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O suicídio do amor romântico.

Desde jovem, lhe ensinaram o que significava ser gente. Colocaram dois olhos, uma boca, duas orelhas e duas mãos como se fosse um boneco. Um modelo a ser seguido, imitado e reproduzido. Havia uma negação na forma com que ela aceitava as roupas que lhe eram dadas: use saias, cores alegres e nunca chore. Foi como se tivessem todo um programa de opções sobre o que ela deveria ser: um jeito de se vestir, uma forma de pensar e um estilo de vida. Ela se sentia uma posse alheia, desde do dia que acordou na maternidade. Se pudesse ter escolhido uma frase, diria que o inferno são os outros, mas ela nunca pensou isso de verdade. Não dessa forma. O inferno era ela mesma, ela pensaria com calma, e dedicação. O inferno era o fato dela não gostar dos programas ou as opções colocadas à sua frente, como se toda resposta certa de um programa de TV não estivesse nem ao menos na tela. Eu quero a opção z, doutor. Não, isso não significa a morte. A morte é a opção zero. Há muito tempo parecia que ...

Mensagens no fundo do mar.

Existe um mundo imaginário além de qualquer e toda pretensão, em que um dia nós dois nos comunicamos com mensagens enroladas em garrafas pequenas jogadas ao mar. Este conto é uma história de como o desenrolar de tais mensagens se desencontrou, e acabou jogado ao relento de um mundo inimaginável. -Não acredito que você imaginou possível. -O que? -Nós dois sentados, falando, pausadamente e calmamente, de tudo que está. -Porque? -Meu sangue é vermelho, zanza rápido pelas minhas veias, e, raramente, respira com calma. -Seu sangue respira? -Você entendeu. -Você deveria ter calma, afinal o que tem demais? -Já imaginou pedir ao seu futuro assassino que ele converse numa mesa de bar com você? -Não. -É a mesma coisa. Nós não chamamos para conversar aquele que nos colocou num redemoinho de destruição. -Você pode se culpar por isso, sabe. -Entendo. Admito minha culpa, se você admitir a sua. -A minha o que? -Culpa.    ...

Jorge Luis Borges.

Borges disse ter encontrado a si mesmo em uma praça. Reconheceu-se nos erros do seu eu mesmo jovem e explicou como a cegueira viria a ser um lento entardecer, não queria assustar seu passado com seu futuro. Com palavras rígidas e materializadas, quis argumentar a utopia de um homem só cansado. Se essa utopia fosse possível, é porque no futuro existiriam somente indivíduos, se é que algo existisse. Sentado na cadeira de faculdade, um homem corpulento se aproxima, e se senta com olhos radicalmente sérios. Sua roupa é ridícula e sua fala parece se arrastar como se fosse um discurso proclamado, pergunto a ele seu nome: -Eu sou você. Se por um momento fico assustado, digo que isso não é possível. -Mas afinal, o que é possível nos dias de hoje? Enxergo por trás da barriga, uma possível explicação de quem seria aquele estranho senhor. Teria levantado, se não fosse por um pequeno aperto no meu braço: -Lembra de como você costumava pensar que toda a história do mundo vi...

Congresso geral do Fracasso.

A menina senta na frente de um grande televisor. Está lendo os documentos da assembleia na França na época da revolução. Obcecada pelo seu processo, relembra mentalmente de tudo que poderia ser significante naqueles documentos. Coloca em pedaços uma história do que poderia ter acontecido. Se o rei não tivesse insistido em fechar qualquer discussão, se sua cabeça não tivesse sido decapitada, se a França fosse a Inglaterra. Revoluções em silêncio na cabeça dos tímidos. Pessoas obcecadas com outro tempo tem algo de volta a um período em que não éramos obrigados a viver no presente. É uma ideia recente que devemos viver o nosso próprio período; vários homens literatos trancados em seus castelos discordariam radicalmente da ideia que teríamos que viver nossa própria época. Penso aqui em Maquiavel se erguendo com vestes antigas implorando para ser escutado. No entanto, a realidade não responde aos nossos pedidos. No máximo, ela tenta nos fazer pedir. No momento de troca, nos vislumbra c...

Memória.

             O problema é que não sabemos se poderíamos voltar. Sentados juntos fazemos promessas impossíveis de serem cumpridas. Foi isso que ela repetiu quando pegou minha mão. Sorrisos secos deveriam ser vendidos na barraca da minha escola. Inconsequente com as vascularidades daquilo que me propunha a fazer; vinha escrevendo tal história desde a primeira vez que comecei a andar. Diga-me sobre seus últimos meses. Por favor, não omita nenhum detalhe. Minha cara, os minúsculos remanescentes hão de estar em todo e qualquer lugar.              Ele bate com força na porta do apartamento. A madeira ressoa com um barulho ensurdecedor. Horas batendo na mesma porta, esperando a mesma resposta. Finalmente, um homem abre a porta com seus braços sangrando. Um grito de susto. O dedo indicador estendido sobre a boca para indicar o silêncio. A figura mítica do escritor desesperado. Respira fundo sob...

O nascimento da Clínica.

             Ele vê as marcas de sangue na sua mão. Pensa consigo mesmo como é engraçado que os contornos da sua pele possam ter pequenos pontos vermelhos de pura dor. Imagina-se fora da lógica do que dizer. Se ele pudesse criar uma linguagem própria, e ninguém pudesse aprendê-la. Queria criar esse mundo tão circunscrito na sua própria reflexividade que nada pudesse invadir. Os budistas tinham uma concepção de equilíbrio. Retirando os véus que mascaram a realidade, pode-se finalmente ver a real realidade material empírica fictícia. Ou seria um sonho imaginar que sinceramente pudéssemos ser capazes de dividir somente um grande e imenso imaginário. Se todos os seres humanos dividissem uma ideia em comum, talvez eu tivesse a capacidade de abrir um sorriso. Foi isso que eu gostaria de ter dito, mas não conseguia ir além do ecos desmembrados da minha úlcera.              Ele sentava no bonde...

Folha em branco.

             O homem sentou-se à mesa do advogando esperando os papéis assinados do divórcio. Lentamente, começou a elaborar os últimos anos da sua vida desejando que tudo pudesse ser reescrito. Ele não entendeu quando aquilo aconteceu: a pessoa com quem ele convivia todos os dias não sabia nem ao menos seu estado mental. Ela não sabia que fazia anos que sua mente não era à mesma, ele não sabia mais organizar os lampejos de sanidade que lhe eram dados. Sorria entendendo que não haveria volta, mas mesmo assim se colocou a escrever um papel impossível.              Quis primeiro criar um papel branco em que houvesse um começo e um fim. Sem nenhuma incoerência ou falha lógica; círculos perfeitos de beleza. Uma harmonia tão grande de forma que se decompõe em risos de crianças alegres no parque. Uma frase tão simples que poderia deixar bobo o mais experiente dos poetas. Sabia de cor todos o...