Possibilidades.


O Homem tinha tudo para ser comum: roupas, tamanho, e o próprio rosto. Tinha média altura, cabelos e olhos pretos, pele pálida, o tipo de pessoa que passa atravessada por você na rua. Um trabalhador comum no meio da multidão, mas seu amor por livros de certa forma o mudara, é como se alguma parte dos livros tivesse sido mantida no seu próprio cerne.

Havia outro aspecto curioso, quase caricato do homem que olhamos agora, ele era um romântico, e não importava o quão forte vinha à violência da vida, ele ainda mantinha algo como um segredo dentro de si, talvez os livros o tenham estragado. Sua imaginação era extremamente fértil, mundos de dragões e cavaleiros o assombravam ao longo do dia na sua cadeira padronizada.

Ele se apaixonou no momento em que respirou perto, um segredo que nunca te contam na vida é que o tempo para assim que você vê a mulher da sua vida, mas ao mesmo tempo, ele cria uma vingança com você. Toda vez que você depender dele para encontrá-la, o tempo vai brigar contra você. Foi assim que Orfeu nunca conseguia a encontrar, por mais que se esforçasse. Ele não sabia nem ao menos seu nome, só sabia o banco em que a tinha visto, ele tinha até decorado a imagem das nuvens por detrás do banco acompanhadas por fortes trovões. Naquele momento, várias possibilidades estavam abertas.

Orfeu talvez tivesse arranjado uma desculpa qualquer: um anúncio com o rosto dela foi colado próximo ao seu carro. Ele começou uma conversa, mas o problema é que ele não era alto, forte, bonito, charmoso, muito inteligente, ele simplesmente era Orfeu. A conversa teria se dado mais ou menos assim:

- Você é realmente bonita, estou perdidamente apaixonado por você, que tal sairmos sábado à noite?

Felizmente, Orfeu não era tão tolo assim, mas o que ele pode perceber é que rapidamente abutres se aproximavam dela. Orfeu os chamava de abutre pelo simples fato deles não quererem amor, e sim partes da pessoa, algo próximo de um abutre na caça de uma carcaça. Ele queria poder ter gritado o mais forte possível, e soltado um alerta, mas ela não o conhecia. Desesperado, ele pediu conselhos a um bom amigo que o respondeu:

- Você tem que largar todos seus romantismo tirado de Shakespeare, Goethe, e todos os outros nomes que você tanto adora, e usar um humor cínico. Seja uma mistura perfeita do 007 com o Don Juan, não tem erro.

- Você tem certeza que isso é uma boa idéia? Eu nunca gostei de abutres. - Orfeu respondeu desanimado.

- Você só tem que agir como um, jogue conforme as regras do jogo.

- Eu sempre fiz confusão com as regras.

Ele poderia ter se aproximado devagar, quase com passos de bebê, e agido com o humor cínico. Ele teria incorporado esse humor cínico, e como milagre ele havia conquistado a mulher. O imenso problema é que ele descobriu que para manter essa pose, teria que ser um homem de várias mulheres, e só essa idéia o dava dor de cabeça. Algum homem ainda mantém um coração tão tolo. E não havia jeito de conciliar Orfeu com algum humor cínico charmoso, simplesmente não fazia sentido.

Orfeu poderia depois de semanas reunindo coragem, ter finalmente conversado com ela. A conversa teria saído dessa maneira:

- Oi, eu te vi aqui, e tive que falar com você. Eu sei que não faz muito sentido, mas oi.

- Tudo bem, eu estava me sentindo um pouco solitária- Até Orfeu merece um descanso momentâneo.

- O que você fez no final de semana?

- Eu saí com o seu amigo de finanças, o nome dele é Valério.

- Não o conheço tão bem, mas me falam que ele é uma ótima pessoa. – Naquele mesmo dia, Valério tinha vindo com seu papo humanóide que precisa de homens para compartilhar o quão bom ele era, e como tinha sido genial no final de semana, Orfeu silenciosamente o desprezava.

- Eu aluguei alguns filmes bons, você gostaria de ver comigo?- Ela disse quase com vergonha.

-Claro- Ele disse com um belo sorriso no rosto.

Naquela noite, os dois teriam assistido aos mais belos filmes. Ambos tinham visto os filmes daquela noite pelo menos dez vezes, mas os dois nunca se cansavam de filmes italianos. Orfeu teria ficado feliz em poder ficar perto de sua amada, enquanto ela gostaria de ter um amiguinho. O grande problema é que o romance acaba aqui, Orfeu seria para sempre o amiguinho. Ele não faria nenhum movimento pela timidez somada a saber que ela estava de compromisso com seu “amigo” Valério. Romances têm o problema de não seguir conforme o planejado. Eu não poderia dizer que com uma noite de filmes, ela se apaixonaria perdidamente por ele.

Ela era magra, tinha olhos verdes escuro, uma esmeralda triturada, tinha média estatura, cabelos até os ombros, e ninguém duvidaria da sua beleza. Orfeu com certeza odiava quando ele se apaixonava por uma mulher tão bonita, mulheres bonitas deveriam ser deixadas para homens sem imaginação. Seu nome era Nicolleta, mas as pessoas costumavam a chamar de Nico.

Orfeu no dia de falar com ela, talvez tivesse amarelado, e combinado uma sessão de cerveja na casa do seu amigo. No apartamento se encontravam três homens: O alto, o médio, e o baixo. Os três conversavam animadamente:

- Você pensa demais, alto. – Disse o baixo.

- Ele ama até bem, mas tem que saber que ele tem que passar por fases, antes de poder ser tão aberto- Disse o médio.

-Diz o homem que se declarou apaixonadamente. Eu sinto que toda vez Vinicius de Moraes está no meu ombro, prestes a me dar um conselho. – Os outros dias riram muito alto.

- Vinicius estaria do seu lado prestes a te dar um tabefe, segurando um copo de uísque, com a mão em torno da cintura de uma bela morena- Disse o médio.
- Você poderia ligar para ela- Os dois disseram simultaneamente.

- Eu sei onde ela vai estar hoje à noite, eu vou atrás, hoje eu vou mudar minha sorte, porque quando a liberdade explode no coração de um homem, os deuses não podem interferir- Disse o alto enquanto levantava cambaleando do efeito da cerveja para encontrá-la.

Ele poderia ter pegado seu carro, e ido até o show frente a um museu antigo coberto de grandes pinturas. Ele poderia ter chegado até a porta, e visto a Nico. De novo, nos encontramos num impasse. Ela estaria acompanhada, sendo beijada longamente por Valério, e agora temos nosso Herói de coração quebrado frente a um museu antigo, ainda debaixo de uma chuva sem igual.

Se ao menos Orfeu pudesse ter sido convincente, e levado alguns filmes de romance para a casa de Nico. Quando todos os filmes tivessem acabado, ele tivesse tido a coragem de dizer energeticamente, quase sem respirar, uma declaração:

Nico, nada importa mais desde que te vi naquele banco da praça. Eu entendo que não sou charmoso ou insanamente bonito, eu sou o Orfeu. Eu realmente parei de me importar com o que os outros pensam, gostaria que você pudesse enxergar além da minha aparência comum, quase sem graça. Eu sei que poderia ter amar, da melhor maneira que fui desenhado para fazer isso. Toda palavra que falo parece mais besta que a outra, mas escute por um momento, por favor. A história do Orfeu é sobre um homem que amou desesperadamente, e foi até o inferno pedir aos pés de Hades por uma chance de reviver seu amor. Hades cedeu com uma condição: de que ele nunca olhasse para trás. Eu nunca olharia para trás, nem por um momento.

Eles finalmente se beijariam, e a história poderia terminar com um romance. Talvez, seja assim, que a história tenha terminado. Eu fiquei com uma curiosidade imensa: Orfeu, mesmo contra todas as possibilidades, Você não desistiu? Porque não?

- Não me foi dado essa possibilidade, nem por um segundo sequer.

A história não tenho certeza como acabou, mas eu colocaria meu dinheiro em um pouco de romance.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Charles Bukowski.

Astronauta

A triste e curta vida de Ernesto