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O nascimento da Clínica.

             Ele vê as marcas de sangue na sua mão. Pensa consigo mesmo como é engraçado que os contornos da sua pele possam ter pequenos pontos vermelhos de pura dor. Imagina-se fora da lógica do que dizer. Se ele pudesse criar uma linguagem própria, e ninguém pudesse aprendê-la. Queria criar esse mundo tão circunscrito na sua própria reflexividade que nada pudesse invadir. Os budistas tinham uma concepção de equilíbrio. Retirando os véus que mascaram a realidade, pode-se finalmente ver a real realidade material empírica fictícia. Ou seria um sonho imaginar que sinceramente pudéssemos ser capazes de dividir somente um grande e imenso imaginário. Se todos os seres humanos dividissem uma ideia em comum, talvez eu tivesse a capacidade de abrir um sorriso. Foi isso que eu gostaria de ter dito, mas não conseguia ir além do ecos desmembrados da minha úlcera.              Ele sentava no bonde...

Folha em branco.

             O homem sentou-se à mesa do advogando esperando os papéis assinados do divórcio. Lentamente, começou a elaborar os últimos anos da sua vida desejando que tudo pudesse ser reescrito. Ele não entendeu quando aquilo aconteceu: a pessoa com quem ele convivia todos os dias não sabia nem ao menos seu estado mental. Ela não sabia que fazia anos que sua mente não era à mesma, ele não sabia mais organizar os lampejos de sanidade que lhe eram dados. Sorria entendendo que não haveria volta, mas mesmo assim se colocou a escrever um papel impossível.              Quis primeiro criar um papel branco em que houvesse um começo e um fim. Sem nenhuma incoerência ou falha lógica; círculos perfeitos de beleza. Uma harmonia tão grande de forma que se decompõe em risos de crianças alegres no parque. Uma frase tão simples que poderia deixar bobo o mais experiente dos poetas. Sabia de cor todos o...

Bolhas de sabão.

Era como se existisse uma bolha. Crianças brincando com sabão num belo domingo de sol. Sorrisos esboçados no barulho de bolhas de sabão explodindo. Pais felizes de contemplar seu futuro e passado no rosto de seus filhos. Era assim que eu me sentia anos atrás, quando ela disse que iria embora. Foi como se alguém tivesse me roubado a minha mais terna e antiga lembrança. O dia em que nós nos reuníamos para contar nossos problemas, e brincar com nossos filhos. Era como se ela pudesse me roubar à única coisa que me restaria após sua saída. Quando ela foi embora foi como se uma bolha explodisse. Uma imensa e plástica bolha condensada na minha pele que tivesse me impedido de ir embora. A única ligação que eu mantinha com a realidade fora cortada, e eu poderia viver em algum lugar longe da humanidade. Foi assim que eu me senti quando ela disse que nunca mais voltaria. Levou seus CDs e livros em uma caixa antiga. Não deixou telefone para contato. Retirou seus sorrisos e o café requentado ...

Alice no País dos Alucinógenos.

             Ele sabia que deveria estar dormindo. Olhou para as paredes mais uma vez. Desde o acidente, não havia sido o mesmo. Não podia fazer sexo, andar ou qualquer movimento normal como antes. Estava paralisado no medo que havia lhe impregnado o som do motorista falhando. Sua irmã passava a mão na sua cabeça. Eu sei o que vocês vão dizer, eu estou bem. Não estou. Não posso estar. Lembrava-se do penhasco e sabia que o caminho até embaixo seria curto e assustador. Procurou se concentrar em suas lembranças, e não tão somente nos seus pesadelos. Sorriu.              Seus amigos haviam desistido da sua volta do coma. Quando ele voltou foi como se o mundo houvesse apagado sua memória. Não havia nenhuma namorada esperando; essa já havia noivado. Seus amigos haviam se perdido. Ele começou a respirar fundo no primeiro dia da sua vida inteira.        ...

Charles Bukowski.

            Quando Bukowski teve que escolher o que estaria escrito em sua lápide, teve que tirar um longo momento do seu dia. Quando digo essas palavras, espero que vocês tenham em mente a vida errante que ele teve. O álcool e as drogas, dormir em praças públicas e seu amor pelos encontros inesperados. Ele morria de medo de multidões, queria que o deixassem em paz. Preferia a companhia de uma bebida e sua própria solidão, mordendo suas beiradas em noites sem fim. Sem ilusões sobre quem ele era, ou o que haveria depois. Foi isso que ele pensou que deveria estar escrito na sua lapide. Escreveu, lentamente, não tente. Não tente. Não tente. Não tente. Duas palavras para resumir uma vida inteira, e consigo ver o copo de uísque sendo erguido com um sorriso torto. Um riso irônico frente sua insuficiência; sua fraqueza. Sua infindável vontade que o deixassem sozinho num mundo em que as regras lhe pareciam intoleráveis.       ...

Nascimento.

Um homem sábio dizia em plena praça pública que nossas vidas são narrativas. São o que temos que repetir, incessantemente, para demonstrar quem somos. Alguém repete a mesma história: no dia que eu nasci, alguém me disse que fechei os olhos profundamente, as enfermeiras não entenderam porque a criança não abria os olhos, não conseguia ainda articular suas palavras para tamanha incompreensão, choro devagar e lento, sanado pelas mãos cuidadosas de enfermeiras. A criança demorou horas para, finalmente, abrir os olhos. Seus cílios se movendo devagar contra a luz inconcebível daquele berçário, suas primeiras palavras de ajuda frente ao mundo incompreensivo. Se ao menos, fosse capaz de articular uma narrativa naquele momento. Talvez pudesse ter se explicado antes que fosse tarde demais. Os homens contam sua vida a partir das palavras colocadas em uma bela seqüência lógica. Ordenam seus posicionamentos como um mapa de geografia. Um louco foi encontrado em plena Paris construindo marcas em ...

Dedicação sincera.

Corre você. Eu tenho direito de escrever uma página sobre você. Contar sobre os seus detalhes. Lembro bem como começamos a nos falar. A falta de identificação completa com a realidade. Seu sorriso torto. O jeito desajeitado de vir falar comigo. Aparecer onde eu não esperava. Vir escutar meus problemas. Entendo, completamente, a necessidade de se abrir. Mal eu sabia que poderia ser qualquer outro. O entendimento de um tolo que viu uma abertura como uma salvação; um homem que frente a um abismo de sensações, escolhe agarrar sua mão. Delicadamente, dizer que preciso de alguém por aqui. Escutar os ecos de uma guitarra sem som, suas palavras ecoando pelos silêncios do meu quarto. Lentamente, eu digo que sinto sua falta. As partes se recompondo em um todo desmembrado de ilusões.              Contam-me uma história. Um homem anda até seu destino final. O percurso começa a lhe matar, seus pedaços são retirados aos poucos, a cada ...