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Psycho.

Os dois se encontraram numa grande praça. Um pequeno café esperava pelos dois. Um dos homens era imenso e tinha grandes olhos penetrantes, enquanto o outro parecia uma reprodução de um pequeno duende das histórias. Era pequeno, extremamente magro e com cabelos de cor forte. A conversa começou num tom informal: -Olha, me explica o que aconteceu. A polícia vai ser generosa. - O homem pequeno disse num tom de pura amizade. -Sabe, se você conseguisse mentir um pouco melhor pelo menos.Você está suando. Sua pupila está  dilatada e você está tremendo. Não me insulte. -Como você sabe?              Os fios, o barulho, aquilo tudo parecia falso. Claro que ele sabia. -Já disse uma vez, eu sou dois homens diferentes. E você está lidando com o segundo.              Um barulho ensurdecedor enlouqueceu os policiais escondidos. Qualquer sinal que estava s...

Não me pergunte mais.

Você me definiu há muito tempo. Uma peça. Dois personagens. Parece absurdamente simples. Um Acredita na verdade. O outro não. Parece uma peça com fim lógico. Mas afinal o que será que fomos que não uma peça milimetramente orquestrada? Penso cada vez mais no seu papel de questionadora: aquela que sempre destruía qualquer intenção de verdade ou validade. Aquela que sorria das crenças alheias. Será que não foi esse sorriso que eu lhe imputei? Na calada noite, talvez tenha sido eu com o meu sonho absurdo que lhe trouxe idéias tão tolas. Um dia você perguntou por que eu havia criado aquele personagem. Eu lhe disse que foi pela peça. Não foi você aquela que destruiu todas as crenças. Fui eu que te dei esse papel e você com tamanha maestria soube conquistar o papel. Você acreditou tanto naquele papel que fui eu que tive que defender o contrário: Eu construí um castelo em que tudo deveria ser a verdade,  o sentimento e  a certeza. Preguei as paredes com tudo ...

Diário das primeiras impressões na terra.

A memória é o elemento fundador do que se define como humano. A partir da memória construímos histórias sobre quem são nossos amigos, nossos pais e tudo que gira ao nosso redor. A memória cria a nossa essência: fora de um sentido platônico, viramos uma massa não definida de sentimentos alheios. Por isso, o humano pode não existir: no momento em que ele é esquecido, ele não existe.              O homem que estava na praça tinha sido abandonado pela sua memória mais bela. A menina, cujo nome eu não consigo lembrar, havia apagado sua memória. Sem fotos, mensagens ou qualquer outro tipo de coisa, ele havia sido apagado. Ele sempre imaginou que se pudesse pelo menos nela guardar seus sentimentos difusos, havia esperança para a sua existência. Mas no momento em que ela apagou-o de sua cabeça, sua existência tinha parado. O contrato da empresa para apagar suas lembranças havia sido feito: em nome de uma vida mais plena, desapegada de memórias que não fa...

Namoros imaginários.

Olhos pelos seus óculos esperando entender seu mundo. As cores que você vê pela forma que tudo lhe aparece. Desejo ser seus olhos para assim conceber suas ações num ser lógico. Ou ilógico. Quem sabe. Somente são óculos e sou completamente separado deles. A cor dos seus óculos escuros me retira do seu mundo. Sou expulso do quarto que nos une, mas eu só queria ficar por mais alguns segundos. Soube que você iria embora: quando, quando e quando. Percebo então que você não foi. Continua no meu peito. Retirando seu corpo, resta apenas à metafísica. A metafísica morre, pois ela se funda no corpo. Separação é pura metafísica e ela morre, mas eu sei que ainda te amo. Percebo a efemeridade do tempo que passamos juntos, por isso decoro seus olhos e contorno. A partir deles, te reconstruo. Vivemos de reconstruções que guardamos na memória. No fundo, estamos construindo um lago de memórias; um lugar que faz parte do que somos. Um lugar para mergulhar quando entrarmos em pane. Quan...

Última conversa.

- Você vai terminar o conto dessa forma? -Como assim? -Sem final. -Claro, como a gente. -Você sabe que isso não é verdade. -Eu sei. Eu excluí tudo. As suas fotos, seus contatos, qualquer coisa que me ligasse a você. -Mas eu ainda estou aqui. Do que adiantou? -Eu to matando seu imaginário. Coleciono uma casa de imaginários alheios. -Eu vi. -Impressionada? -Não muito. Você ainda conversa comigo. -Mas essa é a última conversa. -Não é. -Claro que é. Eu to te chutando do meu imaginário. Eu to colecionando verdades irreais. Agora eu aceito que a verdade não existe. Aceito que eu estou colecionando pessoas e lugares que não existem. Mas você não. Eu estou montando um museu de gente imaginária, e dele você não pode fazer parte. -Porque não? -Porque não posso. Não mais. Sabe, eu andei pensando. Sobre a separação do amor espiritual e do amor físico. E se os dois forem a mesma coisa? Eu sinto que eu sou sempre o primeiro. Sinto que eu preciso separar; preciso viver ...

Amor.

Ela senta na livraria contando o número de homens que passam pela porta. Se ela contar direito, vai perceber que evidentemente nenhum deles era o homem que ela estava esperando. Ele tinha uma rosa vermelha pendurada no bolso do paletó. Um sinal patético de um sentimento tido como quase abominável. De alguma forma, aquela rosa representava no imaginário mais do que uma pobre planta deveria ser. Mas ela estava no seu bolso, como se a visão inteira do homem que adentrou aquela porta estivesse na ponta do seu bolso. Eles haviam trocado cartas por mais de um ano, e ele finalmente conseguir marcar um encontro. Ela era apaixonada pela idéia do amor, mas tão somente pela idéia. Ela não gostava de qualquer personalização daquele sentimento. Ela queria o devir de um sentimento que nunca existiu fora do papel. Ela queria esperar por um homem com uma rosa, que ela nunca iria encontrar. Antes mesmo de vê-lo atravessar a porta, ela já sabia que iria embora. Assistiria até o último mome...

João.

Começa os dias contando às flexões que faz até o chão. Um, dois, três, quatro e cinco. Vinte séries de cinco. Uma, duas, três, quatro e cinco. No cérebro dele, se ele começa o dia dessa forma, nada pode derrotá-lo. Ele ajeita o cabelo enquanto joga a camiseta e a calça jeans mais apertada que tem para fora do armário. Seus amigos costumavam brincar que para um psicopata, ele se vestia como um adolescente normal. Ele passava antes da escola na casa de uma prostituta conhecida da cidade. Uma hora de sexo antes da escola. Ela terminava a noite e ele começava o dia. Ele se lembra de sorrir ao começar aquele ritual de manhã cedo. Ele tinha poucos dezessete anos e já era viciado em sexo. Depois, ambos fumavam um cigarro na rua enquanto o sol nascia. A prostituta tinha longos cabelos loiros e lembrava uma mulher dos antigos filmes de Hollywood. Eles nunca trocavam mais que dez palavras. Haviam se conhecido na noite que ele perdeu sua virgindade com ele. Desde então, eles se enc...