Chamada em espera.


Regina acordava todo dia da mesma maneira: tristemente, colocando o longo vestido, ajustando o longo cabelo, e pensando na sua solidão. Ela esperava que o telefone tocasse, esperava de uma maneira desesperadora. Ela se sentia totalmente perdida como se ela fosse uma chave que não tivesse sido feita para ser encaixada em qualquer fechadura, por mais que a comparação pareça extremamente boba, também é extremamente real. Ela tinha acabado de fazer 21 anos, e comemorar sozinha, soprando as velas e comprando um único chapéu de aniversário de papel. Ela tinha acabado de se mudar, e não conhecia ninguém, e sua timidez piorava as coisas.

Noel tocava música o dia inteiro, e nunca estava sem um fone de ouvido ao redor do pescoço. Ele tocava violino, guitarra, violão, música era sua verdadeira e única paixão. Ele era baixo, nunca fazia a barba, nem cortava o cabelo, e usava muitas roupas quadriculadas. Ele vivia sua vida de uma maneira simples, entre a faculdade de música e os amigos. Noel ia de elevador, por não gostar do esforço das escadas. Ele naquela bela manhã de sábado esqueceu-se de amarrar seus cadarços, ele estava triste de ter acabado de terminar um relacionamento, e não tinha dormido nem um pouco na noite passada. Regina rapidamente disse:

- Porque você não amarra os cadarços? Você pode cair.

- Eu tenho preguiça. Não tive uma noite boa.

Regina com seu longo vestido verde, e belo cabelo preto, se abaixou até o sapato e o amarrou com perfeição. Noel ao mesmo tempo abaixou e amarrou o outro pé do sapato. Por um momento enquanto se olhavam no chão do elevador, ambos ficaram em silêncio. Eles se levantaram, e o momento acabou. Noel saiu para o seu show, enquanto Regina ainda olhava pasmada com tudo no elevador. Noel antes de sair, disse secamente: obrigado.

Regina fazia doces com perfeição, e os deixava na porta do bloco, com esperança que alegrasse o dia de alguém. Regina estava descendo no elevador com os doces, quando o elevador parou precisamente no andar de Noel. Noel com sua bermuda quadriculada, camisa do Pink Floyd, e os fones olhou disfarçadamente para os doces, com uma imensa vontade de poder comê-los. Regina percebeu o que ele queria, e ofereceu:

- Você pode parar de olhar os doces, e pegar dois, que tal?

Noel muito constrangido pegou dois bombons que parecia semelhantes a sonhos de valsa, e agradeceu com um olhar. O resto do tempo no elevador nenhum dos dois abriu a boca. Noel estava comendo, então para ser sincero, ele só não queria ser mal educado e falar com a boca cheia. Regina já estava em outro lugar, pensando na camiseta, que tinha a imagem do seu cd favorito.

O tempo passou, assim como a época de sol constante, e a chuva chegou lentamente tocando as árvores. Regina não tinha mais tido a sorte de ficar no mesmo elevador de Noel, ela chegava até a tentar planejar os horários. O grande problema é que Noel não chegava ao mesmo horário, ele tinha shows em vários lugares, não saia e não chegava ao mesmo horário.

Ela parou no andar de Noel. A empregada tinha acabado de deixar a chave debaixo de uma planta na frente de Regina. Ela ouviu o telefone tocar, e resolveu pegar a chave e entrar. Ela atendeu ao telefone, e começou a conversar. Ela se sentia feliz de poder estar ali, de alguma maneira aquilo diminuía um pouco a voz da solidão. Ela se sentou no sofá de couro preto, e atendeu ao telefone simples, branco, e que não parava de tocar um instante do dia. A irmã, os shows, a banda, os amigos, as namoradas, todo minuto tinha alguém novo telefonando para Noel. Na frente de Regina tinha uma partitura maior que tamanho normal com o nome: fita amarela. Nessa mesma partitura, havia uma assinatura como se o próprio autor tivesse deixado sua marca, para comprovar que ele existiu.

Noel chegou de um show de música popular, e Regina se encontrava sentada no seu sofá de couro. Ele disse rispidamente:

- O que é isso?

- Essa sou eu falando no seu telefone.

Noel aumentou o volume do seu mp3 e a conduziu até fora de sua casa, Regina saiu com um sorriso estampado no rosto. Ela finalmente tinha descoberto como vê-lo todos os dias. No dia seguinte, Regina depois de ter voltado da faculdade acampou de novo no sofá de Noel. A irmã de Noel, Maria, tinha ligado para discutir seu relacionamento aberto. Noel sempre cortava o assunto e tentava voltar para a música. Maria ficou feliz em finalmente encontrar uma mulher que a compreendesse, e Regina por sua vez adorou conhecer a família de Noel.

Noel chegou ao seu apartamento, e sua banda acabava de ter uma imensa briga, sua paciência estava no limite. Ele viu Regina com seu longo vestido quadriculado sobre seu sofá, e simplesmente perdeu a paciência:

- De novo não!

- Isso que eu to dizendo, de novo não, Maria.

- Eu tenho medo de nunca mais ver meu sofá sem uma louca em cima.

- Como você gostaria do seu sofá?

- Comigo em cima.

- Então vai continuar com um louco em cima de qualquer jeito.

Regina entregou o telefone, e Noel começou a falar com a sua irmã. Ele rapidamente ficou sem graça, e disse “A Maria quer você de volta”. Noel acabou caindo na rotina com Regina, a companhia virou uma solução para a sua vida corrida. Eles viam filmes juntos, principalmente de terror e aventura que eram os preferidos de Noel, de vez em quando Regina encaixava um filme. Os filmes dela eram os italianos, belos filmes que normalmente tocavam num ponto da beleza humana que deixava Noel sem palavras. Ela fazia brigadeiro as segundas, ele tocava samba as quartas, ela abraçava as sextas, ele afastava aos domingos. Eles viraram um quase-casal.

Regina não agüentava mais aquele status de quase-casal e enquanto ele escutava música alta, ela gritou:

- Eu torço pro Camarões na copa do mundo! Eu como pão com ketchup! Eu tenho peixes dourados! Eu gosto de xadrez japonês! E eu ainda não entendi porque você não me beijou!

- O quê?- Ele disse acordando de um transe.

- Nada, o que tem de tão interessante nesse seu fone de ouvido?

- Inspiração. – Ele disse enquanto entregava os fones para ela.

- Isso já foi feito, o resto do mundo é uma inspiração muito melhor. – Falou confiantemente enquanto devolvia os fones.

O telefone tocou de novo, Regina atendeu e como era para Noel passou o telefone branco e simples para ele. Ele atendeu “Quem atendeu? Ela não é ninguém, é só uma pessoa que atende meu telefone”. Regina com olhos cheios de lagrimas partiu antes que Noel percebesse. Ela correu para a rua, sem saber para onde ia, até que se encontrou na frente de uma bela loja de roupas chamada “Animus”. Ela entrou e começou a dizer claramente para a atendente magra, loira, e extremamente simpática o que queria:

- Eu quero a roupa de alguém.

- Nós não vendemos roupas usadas, desculpa minha querida.

- Você entendeu errado, eu quero uma roupa que alguém usaria, diferente do ninguém que eu sou agora.

- Quem te disse que você é ninguém?

- Alguém.

Regina voltou para a casa, e abriu sua porta pronta para se confrontar de novo com aquela solidão do dia-a-dia. Noel estava no centro da sala, sem os fones de ouvido, cercado por dezenas de telefones de cores, tamanhos, formas diferentes. Todos os telefones tocavam como um e Noel disse:

- Telefone para você. – Disse com um meio-sorriso aberto.

- Você pode dizer para eles que eu estou ocupada?

No meio daquela sala com os telefones tocando, os dois como em sincronia de movimento, se aproximaram, e se beijaram sem mais demora.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Charles Bukowski.

Astronauta

A triste e curta vida de Ernesto