Conversa de botas batidas.


Era uma tarde no hotel, o sol já ia se abaixando e o lugar parecia um deserto. O hotel era o tipo de lugar discreto que era usado para os casos mais tórridos e indecentes da sociedade. Médicos, advogados, professores respeitados, todos iam a esse velho hotel fazerem coisas não tão respeitáveis. Um Hotel velho desgastado pelo tempo que ainda tinha um tom clássico do seu auge. Nesse dia especificamente só tinha dois velinhos no quarto número 23. O hotel era uma relíquia dos dias antigos, cada centímetro do quarto 23 era uma história antiga, um conto perdido no tempo. Os móveis eram de tempos em que filmes hollywoodianos ainda eram em preto e branco.

O homem deveria ter por voltar dos 75, olhos e cabelos escuros, um jeito de decisão que não podia ser questionado. O homem se chamava Orfeu e usava um terno escuro com gravata azul escuro, ele parecia ter acabado de sair de uma reunião da faculdade ou algo do gênero. A mulher se chamava Elisa, tinha longos cabelos loiros que não tinham perdido a beleza ao longo dos anos, e nem seus belhos olhos azuis. Tinha uma postura distinta que parecia cair perfeitamente com a posição decidida do Orfeu.

Descrevi os dois, mas o mais complicado é descrever o amor entre eles. Era algo como o primeiro amor de adolescentes, quando nenhum dos dois sabe o que está acontecendo e tudo parece ser intrinsecamente mágico e não era só isso. O amor parecia ser algo eterno e imutável, algo que só existia em grandes filmes românticos. Os gestos pareciam se encontram automaticamente e nada parecia forçado. Cada olhar e cada gesto parecia calculado até a perfeição. Eles foram namorados na adolescência que se perderam ao longo dos anos, ambos casaram e tiveram filhos e se encontraram de novo já viúvos. Por causa do preconceito e dos problemas dos filhos em encararem isso, eles acharam melhor se encontrar no hotel a cada cinco dias. Era triste ver algo tão belo tendo que ser escondido. Orfeu cansado de tudo isso começou a falar:

- Veja você onde é que o barco foi desaguar- a gente só queria o amor...

- Deus parece às vezes se esquecer

E ela responde:

- Ai, não fala isso, por favor. Esse é só o começo do fim da nossa vida. Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida que a gente vai passar.


O amor crescia a cada dia, tudo que ia contra não tinha nenhuma chance com o que eles sentiam. Seus filhos com certeza ficariam incomodados, mas aquele sentimento ia além de preconceitos e valores ultrapassados. Era simplesmente o amor puro da adolescência, algo que nunca deveria ser encarado como algo simples.

O atendente do hotel, decepcionado com a vida, encontrou sentido nesse casal de velhos que mostrava algo de melhor que ele não tinha visto. Que a esperança, felicidade e fé não eram somente mitos urbanos. O atendente tinha sofrido maus bocados na mão da vida, mas ao vê-los tudo parecia ter algum sentido. Ele tinha sido encurralado no labirinto da mesmice, e a tristeza de amores quebrados o tinha deixado despedaçado.

Um dia de chuva de setembro, tudo desmoronou literalmente. O prédio era antigo, a prefeitura havia se esquecido de fazer as últimas três inspeções, e o perigo era eminente. Todos foram retirados com segurança, ou melhor, quase todos. O atendente lembrando-se do casal de velinhos saiu correndo ao quarto 23 com todas suas forças e bateu na porta quando começou a escutar uma conversa de botas batidas:

- Veja você, onde é que tudo foi desabar, a gente corre pra se esconder. - Elisa gritou.

- E se amar, se amar até o fim sem saber que o fim já vai chegar. - Ela continuou quase sem respirar.

- Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga. Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas não ter o seu lugar. - Ele respondeu com amor no coração.


O atendente continuou batendo como um louco, mas não foi atendido e com medo do desmoronamento acabou desistindo. Saiu com lágrimas no olhar ao perceber que eles ficaram de propósito, porque o amor era mais importante e logo era algo que não deveria mais ser escondido. Ele passava horas pensando no porque, a verdade é que ele gosta de acreditar que eles ficaram para viverem seu amor como tinha que ser vivido e não ás escondidas como se fosse uma praga.


Eles haviam escolhido morrer juntos no lugar de viver separados. Isso pode ser difícil de entender, mas o amor era a coisa que ia além da vida, sem caber de imaginar. O atendente passou horas desesperado pensando nos dois velinhos, até que uma paz imensa e tranqüilidade o chegaram. Os velinhos o haviam ensinado a acreditar em algo maior que ele, em algo maior do que a correria de um dia-a-dia perdido, talvez uma parte dele ainda fosse um romântico escondido.

Lendas até hoje dizem que em certas noites chuvosas de setembro pode-se escutar pelas ruas daquele hotel uma conversa de amor antigo:

-Diz, quem é maior que o amor? Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora;

-Vem, vamos além. Vão dizer que a vida é passageira. Sem notar que a nossa estrela vai cair.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Charles Bukowski.

Astronauta

A triste e curta vida de Ernesto