafajeste.

- E você tem belos olhos. Não vejo qual é o problema, Rosa.

- Belo, claro que problema. Como confiar em alguém?

- Você está pensando demais, você só confia e espera que tudo dê certo.

- Vamos dançar?- Ele continuou.

Ele pegou a mão dela, enquanto a carregava sobre um balcão vazio. A câmera disparava na mão de um dos seus filhos, o mais velho, Manoel. A dança era lenta, ele conduzia. Algo daquele momento ficou até nos seus netos, onde corre um romantismo desgastado pela vida, mas que lembram no sangue os momentos de felicidade naquele balcão, onde a primeira dança de 50 anos de casamento foi feita, onde o primeiro amor foi forjado na alma daquela família. O velho bonachão que eu vim a conhecer como avô, junto com a velha caridosa que eu vim a conhecer como avó, Como poderia ter sido tão claro? Duas pessoas num balcão dançando, talvez seja isso que todos estejam procurando: um pouco de paz, num lugar onde o barulho e a dor são superestimados, onde o amor é deixado de lado como clichê e fora de moda. Eu prefiro ver uma foto de mais de trinta anos, com olhos claros e bêbados, desejosos de algum sentido no frio da chuva, mas vocês já sabem disso, aquele que por tudo que viu e por tudo que vai ver, está ficando cego. Cego de amor.


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