Postagens

Dissonante.

Helena, Peço desculpas pelo tom dessa carta. Digo, de passagem, que tocava uma sinfonia de piano, enquanto reinavam maus pensamentos na minha mente. Desde que eu voltei da guerra, sinto-me invadindo cada lugar da sua vida. É como se eu tivesse que ter morrido naquele descampado. Você não consegue me perdoar por estar aqui. Cada parte da minha vida parece que estou atrapalhando um equilíbrio divino do qual ninguém me avisou. Sinto o retumbar do piano aumentando o tempo, desculpe, consigo escutar o acorde; alguma coisa está errada. O dissonante invadindo o movimento descontrolado, enquanto lembro-me da sensação de ser um empecilho.             Desde jovem parece que meu papel na vida de todos é ser uma voz descontrolada do tempo. Quando voltei, você me deu um abraço seco. Todos disseram que o tempo longe na guerra havia feito você perder seus sentimentos. Falaram-me dos seus novos amores. Em cada sala que você frequentava, parecia um crime eu me manter ...

Consulta ao psiquiatra.

-Você sabe por que você está de volta? -Úlcera por estresse, eu entendo. Precisa de psiquiatra. Nós já tivemos essa conversa antes. -Já. -Você ficou puto comigo, porque disse que tudo não era sobre sexo. -Você leu a obra inteira de Freud com quatorze anos. -Eu estava entediado. Queria me matar. Sabe como é. -O que foi dessa vez? -O que aconteceu? -É. -Ela me abandonou. -E daí? -Ela me abandonou. -Pessoas abandonam pessoas. -Ela não. Ela disse que não abandonava ninguém. Ela repetiu. Ela disse. Ela prometeu. Ela argumentou. Eu deixei acreditar. Eu quis acreditar. Eu quis como nunca quis algo na vida. -As pessoas não tem que cumprir suas promessas. -Pois discordamos. -Vai ver ela sofreu com tudo. -Não. -O que? -Você nunca entendeu aquela teoria que eu tinha te explicado. -Qual? -A diferença dos sofrimentos. Roubei isso de algum racionalista. Quer ver? -Ela não sofreu. -Porque não? - Ela ama o...

Hotel abismo.

O caos aparece como figura de pertencimento em quase toda mitologia tradicional: um ponto de origem onde a criação humana conseguiu fugir. Os deuses da organização precisaram tampar esse buraco, abismo, como forma de criar a figura do significado. Destruíram o hotel do abismo. O lugar, em si, nunca deixou de existir. No entanto, diversos homens se auto-enganaram do contrário. Ele já havia estado naquele lugar antes, e sua mente entrou em remissão assim que ouviu o coro das vozes que lhe cercavam. Se aquele era seu lugar originário, ele não entendia porque ainda morria de medo. Ele andou em círculos, e se encontrou no exato mesmo lugar que anos atrás. A memória ofuscou o significado de tais lembranças. Suas embromações intelectuais não permitiam que seu orgulho fosse aniquilado mais uma vez. Foi por isso que a primeira voz foi tão contundente ao contar à história que vinha da memória do homem ali deitado. Luzes se iluminaram. No palco apareceram dois personagens permeados...

Projeto de um livro inacabado.

Capítulo Zero.              Venho aqui apresentar a pobre situação em que vamos nos encontrar pelos próximos tempos. Um grande relógio foi colocado na beira de uma praça como símbolo do final da segunda guerra mundial. Várias pessoas iam até aquele símbolo tentar amenizar seus pesares incuráveis. A praça se contaminou de suplícios e preces pelas vidas que foram eliminadas antes do seu tempo natural.              Um dos pais sofredores não agüentou a hipocrisia de um relógio que marcasse o tempo, justamente, em homenagem, a morte de seu tempo subjetivo. O tempo haveria de ter parado na sua mente no momento desesperador em que seu filho foi morto. Por isso, o pai, que trabalhava como relojoeiro, reverteu o sentido do relógio. A justiça seria atingida, assim, que, o tempo fosse entregue de volta em direção contrária.        ...

Declaração clichê.

Porque você gosta de mim. Ela repetia a pergunta. Existe um imaginário criado em cada mente acerca de outra pessoa. Lembro dos seus olhos, quando me fez essa questão. A única coisa que conseguia imaginar era porque ainda não estávamos nos beijando. Gostaria de voltar a sua pergunta, por um instante. Desde quando eu era pequeno, nunca tive nenhuma certeza no amor e tal insegurança me proporcionou imensa descrença sobre seus mecanismos e lógicas; preferia viver como se fosse uma série de confusões. Infelizmente, apesar de toda sua loucura, me imagino um dia acordando do seu lado. Por um segundo, uma sensação muito curiosa se apropria de mim mesmo. Alguns a chamariam de felicidade. É um tipo de sentimento sobre o qual eu não tenho qualquer costume; uma sensação de cumprimento de destino. Imagino que tal sensação tenha sido parecida dos meus avôs quando chegaram ao Brasil, fugindo da segunda guerra mundial, e se encontrando juntos e felizes. Por mais clichê que soe, eu gostaria de acor...

A morte das palavras.

O garoto senta na cadeira do médico. O imenso homem olha para o pequeno menino, e se espanta. Ele havia sentado na sua cadeira, subvertendo um sistema de hierarquias concebido há centenas de anos. O médico começou a dizer, com um longo tom grave, que o silêncio da criança tinha que ser destruído: Não é possível que você fique sem falar, você tem somente doze anos, na sua idade não existem motivos que roubem suas palavras, por favor, volte a falar, qualquer coisa. O garoto sorriu, enquanto disse as primeiras palavras em mais de dois anos: -As palavras não têm nenhum significado.              Se ao menos, alguém descobrisse os dizeres por trás de tão simples palavras. Eles perceberiam que o que o garoto tinha em mente era algo de extrema gravidade. As palavras não têm nenhum significado. Morre seco na sua garganta, o ar que recria a vocalização de meras passagens de ar pelas cordas vocais. Seu sonho era recriar um mundo...