Bonsai.


Quando eu era mais jovem, eu ganhei um bonsai de aniversário. Nunca consegui entender o que o velho que me vendeu quis dizer quando me falou que o bonsai me faria entender mais sobre o mundo do que eu imaginava. O bonsai parecia andar no ritmo nas minhas emoções.

No meu egoísmo juvenil, queria tudo exatamente na minha medida, ignorava totalmente o resto das condições e as pessoas ao meu redor. Queria amar como se as pessoas amadas fossem um objeto que nunca estivesse ao meu alcance, agi como uma criança quando queria um brinquedo egoisticamente só pelo motivo de querer. Nessa época, meu bonsai morreu. Folha por folha, ele foi se dissolvendo, até que o vento não deixou nada a não ser um esqueleto. No mesmo período, agi errado com alguém que gostava muito, pelo motivo de não querer entender nada que não fosse meu próprio umbigo. Meu bonsai parece que tinha entendido as minhas fraquezas, e se dissolvido antes mesmo que eu tivesse entendido qualquer coisa. Eu me esforçava em excesso, sem entender a virtude de não se mover e falar com exatidão.

Num futuro não muito distante dessa época, eu consegui uma namorada. Ao mesmo tempo, ganhei outro bonsai de aniversário. Eu achei que finalmente tinha entendido: o bonsai era meu treinamento, para que eu pudesse cuidar da minha namorada. Esforcei-me ao máximo para agradá-la em todos os sentidos, sem perceber que ia me perdendo aos poucos enquanto cedia escandalosamente. Não agüentava ceder partes inteiras de mim mesmo, porque ela não conseguia aceitar o que eu era. O bonsai silenciosamente começava a quebrar, tendo suas flores caindo num chão de chuvas de verão. Eu olhava para ele, e não entendia porque não conseguia cuidar dele como se fosse minha namorada. Eu finalmente entendi o que o velho quis dizer, o bonsai representava a mim mesmo. Não havia dúvidas, que minha namorada não fazia sentido para mim mesmo, que era uma insistência de alguém sem experiência. O bonsai não daria flores, até que eu aprendesse a importância da falta de ação; a importância de se calar e acabar com tudo na hora certa. Terminei o namoro, e na mesma época, o bonsai começou a crescer pelas suas raízes escuras, na medida em que o sol crescia pela janela do meu quarto.

Por último, mas não menos relevante: outro dia me peguei me esforçando demais, tentando ignorar a falta de ação como um dos princípios da vida. Os orientais tinham entendido antes do resto do mundo, que não se esforçar era uma das coisas que mais daria sucesso nas relações humanas. Eu observei a chuva, enquanto ela caia escorrendo nos prédios. A chuva não caia segundo a sua própria vontade, ela seguia os andamentos do universo, sem cair no seu egoísmo. Ela agia na tranqüilidade do silencio, tendo no seu centro um ciclo, que caiu na falta de esforço, na continuidade de si mesmo. Eu finalmente percebi que eu teria que aceitar o fato que ficar parado e quieto eram partes intrínsecas de conseguir as coisas que você quer, que parar de olhar para o seu umbigo e ficar parado trariam mais frutos que gritar e espernear como um garoto de dez anos. O que eu aprendi, devo ao meu bonsai e suas estações, que me ensinaram que a inação constrói o equilíbrio necessário para se entender.

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