Abril de 2010.

O ônibus traçava a linha da rua, entre prédios imensos; um enorme prédio retangular cinza e outro enorme prédio branco. O velho olhava da janela da sua bancada, calmo, pensava em quantas vezes ele e as mulheres tinham feito o mesmo caminho do ônibus. Eles nunca andaram em uma linha reta, faziam curvas entre si por uma vida inteira sabendo que a única parada consistia no caminho que os unia. Da sua janela, ele observava os passageiros: namorados, solteiros, malucos, lúcidos, velhos, novos, humanos. Ele sempre se perguntava sobre como os caminhos acabavam se cruzando, num ritmo totalmente aleatório; quase sem propósito. Sorria, por acreditar na força do acaso.

Dentro do ônibus metade branca metade verde, tinha aproximadamente trintas pessoas. O suor coletivo era desesperador, assim como a falta de educação onde velinhas e grávidas dificilmente conseguiam sentar. Na traseira do ônibus tinha dois adolescentes em pé, que nunca haviam se conhecido, a única união entre eles eram o fato que os dois haviam cedido seus lugares a um casal de velhos que feliz argumentou:

- Pessoas tão boas podiam se conhecer.

- Não sei se sou boa. - Disse com o que de drama a adolescente esquelética com roupa de um cantor de blues dos anos 80.

- Que isso, falo que você é pelo menos simpática. - Disse com o que de sorriso.

- Meu nome é Helena.

- Meu nome é Heitor.

- Helena, você sabia que você causou guerras?

- Guerras?

- A guerra de tróia, tudo porque ele queria a mulher mais bonita do reino.

- Como a gente chegou de um oi para a guerra de tróia?

- Seu nome, Helena.

- Você é estranho. – Falou enquanto dava uma pequena tapa amigável no seu braço.

- Você é normal, dá um bom casal.

Os dois se calaram e desceram na mesma parada de ônibus, um atrás do outro, quase entrelaçados na dança da avenida principal. O adolescente rapidamente contou que ia visitar seu avô, mas que se ela quisesse o ver só precisava passar nesse apartamento aos domingos: ele estaria olhando do topo da janela cinza.

Heitor bateu na porta por minutos, até que o avô atendeu. Era um velho pequeno, calmo, a serenidade era algo que saltava da fotografia. Ele sorriu enquanto servia um chá japonês ao neto:

- Quem era aquela garota?

- Helena.

- De Tróia?

- Não sei, mas eu perguntei de qualquer jeito.

- Você sabe que essa cantada nunca vai colar?

- Meu avô dizendo isso, eu deveria realmente desistir.

- O negócio da janela também?

- Tudo bem, admito que tenho um fascínio pela idéia da janela.

- Porque esperar é tão bonito?

- Porque vivemos uma procura eterna.

- Ao que?

- A caixa de pandora, a esperança é um dos males; você lembra, certo?

- Sim.

- Então, a esperança é um mal, mas ainda não consigo me soltar da espera da janela.

- Acho que não tenho mais nada a te ensinar de história grega, já te estragou demais.

Os dois encostaram os corpos na bancada da janela branca, enquanto tomavam um chá, pensando na beleza do acaso; do momento perdido entre as falas; do intervalo quebrado entre as vidas; quando tudo que pode ser feito é a espera na frente de uma janela.

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