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A Flor e a Náusea

A garota anda, tortamente, por meio da rua, buscando equilibrar a flor na sua mão, enquanto observa o fluxo do trânsito. Parece absurdo para qualquer espectador, desavisado, que aquele vaso seja daquele tamanho. Ela não é, essencialmente, bonita. Pelo menos não para os padrões estereotipados, ela é bonita de uma forma um pouco peculiar. Sempre se veste bem. Sempre sorri. Parece deslocada contra o plano de fundo de uma cidade cinzenta e desabitada. Ela foi até o aeroporto na esperança que seus mundos pudessem se encontrar, como se, num passe de mágica, diferentes visões de mundo pudessem ser equilibradas na ponta do pé. Não era absurdo pensar que seus olhos iriam se encontrar no momento em que ele saiu do portão do desembargue. Nem, ao menos, seria absurdo pensar que ele iria sorrir, sem nenhum tipo de constrangimento. Absurdo, até poderia não ser, no entanto nada disso aconteceu.              Pequenos presentes são dados d...

Saudosismo

Uma criança sorri, enquanto brinca, desavisada, sobre os olhares que seu pai lhe da. Ele tenta enxergar nos seus olhos, o brilho que nunca deixou de existir. Os olhos são estruturas estranhas, mantém seu brilho, mesmo sobre as condições mais adversas. O clube da luta começa com um homem abrindo um caderno, os órgãos começam a falar naquelas páginas. Boa tarde, eu sou os olhos, sou aquilo que você deixa de ver. Bom dia, eu sou as córneas, você terá que ficar cego para poder entender. A criança sorri, casualmente, sem saber direito sobre as reflexões do seu pai que brinca com os dedos, enquanto se preocupa com sua filha, seu jeito, seu andar, e sua vida. Pergunta-se o que haveria de ter acontecido, caso ele fosse mais tolerante, caso suas palavras não tivessem sido tão amargas. Sua esposa poderia ter ficado em casa. A geração repete os mesmos erros do passado, seu pai havia sido abandonado pela sua mulher, depois de vinte anos ausente desta mesma vida.      ...

Exausto

O homem que senta no escritório parece cansado. Não parece a primeira vez que ele boceja no dia, levanta, sem disposição, bebe água e volta a sentar-se. Ele já imaginou, centena de vezes, o que poderia fazer de diferente com seu dia. O som da água escorrendo pelo bebedouro, os cochichos de trabalho ao seu redor, todos discutindo o que está prestes a acontecer nas suas vidas. Seu silêncio parece tomar conta do cômodo aos poucos, como se a liberdade fosse, na verdade, um tipo de entardecer. Ele queria ter uma vida emocionante. Imaginou-se caçando no meio das selvas amazônicas; onde ele, finalmente, teria paz de espirito, mas não por muito tempo, um tigre o perseguiria, numa luta mortal, em que nenhum dos dois saberia o resultado até a última respiração, sabendo dos segredos sobre nosso passado, nós já fomos simples macacos. Ele pensava tais pensamentos tolos, enquanto tomava seu café, não havia dormido na noite anterior, seus olhos estavam dilacerados por sonhos que nunca havia vivi...

Devandra

Ele está sorrindo, sem jeito, incomodado com uma reação previsível. Ela parece estar sem palavras, seu dicionário tinha sido esvaziado pelo pedido incomum. Quando ele disse a palavra, ela pareceu estremecer. Lembrou -se dos seus pais e quis chorar, dizer que as regras haviam sido invertidas, e que ele não sabia do que estava falando. As pessoas, de forma geral, não entendem que o fracasso existe, consome, mata e reduz. Cada pedido é um fracasso prestes a nascer. Era isso que ela queria dizer, mas ele ainda sorria.    Sua casa reproduzia seu descaso . Seus móveis se reduziam a poucas almofadas esparramadas pelo chão, e vários instrumentos organizados em ordem de tamanho. Seu violão ficava no seu colo, tocando uma doce melodia, suas palavras pareciam pura poesia, sem cortes. Sua roupa era uma jaqueta de couro desgarrada, e uma calça longa demais para o seu corpo. Ela se vestia bem, e imaginava como aquele apartamento poderia ser alterado. Primeiro, imaginou uma limpeza, ...

Você é romântico?

Ele esperou meses por aquele dia. Acordou cedo. Fez a barba. Limpou o apartamento. Lembrou-se de tudo que ela havia prometido, cantava suas palavras como se fossem sua música. Avisou ao porteiro que receberia alguém. Havia cozinhado dois pratos, difíceis, e colocado no fogão. Economizou o dinheiro que gastaria no táxi, porque não gostaria de se atrasar no ônibus. Ninguém seria capaz de adivinhar seu passado inconsequente a partir daquele dia. Ele era um homem em uma missão.              Seu apartamento minúsculo tinha ganhado cor: flores novas haviam sido compradas, a louça estava limpa, as garrafas de cerveja na lixeira, a cama com novos lençóis, e, finalmente, seu humor era outro. Vendo esta cena, um espectador comum não entenderia os meses de desespero perto do telefone, as noites mal dormidas olhando o computador e as garrafas inúteis de vinhos gastas no chão. O amor tem o efeito absurdo de nos tirar do nosso bom senso...

Macro

E compreendeu então que há duas solidões, a solidão do monólogo e a do dialogo. A primeira ele começava a sentir na proximidade com os de fora, e eram sempre de fora os que não pertenciam ao seu núcleo. Esse estado lhe foi sempre penoso, trazia uma hostilidade na reserva que mantinha e provocara. Um homem é sempre um estranho diante de outro, sabia-o bem, mesmo ligando pela carne, pelo sangue, pelo instante de gozo entre duas frações de ódio. A segunda era a sua solidão de sempre. A que comprime, modela e torna estanques dois seres que se conhecem nos mínimos anseios, poro por poro, hausto por hausto, até que se cristaliza entre os dois esse fluxo de recriminações recíproco, e produto final, a pedra do silêncio. Mas cada um sabe da presença do outro. Esse conhecimento os destrói e sustenta, aniquila e traz certeza de uma continuidade. Nenhuma variante. Nenhum ímpeto de adicionar um novo elemento. O mesmo nó no mesmo ponto, a se fazer e desfazer, o mesmo intervalo de aparência para gar...

Micro

            Ele se aproxima do microfone, seus olhos estão tremendo. Seu corpo é magro e sua face parece refletir anos de abuso. Sua camiseta parece rasgada e suja por pelo menos por algumas semanas. O bar está vazio, o lugar é pobre, e ele tocava pelas cervejas que lhe davam. Seus pais haviam lhe ensinado a amar os músicos fracassados, aqueles que nunca viram muitos palcos. Ele sabia infrutiferamente que os melhores sonhos são aqueles não realizados, os projetos que ficaram para o ano que vem, e a sombra do tempo que ameaça nosso horizonte. Quando ele começava a tocar, o silêncio era absoluto, ninguém conseguia se mover, era como se, por um momento, nós tivéssemos nosso interior invadido. Sua música parecia à colonização de um mundo que nós escondíamos para o exterior, o teatro se revertia e a plateia virava o palco dos seus versos.              Um adolescente corre, o suor escorre pela sua...