Gelo.


No começo do mundo existiam dois lugares onde existia vida humana: um lugar quente e outro gelado. O lugar quente tinha nascido da barriga da terra, era composto por vulcões, terras duras, fogos e monstros que lembravam dinossauros. O pior de tudo era que qualquer tipo de agricultura ou criação era duramente castigado pelo clima que atingia níveis alucinantes para qualquer ser vivo, mas, mesmo assim os humanos conseguiram sobreviver nessa terra árida. Dentre esses homens, existia um garoto nos seus 12 anos de idade. Eric era seu nome, sua alma era realmente distante dos outros seres humanos, podia ser percebido a grandes distâncias. Ele tinha um imenso coração, talhado pelo fogo do seu continente. Na sua mais terna infância tinha sido abandonado pela família, resignado a viver junto aos monstros que se assemelhavam a dinossauros, por alguma razão ele sempre conseguiu sobreviver. Nada saia da sua boca, palavras lhe eram proibidas segundo seu código pessoal. Ele andava pelo mundo sem nenhuma direção especifica, tentando fugir da lembrança dos seus pais e encontrar outro lugar.

Eric caminhou pelas florestas de vulcões, num emaranhado de monstros que haviam sido seus únicos amigos desde a infância. Aprendeu com eles a inutilidade das palavras, que carregavam consigo uma falta de entendimento mútuo, uma perdição da individualidade. Os animais lhe ensinaram que palavras deveriam ter o uso calculado, uma aritmética própria cravada pela simplicidade. Eric chegou à fronteira dos dois continentes com facilidade, e no seu meio encontrou uma pequena cabana circundada de um rio. Ele correu até o rio, quando sentiu uma presença ameaçadora. O medo o consumiu inteiro, do seu coração até a cabeça, tudo parecia perdido num instante. Um velho, vestido com uma bata azul, desceu a escada e olhou diretamente nos olhos azuis de Eric. A força do velho não chegava perto dos músculos do jovem Eric, mas algo naquele encontro marcava uma clara diferença de forças.

O velho vivia numa cabana simples repleta de fotos de uma mulher e um homem, provavelmente ele e sua esposa jovem. O velho permitiu que Eric se acomodasse na sua cabana pelo tempo que quisesse. Eric, nem o velho falavam qualquer tipo de palavra. Os dois tinham a mesma altura, por volta dos 2 metros, e era uma visão assustadora. Eric ajudou o velho a transportar seus medicamentos pelo mundo do gelo. Nem com as tarefas, os dois trocavam qualquer tipo de comunicação, tudo era feito por meio de anotações no grande quadro negro no meio da sala. Eric dormia numa salinha escura, no fundo da casa repleta de troféus e fotos de um pequeno garoto. Imaginou que fosse o filho do velho, provavelmente morto ou distante de casa. A vida se passou rapidamente naquele meio do gelo e o fogo, naquele intervalo dos dois mundos, até o dia que Eric acordou no horário do velho e o seguiu nos movimentos de artes marciais. Sem dizer nada, os dois viraram mestre e aluno, no silencio de duas almas solitárias, uma amizade surgiu.

O mundo de gelo era escuro, frio e tinha poucos vilarejos. Sua principal fonte era uma grande cidade no coração do gelo, que tinha na sua estrutura feudal o sentido de existência. A nova princesa acabará de ser escolhida, e todos diziam que era a mais bela de todas as terras, mas que seu coração era mais resistente que o gelo. Eric acordou cedo, e fez sua série de movimentos, e recebeu sua entrega ao castelo da cidade de gelo. Era uma grande caixa de presente para a princesa daquele castelo. Eric andou pelo gelo rodeado de lobos de todos os tamanhos, que não o temiam, nem o incomodavam. A visão em si era extraordinária: os lobos em torno de alguém de 2 metros enquanto a aurora boreal cobriu o céu. Eric sem medo nenhum entrou no castelo e foi encaminhado até o jardim. O jardim continha rosa brancas, que surpreendentemente cresciam no meio do pátio. A princesa estava no meio do jardim com um macacão branco, que escondia suas marcas do sol. Eric correu até sua frente como um idiota:

- Eu tenho sua entrega.

-Eu vi.

-Eu te amo.

-O que você disse?

- Eu te amo.

- Guardas, o prendam.

Na noticia daquela ordem, vários homem começaram a atacá-lo com espadas e escudos. Ele não ligava de ser morto, desde que a princesa entendesse o ponto que ele queria dizer: amor puro, idiota, e sem orgulho. O impressionante era que ninguém conseguia acertá-lo, e por minutos a luta continuou assim, até que ele decidisse fugir até a cabana do velho. Quando ele chegou, o velho lhe olhou de frente:

- Você foi mordido pela desgraça.

- Você não vai responder nada? Vai ficar dessa maneira? Perdido nos seus próprios pensamentos idiotas?

- Eu vou lhe explicar tudo que sei garoto. Eu passei 50 anos da minha vida amando uma única mulher, e foi toda a alegria e desespero que eu tive numa vida, mas você não pode ter o mesmo, ela é a princesa.

- Ela é a princesa, coloca na sua cabeça que amá-la só vai matá-lo. Numa velocidade impressionante.

- Nenhuma palavra ainda? Deixa eu te explicar, a próxima vez que você for até o castelo, o noivo da princesa te matará e nem as artes marciais vão te salvar. Você vai morrer.

- Morrer, você entendeu? Finito, bater as botas, dançar com o outro lado, dormir o grande sono. Tudo vai acabar. Eu perdi meu filho para aquela princesa sem coração, não aceito perder outro.

- O que aconteceu?- Disse finalmente Eric, suas primeiras palavras ao velho.

- Ele lhe fez mil juras de amor, e ela o beijou por horas. Assim que o noivo dela descobriu, cortou o pescoço do meu pobre filho, levando com ele, todas as minhas esperanças.

- Ela faz isso, se recusa a sentir qualquer coisa, se anestesia emocionalmente, achando que isso vai ajudar alguém, qualquer pessoa.

- Ela não é assim. - Disse Eric, com uma voz melodiosa.

- Ela não te ama, você tem que entender isso, ela chamou os guardas pelo amor de deus. Ela não te quer, não entende nada sobre você.

- Você nunca poderá ter o que eu tive com a minha mulher com ela. Eu senti a morte dela em todo cômodo da casa, em cada parte de mim como se tivessem arrancado minha alma e tivessem se esquecido de recolocar. Nada tinha sentido, até que um menino com seus olhos apareceu na minha porta, e eu pude tentar reviver. Não vá até lá, eu lhe imploro que tudo que te espera é desespero e morte. É isso que você quer? Morrer por algo tão idiota quanto amor? Você tem toda uma vida pela frente, se matar não vai mudar nada.

Eric ignorou qualquer palavra do velho, apesar de que no fundo elas ficaram fundas no seu corpo. Ele recebeu um bilhete da princesa, para se encontrar com ele no vulcão da sua terra natal. Ele caminhou corajosamente até um vulcão, quando viu um batalhão inteiro impedindo sua passagem, ele derrubou cada um dos cem soldados sem se importar com sangramentos que assolavam seu corpo. Ela esperava no topo do vulcão:

- Você é tolo o suficiente para vir até aqui, seu idiota.

- Eu te amo- As únicas palavras que pareciam sair daquele grande idiota.

- Não posso permitir que você continue falando isso, tem me enlouquecido dia e noite, o fato de não te querer.

- Eu te amo.

- Eu vou te matar, você sabia disso?

- Eu te amo.

- Fique na minha frente. - Ela disse, enquanto segurava-o na frente do vulcão.

- Me beije. - Ele a beijou silenciosamente, enquanto o céu trovoava e o vulcão borbulhava com o calor.

- Você faz isso, porque odeia estar vulnerável. – Ele disse, enquanto caia fundo no vulcão, e era dissolvido ao fogo que sempre pertenceu.

No final, o velho chorou sua morte, na frente daquele vulcão, reclamando que o fogo e o gelo tinham que ser tão oposto, que a vida não podia misturar-se num grande colorido de temperaturas. Porque as pessoas não se entendiam, não tentavam se enxergar, Nesse momento, como acaso do destino, um cometa caiu na terra, unindo o fogo e o gelo no mundo em que vivemos hoje. Nunca se saberá se foi realmente assim que surgiu nosso mundo, mas o que se pode dizer é que as coisas ficaram misturadas, e não se sabe onde é gelo ou fogo.

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