Mais uma vez.


A mulher havia acordado do lado do marido. Era muito cedo, e o marido só tinha que acordar horas depois. Ela se arrumou rapidamente enquanto olhava a face do marido, e principalmente seus olhos negros. A mulher vestiu a roupa branca rapidamente, ela estava linda. Tinha média estatura, grandes olhos azuis, e um cabelo encaracolado que misturava um tom loiro e moreno. Ela tinha uma bela face, mas havia algo de engraçado no rosto, uma imperfeição que a fazia ainda mais interessante. Seu rosto parece de uma mulher que poderia ser uma modelo, mas nunca foi e nem nunca seria.

O hospital era de um tom branco, uma característica que se pensarmos faz muito sentido, um lugar sombrio precisa de um tom branco para que se sobreviva um pouco de esperança. Ela andou rapidamente, porque não se atrasava um dia para o trabalho. O dia era quinta-feira, a primeira do mês e o dia tinha acordado particularmente escuro. Juno andava pelos corredores, e viu a longa fila de pacientes a esperando. Todas eram crianças e suas mães, por uma pequena exceção. Um homem grisalho com um livro e uma revista sobre curiosidades sorria efusivamente na última cadeira do consultório. Seu nome era Marte.

Ela se lembrou de Marte com uma rapidez incrível, e qualquer alegria pareceu sair do seu rosto. Eles eram brigados, desde a adolescência não se viam, e isso sempre pareceu ter doido especialmente para Marte. Ela disse friamente:

- Eu só atendo crianças.

- Tudo bem, eu não vim aqui ser atendido, apesar de que provavelmente tenha algo de
errado na cabeça.

- Você ainda se acha engraçadinho, não?

- Meu charme, garota.

Ela atendeu todos seus pacientes ao longo daquela quinta-feira, e ele simplesmente não saiu do lugar, ele parecia estar num estado de paz. No final do dia, ela saiu na velocidade da luz para que não houvesse nem ao menos tempo que Marte a seguisse, mas o trabalho foi inútil, Marte não saiu do lugar. O resto da semana, Marte não apareceu mais, parecia ter desaparecido,

Na segunda quinta-feira do mês, Marte estava de novo na última cadeira da sala de espera, sorrindo ainda mais, e segurando um novo livro e revista. Juno já estava se cansando daquilo bem rápido. As crianças pareciam se divertir muito com aquele estranho homem esperando junto com elas. Marte sempre tinha adorado crianças, suas amigas suspeitavam que ele nunca houvesse deixado de ser uma. Juno olhou impacientemente:

- Próximo.

- Marte. – As crianças gritaram com força.

- Você não quer contrariar seus pacientes, certo?

- Você acha que isso vai te levar a algum lugar?

- As crianças que entendem da maneira certa, por isso eu guardei algo delas. Elas não têm medo de ficarem felizes com pequenas coisas. Ontem mesmo, um garoto pulou de alegria dezenas de vezes, só porque tinha andando no elevador sozinho!
- E o que isso tem a ver com o assunto? Você ainda faz pouco sentido!

Ela saiu correndo para fora do hospital, e pediu para que sua melhor amiga a substituísse. A semana depois de quinta voltava à normalidade, e seu marido ficava cada vez mais curioso para saber o que estava acontecendo que a deixava tão nervosa. Ela não falava, ela queria que tudo fosse embora como num sonho ruim. Seu marido com certeza iria cuidar de Martes assim que soubesse do que estava acontecendo, afinal amigos desde a infância não se esquecem. Ninguém esquecia fácil de como Marte perseguia tudo até o final.

A semana se passava tranqüila, Juno e seu marido já sabiam conviver de uma maneira excelente, ele cozinhava as refeições, ela preparava a casa. Ela ansiava por quinta-feira de uma maneira estranha. No começo, ela detestava ver a face de Marte, mas a cada quinta que passava, ela ansiava mais por ver o rosto de Marte.

A terceira quinta-feira do mês chegou e o sol não podia estar mais forte. Juno começou seu dia da mesma maneira: se arrumando rápido, bebendo o café, e olhando nos olhos do seu marido. Ela de novo olhou diretamente para a última cadeira, e Marte estava com o mesmo sorriso de adolescente que usou sua vida inteira, aquela mesma cara de saber algo diferente daqui. Num estimulo instantâneo, ela saiu da sala, e começou a gritar:

- Você deveria me odiar!

- Você fala alto demais, sabia? Isso pode prejudicar seu coração. Eu nunca te odiei,
porque deveria?

- Você não conseguiu o que queria, eu acabei com seu melhor amigo.

- Sim, uma ótima novela mexicana, você ainda não me deu um ótimo motivo?

- Você simplesmente odiava, eu sabia disso.

- Você sempre acha que sabe demais, médicos tem esse grave problema. Eu não consigo odiar alguém que eu amei, nem por um momento, o máximo que eu faço é fingir um pouco e muito mal. Eu ainda te amo, não de uma maneira romântica, mas amo.

Ela olhou com uma cara vermelha de tanta raiva, e choro, e foi embora. Quando ela voltou, Marte não estava no último acento, e no seu lugar estava um papel escrito: Espere, mais uma vez.

Ela passou a semana pensando na próxima quinta-feira, desesperadamente, tudo era a quinta-feira. Ela sentia um misto de curiosidade e confusão. Marte sabia ser bem convincente quando queria, mas ela não sabia no que confiar ainda. Ela chegou atrasada no hospital porque era seu aniversário de casamento. Ela entrou por um corredor que em toda sua estada no hospital não tinha passado, era a sessão de crianças terminais. Um palhaço brincava com as crianças de maneira ridícula, fazendo piruetas, e contando péssimas piadas. Ela escutou claramente “O que uma parede disse para outra? Te encontro na esquina!”. Ela começou a prestar atenção naquele estranho palhaço, e como se um raio a atingisse, ela percebeu que aquele era Marte. A sua amiga, uma bela ruiva, passou sorrindo e dizendo:

- Ele sozinho levantou esse programa, doando muito dinheiro, e a única coisa que ele pediu em troca foi poder aprender como ser palhaço, e ficar sentado numa cadeira de espera do hospital. E ele realmente sabe beijar bem, entre outras coisas.

A mulher ruiva saiu com um imenso sorriso no rosto enquanto enxergava o homem grisalho com média estatura se divertindo com as crianças. Ele realmente tava no seu elemento, talvez Juno estivesse certa quando disse certa vez que Marte nunca iria crescer. Juno começou a repensar tudo que tinha acontecido, e realmente não havia um bom motivo para eles não poderem ser amigos. Ela havia achado que era a coisa mais inteligente do mundo ter afastado ele da sua vida, mas agora o sentido brincava de se transformar. Na mesa do seu trabalho havia um livro, amor nos tempos da cólera, e em cima dele um bilhete amarelo escrito: Um mês de amizade, memorável, loira.

O mês começou de novo, e a rotina se instalou como tinha de ser. O marido infelizmente não conseguia deixar de desconfiar da mudança de humor de Juno. Antes, ela tinha passado dias extremamente nervosos, agora Juno passava dias calmos e tudo voltara à normal. Ele tinha de saber o que estava acontece, e conseqüentemente, foi ao hospital numa quinta-feira sombria com possibilidade forte de chuva torrente. Ele saiu antes mesmo que Juno acordasse, e na entrada do hospital viu claramente Marte. Marte não tinha mudado nada, os mesmos olhos, a mesma pose, e até a mesma jaqueta preta extremamente bonita. O marido, também conhecido como Hélio, sabia que tudo era culpa de Marte instintivamente. Ele partiu para cima de Marte, gritando para todos escutarem:

- O que você está fazendo?

- Eu estou fazendo uma nova velha amiga, não acha simpático?

- Eu vou brigar com você, se você continuar se intrometendo na nossa vida.

- Dê sua melhor tentativa, você sempre pareceu tão reprimido, vamos, eu te deixo dar
o primeiro soco gratuitamente.

Hélio rapidamente deu o primeiro soco, que Marte aceitou de bom grado. Marte tinha uma inquietação na vida, e por isso aprendia novas coisas a todo tempo, e uma das suas paixões eram artes marciais. Marte derrubou Hélio com extrema facilidade, e se abaixou para dar um beijo na testa de Hélio dizendo:

- Você sempre foi meu melhor amigo.

Naquela quinta, Marte não foi visitar Juno. Hélio e Juno discutiram por dias, e decidiram que Marte merecia uma segunda chance, talvez até uma terceira chance. Eles voltaram a ser amigos, mas quinta-feira se manteve. Toda a quinta-feira pelo resto dos anos que viriam, Marte sentava na mesma cadeira do hospital esperando por Juno. Os anos passaram da melhor forma que deveriam passar, sim, a vida ás vezes era difícil, mas as novas velhas amizades sempre foram de muita ajuda. Marte se casou, teve filhos, pulou de pára-quedas, treinou com monges, aprendeu a sobreviver na selva, e a vida simplesmente parecia se encaminhar. Juno e Hélio foram felizes, e não aquele feliz que colocam em finais de histórias, da maneira perfeita, os felizes para sempre. Eles foram felizes, com brigas, com loucuras, com tudo que tinha direito.

O primeiro filho de Juno e Hélio tem um belo nome. Um nome belíssimo segundo o próprio Marte, ele diz que ter o nome de um deus da guerra traz força ao pequeno, e assim foi, que o primeiro filho do casal foi nomeado Marte. Mais uma vez, Marte estava certo, ou talvez estivesse certo pela primeira vez.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Charles Bukowski.

Astronauta

Devolvida ao remetente