Hole in my soul.


O menino levantava de novo para ir ao ensino médio, cada dia era mais difícil acordar. Ele usava óculos do seu avô com uma grande armação preta, tinha um topete com seu cabelo preto, e era extremamente baixo. Ele usava uma camiseta de flanela com uma jaqueta por cima, que sinceramente saiu de moda há algumas dezenas de anos. Ele chegava à escola, onde não tinha quase nenhum amigo. O pior de tudo é que os professores gostavam de usar ele como exemplo e o chamar para responder perguntas no quadro, o que sempre resultava numa chuva de bolas de papel na direção de Pedro. A vida do ensino médio não era fácil como nos programas que passavam na TV, onde todos se aceitavam e as coisas simplesmente acabavam bem no final do dia.

Pedro tinha acabado de sair da aula de química, onde de novo uma chuva de papel o acertou em cheio porque ele soube responder uma pergunta no quadro. Ele escorregou alegremente pelo corrimão como era de costume, afinal todos precisam de um pouco de diversão. No momento em que ele desceu, a menina mais bonita da escola veio falar com ele. Ela era loira, olhos azuis, e em uma palavra linda. Ela falou delicadamente enquanto apertava seu peitoral, e dava sinais que estava apaixonada por ele. Pedro, se sentindo o homem mais feliz do mundo, não percebeu que duas das amigas da menina amarravam seus cadarços juntos. A menina foi embora, e assim que ele começou a andar, ele caiu com o rosto diretamente para o chão. Seus óculos quebraram ao cair no chão, e Lina os pegou. Lina era uma linda loira de cabelo curto, com olhos extremamente claros, que freqüentemente observava Pedro, mesmo sem ele perceber. Ela entregou gentilmente os óculos, e ele de maneira rude saiu correndo com os óculos quebrados na mão.

Pedro foi à festa, mas ele se sentia fora do grupo, era o único que nunca havia namorado alguém, e aquilo o doía com muita força. Ele estava ali, mas ao mesmo tempo não estava. Poucas pessoas sabem como é se sentir verdadeiramente fora de algo, mas Pedro sabia, talvez bem demais. Ele saiu correndo, porque teve uma idéia genial. Lina tentou o alcançar, mas sem sucesso. Ele estava determinado a conseguir o que queria desde que começou a adolescência.

Pedro pegou equipamentos no seu quarto dentro da escola, e rapidamente foi para o laboratório mais escondido de ciências. A chuva era forte, mas nada conseguiria acabar com sua determinação de criar a menina perfeita. Ele usou todos os dados que tinha para clonar a mulher mais bonita com base em revista de modas, e para homens. O resultado foi fantástico, o que saiu da maquina foi uma bonita mulher italiana. Ela tinha olhos verdes penetrantes, era extremamente alta, com longos cabelos pretos, e o sonho de qualquer adolescente. Pedro e a italiana saíram para o parque, e se divertiam tanto, ele a girava pelo ar enquanto a segurava romanticamente. Eles andavam de mãos dadas, e ninguém conseguia acreditar que aquele menino tinha conseguido essa mulher. Pedro estava tão feliz, era como se finalmente ele fosse parte daquele grupo de adolescentes da TV, os mesmos que o alegravam em dias difíceis.

Ele queria mostrar ao mundo sua criação, e seu amor. Ele a levou numa festa cheia de gente, e ele parecia ser a surpresa da festa. Ninguém conseguia acreditar, e muito dos meninos que jogavam papeis nele ficaram se perguntando o que ela fazia com ele. Pedro foi pegar bebidas, e a italiana não queria que ele fosse embora. Ele foi tentando ir o mais rápido possível, e nesse momento um menino que o atormentava por meses chegou à bela italiana. O menino, capitão do time de basquetebol, a levou para um quarto, e Pedro assim que voltou ficou completamente desesperado. Ele procurou em todo lugar da festa, e de repente os encontrou. Ambos se encontravam num quarto escuro, ele foi para uma parede longe e ficou olhando sem parar para o teto, ele tinha esperança que tudo tivesse sido um mau pesadelo. A vida não era como os filmes adolescentes, ele silenciosamente repetia para si mesmo. Lina de novo observava de longe Pedro, e sentia o quanto ele estava sofrendo.

Pedro correu para o laboratório, ele colocou a mesma música clássica tocando, enquanto planejava seu próximo clone. Dessa vez, foi uma linda líder de torcida, com longos olhos verdes, loira, pequena, e em resumo: a beleza clássica de qualquer escola do ensino médio americano. Eles passaram dias juntos, vendo filmes, escutando peças musicais e Pedro ficava espantado como tudo estava dando certo. Ele sabia que aquele negócio de cientista maluco o ajudaria um dia. Pedro estava ensinando passos de danças de lideres de torcida, quando o capitão do time de futebol americano acertou uma bola em cheio na sua cara. A bola foi proposital, e quando Pedro acordou só conseguiu ver de relance a bela loira e o capitão saindo pelo campo de mãos dadas. Ele não agüentava mais, tudo parecia um mau pesadelo no ensino médio. Lina estava no mesmo campo olhando para ele com olhos apaixonados, mas ele nunca teria conseguido enxergar porque estava cego com a idéia de clonar a mulher perfeita.

Lina descobriu o que ele estava fazendo no laboratório, e ficou ainda mais com coração quebrado referente a Pedro. Ela morava num dormitório dentro do ensino médio, e sua luz diminuía quando ele clonava “as mulheres perfeitas”. Lina não conseguiu dormir, e ficou esperando para que as luzes diminuíssem. Pedro foi clonar sua mulher perfeita de novo, e no momento de acionar a alavanca, Lina chegou. Ela delicadamente interrompeu o processo segurando a alavanca sobre a mão dele. Ela devolveu seus óculos remendados, ele parou e a seguiu para fora do laboratório. Pedro tirou o jaleco antes de sair, enquanto se despedia com os olhos do seu laboratório. Lina pegou sua mão, e eles saíram da escola.

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