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A triste e curta vida de Ernesto

Ernesto levanta cedo, e percebe, curiosamente, os pássaros voando ao seu redor. Começa a se sentir tonto, faz anos que ele percebe que viver de cigarro, café e cerveja não vão mantê-lo vivo por muito tempo, mas ele tem feito a pergunta, importante, se ele, realmente, quer se manter vivo. Duas possíveis respostas: 1)       Sim 2)       Não Ele não consegue pensar no não. Ele era católico, afinal de contas. Ainda rezava para um Deus que não acreditava. Por isso a pergunta tinha que ser sim, mas não gostava daquela afirmativa-seca, redonda e certa- de um sim, sem nenhuma reflexão. Levantou-se, em plena segunda, com um calor assolando seu corpo. Foi-se espalhando pelas suas extremidades, a roupa social colada no corpo, enquanto sentava numa praça. Percebia que era um ataque de pânico. Queria gritar, mas sua garganta estava seca, poderia ter pedido ajuda, mas não conseguia se expressar, ou mesmo, não queria se expressar. Erne...

Devolvida ao remetente

Devo começar esta nota por um lembrete, ou melhor, uma tentativa de recapitular certas coisas que foram ditas. Toda pessoa no momento em que emite uma palavra, arrepende-se, automaticamente, do seu erro, pois é impossível roubá-la de volta. A escrita, infelizmente, faz isso duas vezes, e perpetua, por meio do tempo, este pobre erro. Não é sem acerto que Platão quis expulsar todos os malditos poetas da sua cidade perfeita, afinal, eles acabariam dando muito trabalho ao rei filósofo que já não queria explicar muito bem suas razões. Ás vezes, a literatura é uma forma de explicar suas razões. Não sempre.              Deveria começar com um pedido de desculpas. Sempre odiei voltar atrás. Qualquer passado para aquele que deseja o progresso deve ser eliminado, trucidado e esquadrinhado numa pequena cela, onde o sol não bate, e a comida é rara. Lembro-me do seu rosto, quando disse que estávamos terminados. Em minha defesa, mal ent...

Espelho

O corpo fechou, lentamente, sobre si mesmo.   Primeiro, não conseguia mais comer, ou dormir. Tudo que ele colocava à boca, voltava em forma de vômito. Era simples, tecnicamente, o que estava acontecendo, seu corpo, assim como sua mente, havia sido destruído. O quarto parecia ter congelado no tempo, nada era limpo, e os gatos pareciam miar, constantemente, contra sua paz. Não havia deixado entrar luz na sua casa fazia semanas. O ar era denso e parecia carregar uma história sobre seu passado, o cheiro não parecia ligado à vida, mas sim a um reino, totalmente, desconhecido.              Havia pensado que todos seus heróis tinham se suicidado, no entanto, ele não gostava da pressa desta decisão. Ele preferia algo devagar, que não dependesse da sua decisão consciente. O psiquiatra havia dito que nunca tinha visto aquilo acontecer, ele tinha perdido muito peso, tinha um quadro clinico desesperador, mas sem nenhuma doença ap...

Autor

Há muito tempo, um homem sobreviveu a guerra, ou, poderíamos dizer que a guerra sobreviveu nele. As primeiras páginas que vieram à sua mente foram as bombas explodindo, a França pegando fogo. O sonho de todo soldado em acertar Hitler na cabeça. Thomas passou anos escrevendo o mesmo livro, acreditava, piamente, que a repetição pudesse salvar sua sanidade. Lia o rótulo dos produtos no seu banheiro, escrevia no romance. Quando a fama veio, ele não conseguiu entender, como possivelmente o mundo inteiro havia podido amar suas bizarrices. Lógico, ele, rapidamente, aprendeu que o mundo havia tirado dele o que queria, sem nem se importar com o que ele quis. Quando ele escrevia, repetia a si mesmo uma pequena prece sobre quem ela era, havia um pedido desculpas pela confusão, ele desejava abrir uma porta que há muito tempo havia fechado.              David respirava fundo, mas sabia que não havia chance contra a depressão. O grande ...

Separações.

             Conseguia escutar o som, ou melhor, a falta dele. Era como se a solidão invadisse cada metro quadrado, livros jogados ao acaso, fora da ordem, gritos surdos, vidas perdidas. O silêncio é uma forma que encontramos de fugir de quem nós somos. O barulho, a confusão e a baderna definem nossos sistemas sociais. Vivemos num mundo em quem fala mais alto, é escutado. Existe uma revolução no meu tipo de silêncio, ele é uma prece contra o barulho. Todo grito é uma forma de não querer morrer. Eu estava sentado, vendo uma flor morrer, aos poucos, quando ele me perguntou o que havia acontecido.              Sempre comece um novo parágrafo, explicando algo novo, disse meu professor de escrita. Entretenha o leitor com algo fácil, talvez um fato chocante. Ela estava sorrindo, ou, era assim que ele gostaria de imaginar. Se sua fuga havia sido inteligente, eu nunca haveria de saber. Ela colo...

A Flor e a Náusea

A garota anda, tortamente, por meio da rua, buscando equilibrar a flor na sua mão, enquanto observa o fluxo do trânsito. Parece absurdo para qualquer espectador, desavisado, que aquele vaso seja daquele tamanho. Ela não é, essencialmente, bonita. Pelo menos não para os padrões estereotipados, ela é bonita de uma forma um pouco peculiar. Sempre se veste bem. Sempre sorri. Parece deslocada contra o plano de fundo de uma cidade cinzenta e desabitada. Ela foi até o aeroporto na esperança que seus mundos pudessem se encontrar, como se, num passe de mágica, diferentes visões de mundo pudessem ser equilibradas na ponta do pé. Não era absurdo pensar que seus olhos iriam se encontrar no momento em que ele saiu do portão do desembargue. Nem, ao menos, seria absurdo pensar que ele iria sorrir, sem nenhum tipo de constrangimento. Absurdo, até poderia não ser, no entanto nada disso aconteceu.              Pequenos presentes são dados d...

Saudosismo

Uma criança sorri, enquanto brinca, desavisada, sobre os olhares que seu pai lhe da. Ele tenta enxergar nos seus olhos, o brilho que nunca deixou de existir. Os olhos são estruturas estranhas, mantém seu brilho, mesmo sobre as condições mais adversas. O clube da luta começa com um homem abrindo um caderno, os órgãos começam a falar naquelas páginas. Boa tarde, eu sou os olhos, sou aquilo que você deixa de ver. Bom dia, eu sou as córneas, você terá que ficar cego para poder entender. A criança sorri, casualmente, sem saber direito sobre as reflexões do seu pai que brinca com os dedos, enquanto se preocupa com sua filha, seu jeito, seu andar, e sua vida. Pergunta-se o que haveria de ter acontecido, caso ele fosse mais tolerante, caso suas palavras não tivessem sido tão amargas. Sua esposa poderia ter ficado em casa. A geração repete os mesmos erros do passado, seu pai havia sido abandonado pela sua mulher, depois de vinte anos ausente desta mesma vida.      ...