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Exploradores do abismo

Preciso que você saiba se algo acontecer, não é sua culpa. Não somos responsáveis por outra vida que não são as nossas. Não temos qualquer débito com outros, saiba disso, desde já. Eu sempre namorei o abismo, um passo em falso, e eu cairia. Sei disso desde jovem, desde aquele dia que peguei o estilete e meus pais tiveram que me levar ao hospital, às pressas, enquanto se perguntavam o que havia de errado. Olhei o mar, como um namorado perdido, se eu me acostumasse com ele, nós seriamos o mesmo ente, eu estaria mergulhado em uma morte qualquer, dolorosa, injusta, antes da hora, mas não importa, temos que saber que não importa. Amanhã o sol levanta do mesmo jeito, faz o movimento ridículo de elipse, seguindo alguns ditames físicos. Sabe-se que a felicidade é uma guerra, mas, jovem, eu já sabia que não queria lutar. Sorria para os mendigos, os malucos, os derrotados e os drogados. Sabia que era do time deles, e que não haveria final feliz, como num conto da Disney. Meu final seria exato. ...

Cego.

             Não entendo o que você queria, esperava que eu ficasse parado. Contando os dias até você abrir a porta, e descobrir que a tranca da minha casa sempre dá problema, e você teria que esperar minutos até que eu, finalmente, acordasse. Um pouco de mau humor, vestindo o pijama, esperando que eu sorrisse. Não me espere, como se eu fosse um personagem de desenho animado, confirmando suas suspeitas, erradas, de que a vida era boa. Não foi assim que eu te esperava.              Te esperava como alguns sonhos ruins. Um pesadelo que te acorda no meio da noite. Transpirando, sem ar, desmaiado, em explosão de uma paixão incompleta. Era isso que eu sentia. Borges sentou na cadeira da maior biblioteca de Buenos Aires. Ele estava, completamente, cego. Dizendo que sua cegueira foi gradual, não foi dolorosa. Foi silenciosa, parece ser um entardecer num dia muito cansativo. Aos poucos, ele per...

Notas sobre o deserto.

Ele estava no deserto. Fazia semanas que não comia. Ele usava somente drogas para manter-se acordado. Trabalhava dez horas diárias, sem nenhum pagamento. Seus olhos estavam afundados, e sua pele estava queimada e ressacada. Uma promessa havia sido feita: se eu não puder ter a mulher da minha vida, vou trabalhar até minha morte. Ele havia se comprometido com a sua missão: ele morreria independentemente do que acontecesse. Não havia solução, ninguém convenceria aquele homem do contrário. Era isso que ele imaginava.              Depois de três meses com um regime rígido de trabalho, e pouca alimentação, ele estava na porta da morte. Ele acreditava piamente que havia cumprido sua missão. As pessoas morando naquele grande albergue não sabiam seus planos. Todos achavam que ele procuraria ajuda quando o momento chegasse, mas a febre somente aumentava. Ele fez uma posição, esquisita, de meditação e esperou pela morte. Mal ele sabi...

Sexo.

             O problema das memórias é que não temos controle sobre quais vão permanecer. Não podemos escolher em reter, somente, a memória que nos faz sorrir e pensar que o melhor ainda estar por vir. Ao contrário, eu diria que as piores memórias são aquelas mais difíceis de se desapegar. São os fracassos que nos lembramos com terrível permanência. Um amigo meu, com trinta anos, diz que nunca mais foi o mesmo desde a sua primeira lembrança romântica. Ele age, como um misógino, passando de mulher para mulher, sem anotar o nome no telefone, traindo qualquer relacionamento possível, sem nunca se apegar além do necessário, do extremamente mínimo.              Ele chegou na casa da namorada, algumas horas antes do horário combinado. Ele andou, lentamente, pela sala da casa. As roupas estavam jogadas no chão. Calças jeans, cuecas, casacos, meias e sapatos. Tudo parecia deslocado naquela casa...

Meus heróis morreram antes dos trinta.

O professor se levanta da cadeira. O auditório está cheio de alunos. O professor tem uma longa barba branca que toma conta de todo seu rosto. Ele está fazendo uma palestra sobre o símbolo de artistas perturbados como mitologia. O professor parece raivoso, descontrolado, argumentando pela mudança de tal mitologia mundana. O homem não precisa ser desesperado para criar literatura, arte e poesia. Os homens felizes são os verdadeiros artistas que moldam sua vida como uma obra de arte. Um aluno começa a rir. É um riso frenético e demoníaco. Sua voz se levanta. O professor fala para ele levantar a mão. O professor, alto e desengonçado, não sabe como responder aquele aluno: queria desconsiderar seu argumento, antes mesmo que ele falasse. Debochando, disse para o aluno tomar a palavra. O estudante levantou e desceu, lentamente, até o centro inferior do auditório. Os alunos assistiam, pasmos, aos seus passos: ele era baixo, um pouco gordo e tinha um bigode. Parecia saído de um conto russo...

Para o mundo todo ver.

Desde jovem, ele tinha sido irrepreensível. Não dava ouvidos a ninguém. Vindo de uma família humilde, tudo que ele pedia era a música. Depois de uma virada de sorte, seus pais haviam ganho uma pequena quantia na loteria. Cada filho recebeu sua cota do dinheiro. Ele correu até a loja mais barata de instrumentos, e foi empilhando a guitarra, o baixo e a bateria. Seus irmãos o seguiram, já que seus pais haviam lhe ensinado o lema: “Nunca abandone seus irmãos”. As primeiras sessões foram terríveis, ninguém sabia muito bem o que estava fazendo. O som era raivoso, sem direção, e um misto de arrependimento e tristeza. Mesmo assim, eles eram irmãos. O mais velho sempre decidia o que fariam: o nome da banda, qual o estilo de música e quem ficaria com qual instrumento. Os dois escutavam em silêncio. No dia da morte do seu pai, todos eles ficaram sem palavras. Os três irmãos pareciam não se diferenciar um do outro: o sentimento era inefável, inexpressível e ridículo. Era como se o pesar que ...

Eu sempre quis ser Hemingway.

Reza a lenda que eles invadiram o restaurante. Um dia antes do final da segunda guerra mundial, homens suspeitos, munidos com uma metralhadora, entraram no mais distinto hotel da França. O escritor disse, com cuidado, que ele tinha lutado todos aqueles anos para retornar ao seu bar de juventude. Ele correu até a adega, sorriu sem jeito, e optou por sentar-se em silêncio, em desespero sobre tudo aquilo que a guerra havia lhe custado; sua saúde, seu casamento e sua sanidade. Sentado naquele lugar, ele começou a gritar pela liberdade de Paris. Aquele momento seria narrado por seus biógrafos, como o lugar em que ele decidiu que seu último livro seria um ode à sua juventude em Paris. Ele começou a gritar ordens, dizendo, lentamente, que aquele era nosso bar, quis trocar o nome do estabelecimento para “O Marujo Selvagem”, mas nenhum dos seus amigos soldados concordou. Era colérico ao dizer quem queria se tornar, eu sou o homem que salvou Paris, sem saber que em um lugar, não muito dista...