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Os deuses, os homens e o universo.

O garoto levanta. Ele tem 10 anos de idade. Está num quarto escuro sem nenhuma supervisão. Um parque de diversões imenso e o pobre garoto preso num banheiro, quando o lugar já estava fechado. O maior homem do mundo, que não deveria nem estar entre os dez maiores homens do mundo, segundo o livro de recordes, estava entrando no quarto. Ele olhou para o garoto e perguntou o que o pequeno garoto fazia ali: -Eu me perdi da minha mãe. -Vamos falar com o dono do circo. Ele vai achar a sua mãe. Pode parar de chorar. O homem de dois metros usando uma roupa de homem das cavernas levou o pequeno garoto, de olhos profundamente negros, para a barraca principal. O anão que comandava o circo esperava ansiosamente pela mulher de barba; suas expectativas foram frustradas pelo pequeno garoto entrando na tenda. O anão usava um terno roxo, enquanto o garoto usava uma roupa toda preta pelo corpo, o que lembrava um enterro. O anão parecia ter visto um fantasma quando o pequ...

Desabafo.

Nunca vou entender a capacidade do mundo de transformar tudo tão radicalmente. Encher algo de felicidade para logo depois roubar tudo aquilo do fundo do seu coração. O mais cruel não é a falta de felicidade, e sim a falta de felicidade para aquele que já a conheceu. Se Einstein estava certo, o tempo e o espaço são curvos. Não existem mais linhas retas. Se levarmos Nietzsche a sério, não existe natureza humana. Não existe razão. Não existe linha reta do tempo. As garantias vão embora. Elas talvez nunca tenham existido. Mas por um segundo e, somente, um segundo, existiu algo, logo isso significa alguma coisa. Como a falta de explicação porque o tempo e a matéria deixam de existir num buraco negro, porque diabos conseguimos encher nosso coração de algo tão bobo como amor. Talvez não seja necessária uma verdade ou uma ordem universal para sermos felizes. Nós precisamos de alguma garantia. Algum lugar em que segurar numa tempestade. Eu passei boa parte da minha vida acreditando que esse l...

O começo do fim.

A história explica um começo e um fim. Um labirinto infinito sem nenhuma possibilidade de fuga. -Bem, a ideia em si é absurda. -Claro que é. -Dançar num terreno baldio? -Só muita bebida alcoólica. - E eu achando que tinha criado dançar bêbado com belas mulheres. - Não, fui eu que criei isso num terreno baldio no meio do nada. -Vamos lá, com a cultura do meu tempo, fazer essas coisas ficou bem mais difícil. - Por favor, eu criava gado, para de resmungar. -Mesmo assim, todo mundo hoje em dia quer ser tão independente, insensível e essas coisas todas. -Gados, touros, será que você não escuta? - Sempre quis saber o que você pensou do lugar que você estava existindo. Se você existe. -Provavelmente sou figura da sua imaginação. -Eu sei. Eu já vislumbrei a possibilidade. -Bem, eu não tinha o que achar. Você tem que entender 55 anos juntos. Era como perder um pedaço de si mesmo. Por isso ela bebeu tanto. -Isso não é desculpa. -Tudo é desculpa nesse mundo. É muit...

Anúbis.

Ele subia na escada do prédio. Passo por passo, contava o tempo que demoraria até chegar à porta. Parecia um absurdo para ele que o maior prédio da sua cidade precisasse de um vão de escadas para chegar até a porta. O desespero estava em sua mente: ele via aquele prédio sombrio como um lugar cercado por nuvens negras e monstros. Talvez todos pudessem ver isso, mas só haviam escolhido ignorar a muito tempo atrás. A evolução esperta como ela sempre foi, ou desprovida de qualquer sentido como lhe falavam, sumiu com a capacidade de percepção. Ele ser o último elo na evolução da humana, parecia algo engraçado na sua mente. Um ultrapassado, provavelmente. Entrando no prédio, tudo parecia absolutamente normal. Um prédio cheio de escritórios famosos de empresas e advogados; amores antigos na civilização ocidental. Ele se vestia de terno, como era de costume quando o trabalho chamava. Havia dois elevadores imensos, com portas de arquitetura grega. Era impressionante. Ele abriu o elevador do m...

Carta de demissão.

Espero que quando você me derrube, você arranque todo o sangue. Não deixe nenhum ar no meu pulmão. A faca arranque cada força que eu tenho. O soco quebre cada osso que eu tenha. No momento em que eu levantar, nada mais importa. O estridente som da morte chegando. Do ar ficando tonto com o cheiro de sangue. O misto de nojo e medo estampado no rosto de um homem desesperado. A faca que crava na costela flutuante, a falta de coragem de desistir do ataque. Espero que tudo acabe logo, porque o absurdo daquilo não poderia durar. Respirar. Contar até três. Um. Dois. Três. Tudo vai acabar. Não se preocupa. Segura minha mão. Só mais alguns minutos e estará pronto. A energia volta como um relâmpago procedendo o que seria o final de uma era. O ar se perde na direção do pulmão. Respira fundo. Sente o cheiro do sangue mais uma vez. Engole todo o sangue subindo pela sua garganta. Você tem só um segundo antes do mundo acabar. Diga gritando o que você gostaria de fazer antes de acabar sua vida. Levan...

Gatos.

É uma ruela escuta, numa cidade cheia de pessoas sem rostos. O garoto de 15 anos entrou com uma roupa gasta. A chuva caia cada vez mais forte, na medida em que ele adentrava o pátio a céu aberto. Ele chorava, ou era pelo menos isso que todos os amigos esperavam que ele estivesse fazendo. Ele tinha saído correndo desesperado. O dia era ensolarado, até o momento que ela começou a dizer aquelas palavras. Num silencio quase sem fundo, ele parou de escutar. Era como se um véu escuro adentrasse o bar lotado de pessoas e criasse um vácuo. Tudo que ele sentia eram partículas no ar tomando cores sombrias e adentrando seu ao redor. Ele não conseguia respirar. Era como estar preso num plano alheio ao mundo, mas ao mesmo tempo pertencente a ele. Quase sem ar, ele acordou. Tudo tinha mudado. Ele precisava ir embora, até a pequena ruela onde os gatos esperavam. Havia um chamado no ar, e enquanto ele chorava a própria chuva começou. De alguma forma estranha, ele tinha criado aquela chuva. Toda gota ...

Estóicos.

Criamos uma imagem do que queremos que seja humano. Invadimos o outro com portas se quebrando, porque precisamos que o outro seja nosso humano; que ele seja um espelho do que nós somos. Narciso só via no espelho aquilo que queria ver. Inventamos ordem inteiras com a ridícula desculpa que o outro tem que ser nosso humano. Nosso maldito símbolo de estabilidade é esperar que todos sejam como um; que eles respirem o ar de várias vidas seguindo nossa respiração. Nós somos absurdos de querer categorizar todos e colocar crachás tão bonitos, porque fomos nós mesmo que fizemos. Aquilo que sai da nossa mão é o mais bonito, o que está na mão do outro só pode ser horrível e assustador. Nossa incapacidade de compreensão beira aos radicais que quebram a cabeça de outros porque não são eles mesmos. Quando na verdade, o que você deveria perseguir é você. Sua vergonha de ser o que quer que você seja, de se questionar sobre seus absurdos e seus problemas que não tem absolutamente nada com o outro. Os ...