Sonho.


O menino estava extremamente nervoso, o engraçado é que até seu passo era nervoso. Ele andava pulando as linhas como se elas fossem o perigo a ser evitado. Ele conseguia facilmente, ele chegou a pé com facilidade a uma grande casa branca com janelas azuis. Antes de entrar, ele começou a rodopiar de maneira ridícula. Ele sempre fazia isso quando queria solucionar algo, ele jurava que ficar tonto solucionava cada problema.

Ele usou o interfone, e sua voz parecia fraca, quase feminina. A menina chegou à frente da porta. O barulho do churrasco da casa vinha com força, era uma mistura de violões e cavaquinhos. A menina andou pelo corredor cheio de rosas de maneira leve, despreocupada. O menino chegaria ao desespero se ela não tivesse aberto a porta e lhe dado um belo abraço. Ela tinha longos cabelos negros, grandes olhos, e batia mais ou menos no peito do garoto, seu nome era Corrine. O garoto se chamava Gregório, tinha olhos e cabelos castanhos. Gregório era o cara desajeitado que você observa em todo lugar, o tipo de cara que você não quer que carregue uma bandeja cheia de comida. Corrine era a garota que você gostaria para tudo, mas principalmente sua originalidade chamava atenção, ela mesma tinha cultivado as rosas vermelhas e brancas que estavam na entrada.

Ela o puxou com força e ambos entraram na casa. A casa se encontrava completamente vazia, enquanto o churrasco acontecia numa distância segura da casa. Ela rapidamente com seu belo vestido branco, passando pelo ar, o levou até o quarto. O quarto era extremamente colorido, com mais coisas do que o espaço permitia. Ele até agora se encontrava mudo, a própria situação parecia meio ilógica nos seus olhos. Gregório rapidamente encontrou um violão jogado no chão que tinha dentro o nome: trovador. Gregório começou a tocar delicadamente Cartola, legião urbana, Beatles como se não tivesse mais ninguém na sala.

“Trovadores cantavam músicas de amor na época medieval, personagens bem simpáticos”- Disse com um sorriso sem graça.

“Eles realmente cantavam músicas de paixão”- Ela disse com olhos marcados de antecipação.

“Eu sempre sonhei em fazer uma serenata, eu sinto que os amigos que faço, ás vezes faço pensando quais os instrumentos que eles tocam. Eu já tenho uma guitarra, dois violões, um baixo, uma bateria, três vocais, um trompete, e três GO GO girls”

“O que são GO GO girls?”- Ela perguntou curiosa.

“Não sei o que elas são de verdade, mas para mim são minhas amigas que vão ficar dançando por trás das músicas de maneira ridícula”- Ele disse isso já rindo.

“Qual seria a primeira música da serenata”- Disse ela com um olhar interessado.

Ele pegou o violão, e apoiou contra o joelho direito, e começou a tocar as rosas não falam com uma tremenda facilidade. Ele não tinha decorado aquela música, mas sim guardado no seu coração. Gregório tocava de olhos fechados, enquanto ela se apoiava perto dele. Ele conseguia quase sentir sua respiração enquanto as notas ressoavam do violão.

A música durou alguns minutos, então ela o levou para um grande corredor, onde vários filmes estavam empilhados, ela disse que já voltava enquanto ele escolhia o filme. Ele observava todos os filmes com um sorriso, ele já tinha assistido todos, mas não conseguia escolher um por mais que quisesse. Ele decidiu não se arriscar, o filme seria Casablanca, nada como uma tarde assistindo Casablanca para animar qualquer pessoa.

Ele passou alguns minutos sozinhos, olhando para o teto, e esperando que alguém desse alguma certeza para ele. Gregório sorria, havia imaginado aquele momento repetidas vezes. Ela voltou trazendo uma grande travessa de brigadeiro feito na hora. A cena era muito engraçada para Gregório afinal a vasilha era muito grande comparada a aquela pequena menina. Ele começou a rir, e conseguia deixar Corrine nervosa por alguns minutos.

“Eu adoro brigadeiro”- Ele disse de maneira sem graça, e extremamente adolescente, o que ele pensava que era uma vergonha considerando seu passado, presente e futuro. Ele começava a se assemelhar a um garoto de 15 anos.

O filme durou o tempo que tinha durar, e toda vez que o personagem principal falava “Here is looking at you, kiddo”, Gregório repetia silenciosamente com seus lábios, e Corrine percebia isso com um sorriso estampado no rosto.

A casa ainda continuava deserta, e os grandes quadros com familiares pareciam fantasmas, que os assustavam de maneira marcante. Gregório andava da maneira nervosa, ainda evitando as linhas, que pareciam suas inimigas. Corrine ainda andava de uma maneira assustadoramente despreocupada, levando qualquer um à beira da loucura.

Eles decidiram cair na piscina quase que como um consenso de olhares, ela usava um belo maio, e assim que Gregório tirou sua camiseta de uma banda antiga, ela pegou e a usou para esconder seu corpo. Infelizmente ela não sabia como isso iria golpear Gregório no seu calcanhar de Aquiles, vê-la com aquela camiseta longa demais o deixou fora desse mundo.

Eles começaram a nadar, e apostaram corrida ao redor da piscina. Gregório a deixava nadar mais da metade da piscina para começar a nadar, Gregório sempre quis ser um grande peixe. Gregório desejava mais que tudo poder ser um grande peixe, afinal as histórias de um homem são o que ele deixa por aqui na terra. Eles se divertiram muito na piscina, tanto que Gregório nem percebeu que seu rosto estava ficando extremamente vermelho de queimado. Ela rapidamente aproveitou para provocá-lo com pimentão vermelho, o que o realmente deixou sem graça, ou pelo menos sem graça até o abraço que se seguiu.

Ela precisava ir embora, ela decidiu do nada que precisava ir embora, um carro deveria estar esperando por Corrine fora da casa. Ela corria rapidamente e sem jeito com a longa camiseta de Gregório, quando ela estava para sair do corredor de rosas, Gregório a parou. Eles se olharam por alguns minutos, e não havia mais pressa, Gregório finalmente tinha seu tão sonhado momento. Ele como se não tivesse uma preocupação no mundo a beijou. Eles se beijaram por um tempo indefinido, e ele não conseguia se consolar como era engraçado o jeito dela beijar. No começo ele achou que era uma mordida, mas era um beijo apertado quase próximo demais. Ele se sentia num estado permanente entre alegria e agonia que ele nunca havia experimentado, era algo tão agradável que poucas palavras podem descrever.

“Você tem que ir embora mesmo?”- Ele disse.

“Tenho”

“Como eu faço para te achar?”

“Você vai me achar se tiver que me achar. Você vai ficar comigo de novo?”- Ela disse com tom sem esperança.

“Sim”- Isso parecia errado, ele tinha uma regra sobre ficar várias vezes com uma garota, mas se ela tivesse perguntando ou até pedido mais, sua resposta seria a mesma.

Gregório acordou, ainda com a sensação dos lábios de Corrine perto dos seus. Ele estava sonhando, e isso o deixou maluco. Ele começou a olhar ao redor do quarto escuro e desorganizado procurando qualquer sinal que aquilo não tinha sido um sonho. Tudo tinha sido um simples sonho, um bom sonho, mas só sua imaginação criando algo novo. Ele sentia um misto de frustração e agonia, mas ele faria qualquer coisa para sentir aquilo de novo. Ele pegou o carro sem saber para onde ia, e parou na porta do seu psicólogo, um homem moreno de olhos claros que estudava personalidades de assassinos em séries. Ele era especializado também em períodos da adolescência, e tinha mantido uma amizade com Gregório por anos, o único paciente realmente fora do normal como ele gostava de brincar.

Gregório chegou gritando no seu escritório cheio de couro, e tons escuros:

- Eu quero que você faça um sonho acontecer de novo. Você é um psicólogo, aposto que Freud conseguiria

- Você sabe que isso é impossível, e porque você gostaria de recriar um sonho?

- O sonho foi lindo, daqueles reais que você chega a sentir gosto na manhã de novo, me repita o sonho.

- Você não acha que quer transformar esse sonho na sua realidade por meio de atos é mais produtivo?

- Sem o blá blá blá de psicólogo, eu quero aquilo de novo.

- Gregório, você ao menos conhece a menina do sonho?

- Defina conhecer.

- Você já a viu na realidade? Já falou com ela?

- Eu a vi na realidade, e nós quase conversamos várias vezes.

- Parabéns, você é realmente um conquistador, então fale com ela.

- E dizer o que? Eu tive o melhor sonho da minha vida com você, você gostaria de
tomar um café comigo depois da aula?

- Gregório, meu amigo, eu já te vi puxar papo com alguém dez anos mais velha que você sem saber nada sobre a moça, qual a dificuldade?

- Você não entende, eu passei tanto tempo para chegar onde to, eu to com a sensação de voltar a ser uma criança, ou no mínimo um adolescente.

- E você acha isso ruim?

- Acho.

- Eu daria quase qualquer coisa para sentir o que sentia naquelas noites perdidas de sono.

- Isso não faz sentido, eu não quero voltar.

- Mas você quer aquele sonho de volta?

-Sim.

- É só você conseguir a garota, e a situação, o que você tem a perder?

- Só isso, eu só tenho que conseguir a situação, e a garota? Nada mais, não quer que eu fique milionário na metade do caminho?

- Não.

- Você é realmente gentil.

- Você só tem que sair da sua cabeça, eu te atendo de graça, porque adoro o jeito como você lê os livros, como você ajuda as pessoas, e até como você se aproximava de qualquer garota, você faz com que eu me lembre de mim na sua idade. Qual o problema de sair da sua zona de conforto? Eu senti medo na sua voz?

Ele não respondeu. Ele correu do escritório sem nem ao menos dar adeus ao seu amigo psicólogo, e começou a ligar os números no telefone, e enquanto os números se iluminavam, ele dizia para si mesmo silenciosamente foi apenas um sonho.

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