O homem acordou febril dentro de seu quarto.



O homem acordou febril dentro do seu quarto, os próprios objetos o oprimiam. Ele via suas centenas de livros, e eles pareciam dizer algo para ele. Seus olhos estavam extremamente vermelhos. Sua altura era média, tinha cabelos e olhos negros. Seu rosto estava extremamente sério, sentou na cadeira e resolveu começar a escrever uma carta:

Cara Eros.

Eu tava pensando com os meus botões, sim, as pessoas ainda usam essa expressão e resolvi escrever essa carta. Eu precisava provar que você tava errada, que não havia nenhum ódio no meu coração.

Você nunca entendeu de verdade, eu te amei porque você foi a primeira a ver algo bom em mim que eu não sabia. Eu melhorei tudo que você viu, eu li centenas de livros, só porque queria ter a certeza que descobriria sobre o amor. Eu ajudei as pessoas, de verdade, eu me esforcei de verdade. Eu queria muito que você tivesse visto, você teria tido um prazer diferente com aquilo que me tornei. Pensar que eu poderia te odiar chega a ser realmente engraçado, e eu vou explicar a razão. Eu não consigo odiar alguém que eu amei, eu não consigo nem deixar de amar alguém que um dia amei alguma coisa minha vai embora. Meu coração veio com defeito, sem direito de devolução, ele nunca conseguiu odiar por mais de dez minutos. Ele não tem a capacidade de segurar dores, ele veio sem endereço de devolução. Mais que isso, ele acredita no poder do auto-sacrificio. Eu sei Nieztche e Bukowski tentaram destruir isso com toda a força deles, mas eles não conseguiram ganhar de Goethe, nem de Shakaspeare. A maior forma de amor é querer a outra pessoa feliz, por mais que isso possa te doer inteiramente. Não posso estressar o suficiente essa dor: parece que cada parte do seu corpo é dilacerada quando sua identidade exterior é cortada com a felicidade alheia. Mesmo assim, você vive, sobrevive sabendo que a outra pessoa está feliz. O defeito do meu coração é eternamente ter a síndrome de herói perdido no tempo, aquele que está disposto a perder em si mesmo para que outros possam se libertar de si mesmo e encontrarem felicidade. Não é sarcástico como você reconhece o que falei, antes mesmo que eu soubesse.

Ele olhou para a folha de papel, sem conseguir entender direito o que tinha escrito: se era ele ali, ou sua própria alma. Deitou sobre a escrivaninha, enquanto o cigarro e o café esfriavam. Dormiu por horas a fio naquele ambiente escuro, numa posição extremamente desconfortável. Acordou como num pulo, e vestiu seu terno imenso, foi ao correio e postou a carta. O endereço checava numa casa grande onde uma mulher loira com longos cabelos desgrenhados se desesperava pela vida. Ela leu a carta, e em alguns segundos, o mundo ficou mais claro. O sol bateu na janela do jardim, onde os gritos do marido não eram ouvidos, e as crianças não brincavam. O que se escutava era a claridade de um amor perdido, batido no som único das vias da vida, quando as coisas pediam para fazer sentido.

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